Os três príncipes de Serendip (Vana Comissoli)

“O acaso só favorece a mente preparada”
– Louis Pasteur

Todos que ouviam o sobrenome da família se espantavam por sua estranheza. De forma alguma era um sobrenome comum, de onde tinha surgido e o que significava. Os irmãos, Mauro, Gustavo e Felipe, quando pequenos, sentiam-se importantes em informar que era o antigo nome do Ceilão, atual Sry Lanka, onde seu avô paterno fora adido militar. Na adolescência já haviam cansado a repetição exaustiva da genealogia e o descrédito recebido de que pudessem ter tido tal avô, apenas informavam que queria dizer “acaso”.

Os interlocutores continuavam sem entender nada e questionavam ainda mais. Então mandavam que fossem se ilustrar começando por 1010 e atravessando os séculos, com um pulo pelo Talmud até chegar em Horace Walpole em 1754.
Os irmãos sabiam perfeitamente bem todos os detalhes da história do rei chamado Giaffer e seus três filhos treinados em todas as ciências e artes para, quando chegasse sua vez, pudessem reinar de forma irretocável.
A família Serendip incorporara a tradição descoberta pelo avô João Melquíades e todos os descendentes eram assim educados, não para um reinado, mas para a vida, o maior dos reinos. Os jovens eram estudiosos, divertidos e serenos, nada havia de muito especial fora a fé na serendipidade e em seus princípios..
Nos dias de hoje, a serendipidade é considerada como uma forma especial de desenvolver o potencial criativo de uma pessoa adulta por meio da perseverança, inteligência e senso de observação. Em outras palavras, ela significa que estar aberto ao mundo e a novos conhecimentos pode levar a mente muito adiante.
Sabiam, sem dúvida, que a história da ciência está repleta de casos que podem ser classificados como serendipidade. Arquimedes, por exemplo, descobriu como verificar se a coroa do rei era de ouro enquanto tomava banho (princípio da hidrostática). Já Alexander Fleming descobriu a penicilina enquanto limpava seu laboratório ao voltar das férias.
Tinham a mente aberta para captar os sinais que indicariam caminhos considerados pelos incautos como sorte, acaso ou bum bum virado para a lua.
Tinham nascido em tempos muito próximos, entre o primeiro, Mauro e o segundo, Gustavo, nem um ano haviam se passado. O pai não gostava muito de televisão e preferia divertir-se com a esposa, entregues ao acaso de um possível pimpolho acabar gatinhando pela casa. Estavam sempre dentro da mesma faixa etária, isso era divertido e companheiro, as fases eram trocadas como mais uma experiência de observação de quanto a serendipidade os agraciava, para o bom e para o ruim.
O pai apoiava suas investigações vivenciais:
– A vida não teria a menor graça se não pudéssemos aprender a cada instante e eternamente. Serendipe-se, e abra a sua mente para aprender com os acasos incríveis da vida.
Estavam em torno dos 18 anos e os pais, não sendo do tipo castrador e muito menos videntes de catástrofes legavam tranquila liberdade sem as previsões de alguma terrível catástrofe cair sobre os rapazes. Viajavam como namorados ainda, também tinham aprendido muito bem o legado da família, costumavam pegar caminhos a esmo, nos finais de semana prolongados e deixar o acaso mostrar o pouso. Divertiam-se com os desacertos e curtiam os acertos.
Na volta de uma dessas viagens encontraram como sempre, ao fim do domingo, os filhos torcendo pelo time frente à TV. Apenas Felipe dorminhocava no sofá, fato estranho, pois era o torcedor mais entusiasmado. A seu lado algumas latas de Coca-Cola se enfileiravam. Umas já bebidas e outras cheias, com suor do gelo ainda escorrendo.
A mãe deu um piparote na atenção que brotou imediatamente. Não havia de ser tão infalível assim a sagacidade, sempre tivera receio de levar muito ao pé da letra e acabar quebrando a cara. Foi para o quarto descarregar a pequena bagagem que levavam.
Era um quarto diferenciado, muito amplo, com espaço para poltronas e até um agradável jardim de inverno onde acarinhava plantas. Muitas vezes os amigos se reuniram ali para bate papo alegre e descontraído. Mesmo no inverno, um caseiro fogo de ferro aquecia o ambiente, dando um ar de acolhimento gostoso de desfrutar.
Após poucos momentos voltou à sala e perguntou:
– Qual o sem vergonha na cara que fez festa no meu quarto?
Os três se entreolharam e Felipe acordou num sobressalto. Remendaram mil explicações quase acusando a mãe de inventadeira de pena em ovo.
– Sigam-me e vamos ver quem está inventando o que.
Meus travesseiros estão desordenado e, o de pena, evidentemente recebeu uma cabeça.
– Fui eu – identificou-se Gustavo. Vim assistir TV aqui, os manos estavam jogando.
– TV? E aquele pingo de vinho com pequenos cacos embaixo da poltrona. Também foi vendo televisão? Os restos de vômito na privada foram feitos pela cachorra? Alguém festiou aqui, bebeu demais, quebrou o copo, derramou o vinho, passou mal e vomitou na privada.
Eram irmãos unidos, jamais um iria sozinho para fogueira.
– Nós três. Trouxemos umas meninas, quisemos impressionar. Não passou disso.
Neste momento soou o telefone. Os três se esticaram para atender, Marli foi mais rápida e ouviu:
– Oi, Dona Marli. O Felipe está? Acho que ontem esqueci minha… meu casaco na sua sala.
Marli caiu na gargalhada, coisa que a menina não entendeu nada.
Os filhos ouviram o recado e riram também. Logo os quatros estavam gritando:
– Serendipidade!!!

Vana Comissoli

O fato aconteceu de verdade com meus filhos, só anos depois fui saber que eu já exercia essa força fantástica do Universo que nos surpreende se soubermos nos abrir para ela.

PARA QUEM QUISER CONHECER A LENDA ORIGINAL:

“No país de Serendip (hoje Sri Lanka) há muito tempo atrás, havia um rei chamado Giaffer, o qual tinha três filhos. A estes, proporcionou o monarca a melhor educação sob a tutela dos mais sábios mestres, tanto em matéria de ciência quanto de moral. Ao final do processo educacional, quis Giaffer testar os filhos e lhes chamando disse:
– Filhos, estou velho e já governei por muito tempo; vou me retirar do governo para viver uma vida de busca espiritual. Quero que vocês tomem conta do Reino.
Um a um, os três renunciaram à oferta, dizendo não serem dignos desse poder. Surpreendido com a sabedoria deles, mas não satisfeito, o Rei finge-se furioso com a negação e os manda para uma longa jornada.
Aconteceu que, mal haviam chegado ao exterior, resolvem descobrir pistas para identificar com precisão um camelo que jamais haviam visto. Concluem, então, que o camelo é coxo, cego de um olho, sem um dos dentes, transportando uma mulher grávida, e carregando mel de um lado e manteiga do outro.
Quando, depois, encontraram um comerciante que procurava um camelo, relataram as suas observações. O comerciante, pasmo, acusa-os de terem roubado o camelo e leva os três príncipes diante do Imperador Bahram, exigindo punição.
Os três príncipes negam qualquer crime, ao que Bahram indaga como poderiam ter sido capazes de descrever com tanta precisão um camelo sem nunca o terem visto. A partir das respostas, baseadas em evidências somadas em pequenas pistas, dadas pelos três príncipes, percebe a inteligência dos herdeiros de Serendip na identificação do camelo.
Os príncipes disseram que, como a grama havia sido comida pelo lado da estrada onde estava menos verde, haviam deduzido que o camelo era cego do outro lado. Também falaram que havia pedaços de grama semi mastigados na estrada, do tamanho de um dente de camelo, eles deduziram que haviam caído através do espaço deixado por dente perdido na boca do animal.
Como as faixas de marcas na estrada deixavam as impressões de apenas três patas, a quarta estava sendo arrastada, indicando pelo que devia ser coxo.
A questão da carga tinha sido muito simples, posto que haviam formigas de um lado indicando que foram atraídas pelo mel, de um lado da estrada, e o outro lado mostrava nódoas de manteiga derramada.
Quanto ao transporte da mulher, um dos príncipes disse: “Imaginei que o camelo transportava uma mulher, porque havia notado, próximo à trilha, onde o animal deixara marcas de ajoelhar-se, o rastro visível de pés, claramente femininos, onde tinha resquícios de urina humana que, pelo seu próprio odor, denotava ter sido deixados por uma mulher que tinha mantido relações sexuais há algum tempo.
O outro príncipe, esclareceu que concluíram a gravidez da mulher, pois próximo às marcas dos pés, haviam marcas de mãos femininas, denotando que ela havia se apoiado com as mãos para urinar o que configurava o peso da gravidez.
No momento que terminavam o relato ao Imperador, adentrou à corte, um viajante que discorreu ter encontrado o camelo vagando pelo deserto e que o havia reconduzido ao dono, bem como sua carga e transporte.
O Imperador Bahram, além de, evidentemente, poupar as vidas do três príncipes, os encheu de ricas recompensas e os elegeu conselheiros do Império.
Através de Horace Walpole e suas correspondências com Rei George II (Florença) o termo Serendipidade foi criado. Ainda não presente nos dicionários de língua portuguesa, serendipidade define a capacidade de fazer descobertas inusitadas do acaso, de, no meio do caos, perceber a solução para dilemas. Advém da capacidade de observação e reflexão. Alguns a chamam insight.
Flemimg estudava estafilococos (tipo de bactérias) em placas de petri encubando-os; entretanto, não se sabe porque deixou umas placas sobre a bancada do laboratório. Ali receberam esporos de um fungo, Penicillium notatum, os quais cresceram sobre a cultura de bactérias. Pensando ter perdido seu trabalho, Flemimng antes de jogar fora, teve o insight ao perceber que em torno nos fungos havia uma zona clara sem Estafilococos. Ele investigou a toxina presente e descobriu a penicilina, princípio dos antibióticos – uma das maiores descobertas médicas de todos os tempos. Foi capaz de aproveitar um fato corriqueiro e aplicá-lo na solução de um dilema maior. Isso é serendipidade.
A vida tal como a ciência em parte é controlada pelos nossos sonhos e esforços. Entretando, para o que não é controlado, é preciso serendipidade, sagacidade, jogo de cintura e o mais importante, fé.”
Recanto das Letras – Enviado por Joseph Shafan em 27/08/2010.

Anúncios
Esse post foi publicado em Prosa e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Os três príncipes de Serendip (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Vaníssima continua estraçalhando… Inveja… Verde… hehehehehe
    Abração.

  2. Hehehe. O segredo é que adorei a palavra que eu não conhecia!

  3. Thiago!
    Tu és uma figura! Publicaste os 2, quase caí dura. Mto obrigada. bj

  4. Tiago disse:

    É que gostei tanto desse que achei que merecia ser publicado também. rsrs
    😉

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s