A Caçada (Vana Comissoli)

Desde as primeiras horas da manhã estava totalmente alerta, cada músculo e cada neurônio em posição de espera. Ouvia todos os ruídos e mesmo fora do campo visual podia perceber os movimentos. A qualquer sinal, por mais cuidadoso que fosse, ele atacaria. Estavam enfiados em seus buracos à espreita de qualquer distração, mas este prazer Rodolfo não daria. Tinha boa resistência à fome e a sede e a certeza do lauto jantar depois da vitória lhe dava uma paz e um bem estar dentro daquele estado de extrema tensão e concentração. ¨Eles¨ eram finórios, escorregadios e tinham pernas feitas para correr, não dava para acreditar vendo-os com aquele ar apalermado com as orelhas sempre captando sinais e mais sinais. Eram perfeitos radares, mas Rodolfo não ficava atrás e tinha a seu favor a sagacidade. Apesar da retesão dos músculos não sentia cansaço e mudava as pernas muito devagar, sem ruído. Soubera desde sempre que estavam ali, não podia vê-los, mas os sentia. Digam o que disserem, a vida é isso: estar sempre pronto para a hora do ataque e da vitória. Dormindo se continua atento à movimentos muito mais significativos do que aqueles que se enxerga, os movimentos instintivos do ser, a verdade que o movimenta e que o leva a ficar quieto, apenas a percepção e os pulmões se movendo cada vez mais lentamente. Quanto mais os surpreendia, mais aumentavam em número, não tinha fim. Rodolfo aprendera técnicas ancestrais de paciência para conseguir liquidar com todos. Moveu um décimo a cabeça como se a constatação despertasse ideias dentro dele. Os olhos se tornaram mais aguçados e reconheceu que não desejava o sumiço de todos, acabaria a delícia de saber-se poderoso dentro daquele jogo. Podia perder uma ou outra luta, mas na próxima venceria e gostava do cheiro quente de sangue fresco. Os movimentos na cozinha principiaram e os olhos de Rodolfo dançaram de um lado para outro: permanecer no posto ou dar uma escapada aonde logo subiria o aroma de carne e o calor do fogo eriçaria seus sentidos preguiçosos. O que lhe daria mais prazer? Pegar os anõezinhos prepotentes ou esquecê-los e fazer de conta que ¨la vie en rose¨? Caçar inimigos estava no sangue e era uma necessidade, a sobrevivência dependia de sua coragem, talvez até mesmo o direito de comer comodamente na cozinha aquecida enquanto lá fora o vento rodopiava folhas e velhos. Folhas e velhos… Não gostava de nenhum dos dois, os achava semelhantes demais, fora do estado natural de não perceber o quanto o corpo respondia aos chamados da vontade sem esforço. Depois… depois se é levado para onde os outros queiram. Deixam de respirar, de sentir os cheiros sinalizadores, o ato torna-se uma sobrevivência vergonhosa, unhas e dentes grudados à vida que os nega. Pensava demais, não era bom para a guarda, quem sabe envelhecia e começava a ter noção da transitoriedade. Isso também não era bom, preferia ver a morte como um portão distante e fechado. Cadeado. Por onde só os velhos e as folhas passam. Não tinha medo de tudo acabar, tinha medo de que não acabasse de sopetão e ficasse rememorando coisas deliciosas e voláteis, arrependido de não tê-las valorizado suficientemente. Isso sim, era muito, muito mal. Um ruído ínfimo tirou-o dos pensamentos, percebeu os olhos argutos a fitá-lo. Sabia o que queriam, o que provocavam, queriam que ele saltasse, desse o bote. É isso que faz a fêmea esperta, se expõe ao golpe para ser abatida quando na verdade está armada para fugir, deixando um Rodolfo aniquilado e envergonhado de ter permitido o engano da sedução. Ergueu as comissuras da boca num arremedo de sorriso, não, ele não era bobo, não cairia no engôdo. Para isso era bom não ser tão jovem, já estava treinado para as armadilhas da vida, as promessas sem consistência. Ouviu seu nome ser chamado e não respondeu, não fez nenhum sinal de que tivesse ouvido. Precisava manter o foco, era como uma flecha de ponta fina e cortante para penetrar na jugular sem erro. A distração por mais insignificante, espalharia sua energia para fora de si e engoliria a própria cauda. De novo o chamado, esse era sem som, sabia que vinha de dentro dele, o chamado do instinto que o protegia. Nada e ninguém o distrairia. Saltou, não foi preciso refletir antes, tinha alimentado o institnto com muito cuidado e ele não falhava agora. Não chegou a ver o outro, apenas percebeu o vulto se esgueirando e antes que se desse conta estava caído no chão com os dentes de Rodolfo segurando seu pescoço sem apertar, um sadismo que parecia mesquinho, mas que era parte do prazer de possuir a presa. Senti-la debater-se e com isso matar a si mesma. Jogou o corpo para o lado quando percebeu que amolecia para sempre, não gostava deles frios e já atingira o objetivo. Estirou-se como se nada tivesse acontecido e deu um miado de satisfação. Ser gato era delicioso. Enquanto isso, agachado no canto do quarto desde o amanhecer observando Rodolfo, Luiz Gustavo de 6 anos aprendia a sobreviver.

Vana Comissoli

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2 respostas para A Caçada (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Assim como Morgana (?) incorpora um javali, em As Brumas de Avalon, acredito que Vana já foi gato(a), ou quase, para transmitir com tanta assertividade os sentimentos do bichano (não, eu acho que nunca fui gato, mas penso que deva ser essa a reflexão, se é que gato reflete. Dizem que sim). Escrever o quê, parabéns? É pouco. Abraços. Muitos.

  2. Fernando Bastos disse:

    primeiro achei que era um homem, depois um cão, e só no fim percebi que era um gato. vou ler de novo pq gostei.

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