Serendip (Vana Comissoli)

Olhar o céu para esquecer a terra é infantil: a terra com sua carga pesada de momentos bifurcados, não sai debaixo de nossos pés. De qualquer modo era desta forma que Clarice fugia. Se tivesse a sorte de uma estrela cadente riscar o céu com seu esguicho de luz e se ela tivesse tempo de fazer um pedido e se o pedido fosse ouvido e se houvessem anjos e se amanhã voltasse para África e se encontrasse a amiga por lá e se a amiga estivesse numa boa e se quisesse ouvi-la e se…

Sua vida estava pendurada em muitos “ses”. Tinha o pior de todos, o que não queria ver: E se nada mudasse? Melhor não pensar nisso, a gastrite gritaria como uma louca e a única vontade seria atirar-se na cama como barco à deriva, deixando que o mar a levasse para qualquer lado, desde que fosse longe, muito longe. Preferencialmente a África onde conhecera a amiga Clara. Eram as duas forasteiras, duas fugitivas de si mesmas, fazendo de conta que por lá poderiam ser elas mesmas livres dos incômodos da bagagem do passado.

Voltaram para casa.O passado nem sequer pediu licença e sentou-se na sala ao lado delas, embora morassem nesse país de distâncias quase continentais capazes de separar irmãs de alma. Distâncias se unem por aviões! Levantou de um salto, arrumou-se como permitiu a disposição indisposta e voou para a empresa aérea, vá que desse uma pane no computador e a compra da passagem se perdesse. Não podia correr este risco. Tinha milhas que trariam Clara para perto,sabia que depois deste encontro ficariam muito tempo sem se encontrar. A amiga havia encontrado o caminho e de novo partiria para quem sabe… Que melhor uso para as milhas amontoadas, criando teias de aranha, se não trazer Clara e ficarem caminhando pelo Planalto Central enquanto torravam os miolos físicos e emocionais, trocando sensações, medos e esperanças?

Quando abriu a boca para dizer a “origem” e determinar o “destino”, Serendip, em algum céu distante, cruzou o espaço e sussurrou ao ouvido de Clarice:

-Vá você!

Inverteu os códigos, virou o relógio, desobedeceu ao bom senso e programou a ida ao encontro de Clara em vez de trazê-la ao seu encontro.

Clara a viu de longe, nunca esqueceria o jeito de andar, a reserva colocada nos passos.Quando se abraçaram, misturando cabelos escuros e claros no aproximar das cabeças, não tinha passado nem um dia daquele longo ano. Sorriso de amigo quando não se está com sorriso nenhum é a coisa mais calorosa que existe. É aconchego, recolhimento, segurança, ombro.

Os olhos por fim se encontraram, Clara tinha os seus acesos depois do comprido inverno, mas Clarice… Clarice os tinha baços, cortinas fechadas.

Os dias enfileiraram confidências, risos, saudade da África, descobertas, poços sem fundo. Liberdade.

Tudo tão intenso, profundo, algumas tampas retiradas de panela fervendo água parada, outras flores em botão que desabrochavam depois de longa gestação. Não há forma palpável e cronológica para contar trocas feitas numa amizade, em afinidade de ângulo de olhar. Se eram muito parecidas? Não, não eram.Exatamente aí guardavam o segredo da partilha. Histórias tão diferentes embaixo da mesma estrela cadente,do mesmo Acaso sem caso que as unira.

Clara confessava descobertas, dores ultrapassadas, encontros consigo mesma e mostrava como as pernas tinham se fortificado no passo torto que usara para encontrar o caminho. Falava sobre o abandono do medo de ousar, de entregar-se à Vida e navegar o mundo.

Clarice ouvia avidamente. Estava ainda nos primeiros passos da travessia, tinha pressa em concluí-la e por fim ver a estrada se riscando à sua frente, com suaves planos e escarpadas montanhas, sempre desigual, em direção ao âmago do ser. Seu ser.

Era a última noite, talvez se encontrassem em Lisboa, ou Paris, quem sabe Singapura, ou Ilhas Maurício. O lugar não importava, sentariam do mesmo jeito, com os cigarros queimando o odor conhecido, as palavras saltando com faceirice no atropelo das vivências, os olhos se encontrando como na África distante.

Como seria? O que seria? Quem viria? Quem iria embora? As perguntas não tinham mais tanta pressa em encontrar as respostas, a certeza de que poderiam seguir, fazer e desfazer malas, acumular cartões de embarque e algumas palavras em línguas estranhas, provavelmente amores exóticos, era o que tinham vindo buscar neste encontro de amor permanente.

O céu estava claro dentro da noite escura, cheio de estrelas demarcando os pontos cardiais, viram ao mesmo tempo uma estrela descolar-se da outra e riscar o céu. Serendip! Saudaram e invocaram sonhos ao mesmo tempo e o acaso as abençoou com sua clemência divina.

 Vana Comissoli

• SERENDIPIDADE nos dias de hoje é considerada como uma forma especial de desenvolver o potencial criativo de uma pessoa adulta por meio da perseverança, inteligência e senso de observação. Em outras palavras, ela significa que estar aberto ao mundo e a novos conhecimentos pode levar a mente muito adiante.

• SERENDIP é o nome original do Sri Lanka, de onde provém a lenda dos três príncipes de Serendip que aprenderam a usar com as qualidades necessárias, o acaso a seu favor. Alguns a chamam insight.

• Flemimg estudava estafilococos (tipo de bactérias) em placas de petriencubando-os; entretanto, não se sabe porque deixou umas placas sobre a bancada do laboratório. Ali receberam esporos de um fungo, Penicilliumnotatum, os quais cresceram sobre a cultura de bactérias. Pensando ter perdido seu trabalho, Flemimng antes de jogar fora, teve o insight ao perceber que em torno nos fungos havia uma zona clara sem Estafilococos. Ele investigou a toxina presente e descobriu a penicilina, princípio dos antibióticos – uma das maiores descobertas médicas de todos os tempos. Foi capaz de aproveitar um fato corriqueiro e aplicá-lo na solução de um dilema maior. Isso é serendipidade.

A vida tal como a ciência em parte é controlada pelos nossos sonhos e esforços. Entretanto, para o que não é controlado, é preciso serendipidade, sagacidade, jogo de cintura e o mais importante, fé.”

 – Recanto das Letras – Enviado por Joseph Shafan em 27/08/2010. –

 

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2 respostas para Serendip (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Não há forma palpável e cronológica para contar trocas feitas numa amizade, em afinidade de ângulo de olhar. Obrigado, Vanuska… Axé.

  2. Gracias, meu Príncipe Incentivador!

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