Perto da Morte (Fernando Bastos)

“Sofia lembrou-se que a avó, no dia em que soubera da
sua doença, dissera algo semelhante. – Só agora tomo
consciência de como a vida é rica – dissera ela.
Não era triste que a maior parte das pessoas tivesse que
ficar doente para reconhecer que a vida era bela?”
(O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder)

Você me disse que precisava falar. O quer foi, amigo, algum problema?

Precisava desabafar com alguém. A gente se conhece há mais de trinta anos, e sei que você é a pessoa certa pra me ouvir, aliás, coisa que você sabe fazer tão bem.
Sua cara não tá boa. Fala, o que houve?
Os médicos sabem. Quando um paciente é avisado que tem uma doença grave, a primeira coisa que faz é prometer que vai mudar radicalmente de vida. Depois de algumas semanas, passado o susto, volta a cometer os mesmos erros, deixa a caminhada de lado, retorna à cerveja e às carnes gordurosas. Assim aconteceu comigo. Você sabe, tenho 60 anos cravados. Uma mulher linda e dedicada, e três filhos, todos crescidos e encaminhados. Mas eu achava que viveria até os 100, e esse foi meu erro. Eu já sabia que minha saúde não andava bem das pernas, mas relaxei, e não me cuidei. Agora a coisa ficou séria. Estive novamente no médico, pra umas baterias de exames. Se eu quiser ter uns anos extras de vida, vou ter que entrar na linha, senão…
Eu já havia te falado sobre isso.
Sei, lembro. Mas eu não tinha noção do tamanho da enrascada. Mesmo assim, te garanto que não temo a morte. E Epicuro me lembra: “Por que ter medo da morte? Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser.” O que me faz agora me agarrar à vida com unhas e dentes, é que finalmente percebi que a vida é melhor do que eu pensava, apesar de tudo… apesar de tudo, eu quero viver.
Fico feliz que tenhas agora tomado consciência disso…
Você ouviu falar na enfermeira Bronnie Ware, autora de um livro que trata dos arrependimentos de quem está para morrer? Ela o escreveu após anos convivendo com pessoas em estado terminal. O primeiro dos arrependimentos é: “Muito me arrependo de não ter vivido a vida que eu queria viver, mas de ter vivido a vida que os outros esperavam que eu vivesse”.
Você se arrepende do quê?
Nossa! De tanta coisa. Eu faria muita coisa diferente. A primeira, teria sido mais cuidadoso com minha saúde. A outra, teria sido menos inseguro nas minhas relações. Esses dias, prestei atenção à letra Epitáfio, dos Titãs.
Diz assim “Devia ter amado mais/Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/ Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer…”
É linda e profunda essa letra…
Sim, e serve perfeitamente para mim nessa hora.
Nesse instante, meu amigo me abraçou, e algumas lágrimas inevitáveis desceram sobre minhas faces. Eu estava me redimindo de meus pecados.

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