Brumas (Tiago Nascimento)

Hoje eu acordei com medo,
medo de cair
Um precipício de sonho
formou-se por aqui
Minhas pernas não se firmavam
tive de ficar
Mais dois minutos na cama
antes do despertar.

Minhas dúvidas, meus medos
são partes do que eu sou
se resolvo não acordar ceedo
te pergunto: o que mudou?

Vejo da minha janela sombras
feitas pelo sol ao se mover
Veja que ironia: um brilhante astro
fábrica de escuro ser
E o meu rosto no espelho
sei que logo vai mudar
mesmo se o rubor vermelho
nunca me abandonar.

Minhas certezas e coragens
fazem parte do eu que sou
se opto pela verdade
te pergunto: o que mudou?

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Sotaque Italiano (Marcelo Lamas)

A minha namorada é cinco centímetros mais alta do que eu. Ela nega e diz que são apenas dois. Esta diferença a favor dela nunca foi desconforto para mim.
Percebi que, com o tempo, ela foi gradativamente reduzindo o tamanho dos seus saltos. Hoje, costuma sair praticamente ao nível do mar.
Você já deve ter visto aquela situação em que o homem vai a algum lugar sem a sua respectiva e, ao voltar, é recebido com ironias do tipo: “Onde você estava tão arrumadinho assim?” ou “Pra que tanto perfume?”.
Comigo o problema é outro. Posso aparecer vindo do futebol, do trabalho, da academia, de uma viagem ou de um evento social que exija traje alinhado. Não serei alvo de alfinetadas por causa de vestes ou odores.
O meu drama é outro, uma variável distinta: “Topetinho alto, hein?!” ou “Sim, colocou o topete lá no teto, né?!”.
E tudo se potencializa com um sotaque que aparece repentinamente, fazendo-a parecer uma imigrante italiana recém saída do navio.
E se eu tiver usando meu sapato com salto interno que dá um ganho de seis centímetros a coisa piora muito pro meu lado.
Se eu aparecer na casa dela com um moicano no estilo do Neymar é demissão na certa.
Se bem que ela disse que acha o camisa 11 bonito. Ela também elogia muito o Zezé di Camargo, vai entender.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

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Bloody Mary (Fernando Bastos)

Se o simples bater de asas de uma borboleta causa modificações no ar, podendo gerar uma tempestade no Pacífico, imagina o que poderá acontecer à Humanidade se eu me aproximar daquela mesa e me declarar?

Não, não estou louco. O “efeito borboleta” existe, e se você olhar para trás, verá que talvez o que o levou a estar onde está, foi motivado por um evento aleatório, independente de suas aptidões ou carências. Um mendigo que lhe pediu uns trocados, evitando que atravessasse a rua e fosse atropelado por um motorista bêbado; uma discussão tola que o fez mudar de emprego, e assim se tornar o dono do próprio negócio; um esbarrão no supermercado com aquela mulher que anos depois se tornaria a mãe de seus filhos. Se Alois Schicklgruber, um funcionário austríaco de alfândega não tivesse conhecido Klara Poezl, ele jamais a teria contratado para trabalhar como doméstica, não teria casado com ela, e jamais teria feito um filho nela que seria chamado Adolf Hitler.

De modo que não posso errar. Tenho que decidir enquanto há tempo. Um cristão crê no “livre arbítrio”, que temos a liberdade para escolher entre o bem e o mal. Já um budista acredita no “carma”, somos resultado de ações em uma vida passada. Há quem acredita em destino, de modo que nada que eu fizer tem importância, pois assim como as Moiras fiavam o destino dos deuses e dos homens, o meu também já está traçado. Façam suas apostas. Não sou cristão nem budista, não acredito em destino, sou um “sem religião”, e, se de fato existe um Deus, que nos deu liberdade de escolha, bem que ele poderia ter nos programado para apertar o botão certo sempre que estivéssemos diante de uma encruzilhada, como estou agora, de sorte que nunca olhássemos para trás arrependidos.

Seria bem mais fácil.

Tudo bem, se deve ser assim, vou em frente. A decisão é minha, estou a menos de dois metros da mesa encimada por garrafas, copos de cerveja e taças de batidas; há poucos obstáculos entre mim e ela. Vejo seus dedos longos e finos tamborilarem a taça com um líquido verde. Ela sorve deliciosamente a bebida pelo canudo, fazendo biquinho, e de perfil, seus lábios formam um coração perfeito. Quase morro ali mesmo. Para forçar a passagem, minha mão afasta um blazer escuro, meu braço raspa numas costas brancas, dentro de um vestido de decote generoso. Não sei se terei êxito; se ela se interessará por mim. Tomara que  goste de Blood Mary.

Estou entorpecido. O som do bar é um zunido de abelhas, só lembro que antes tocava “Wish you were here”, parecia dedicada a nós, meu amor, agora o som das conversas se esvaece como bolhas de sabão, não ouço mais a banda tocando, não ouço mais nada, só vejo você, sorrindo, ladeada por imagens foscas, corpos que tremeluzem e dançam semelhantes a fantasmas.

Sento ao lado dela. Ainda bem que havia uma cadeira vazia. Coração a mil.

- Oi, aceita um gole desse Blood Mary?

Ela olha assustada, quem é esse maluco que senta ao meu lado sem mais nem menos? Mais um bêbado perdido, deve ter pensado.

Eu me aprumo, já que comecei vou até o fim.

- Estou aqui por causa de seus olhos. Sonho com eles todas as noites, e nem a conhecia. Ou melhor, sonho com você inteira. Você é quem me visitava nos sonhos, por isso vim aqui para dizer que finalmente a encontrei.

Ela bebe mais um pouco do líquido verde, limpa com um guardanapo o canto da boca, olha para a amiga da direita, ri sem entender nada. Eu continuo: – Faremos um filho que mudará o mundo; ou descobrirá um remédio para a cura do câncer ou será o presidente que irá acabar com as guerras. – Agora eu falava quase gritando, e penso que talvez eu a tenha assustado um pouco, porque ela inclinou o corpo para trás, quase caindo da cadeira. Segurei-a para evitar o tombo. – Viu? O destino da Humanidade está em nossas mãos, somos borboletas prestes a mudar os rumos do planeta.

Ela ouvia-me com a boca levemente aberta, de modo que os dentes que apareciam, muito brancos, contrastavam com os lábios vermelhos, numa expressão que não identifiquei se era de medo ou de pena. Um fantasma ergueu-se da mesa, levantou o braço e chamou alguém. Dois gigantes de ternos pretos me levantaram da cadeira como se eu fosse um saco de lixo e fui jogado para fora, na calçada. Em seguida, levei um chute no meio da boca de um sapato que não sei de onde veio. Tive a impressão de ouvir alguém dizer: “namorada”… “ tirar as mãos dela”…

O sangue jorrou da minha boca, enquanto eu tentava desentortar meus óculos e apanhar um dente. Foi melhor assim. Vai que ela aceita, e nosso filho se torna outro genocida.

Fernando Bastos

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Para os que amam gatos (Sônia Pillon)

Nem todos gostam de gatos. Há os que os
detestam e não suportam a ideia de ter um
bichano por perto. Alguns chegam ao extremo de
odiar os felinos, a ponto de maltratar, torturar
e até matar, de fome, a pauladas, afogados… O
grau de crueldade e as insanidades humanas são
inúmeras, e não cabe nesse momento enumerar.

Afinal, o papo aqui não é para os que odeiam
felinos, mas sim, para os que amam gatos! Sim,
porque não existe meio termo quando se trata
desses animaizinhos de pelo macio e miados
manhosos. Isso porque dificilmente um gato
provoca sentimentos de indiferença nas pessoas.

Poucos conseguem manter o olhar de um
gato por muito tempo. Geralmente as pessoas
desviam o olhar primeiro, desconcertadas. Pode
ser perturbador ser olhado de uma forma tão
penetrante, como a desvendar mistérios…

Os antigos egípcios consideravam o gato uma
divindade, de tanto que admiravam suas
qualidades de estrategista, raciocínio rápido e
agilidade, até para eliminar os ratos. No tempo
dos faraós, gato era sinônimo de extrema boa sorte.

Na Idade Média, durante a “Santa Inquisição”
dos católicos, os felinos eram associados às
feitiçarias. E portanto eram queimados, como
as bruxas. Mas eles seguiram em frente e se
proliferaram pelo mundo…

A altivez característica de um gato aparenta
nobreza, com um toque de segurança. Seus
movimentos estratégicos e seu porte transpiram
independência. E mesmo que você o alimente e
o mantenha com você, não se engane: ele estará
sempre no comando!

Egocêntricos, manhosos, dorminhocos,
preguiçosos, traiçoeiros… Não faltam definições!
Gatos adoram se adonar de um canto da casa que
você considera seu, como um sofá, ou a cadeira
mais cobiçada da sala. Mas não fique chateado.
É uma característica deles. Eles não tem como
evitar…

Apesar de parecerem tão mimados e birrentos
-com suas unhas afiadas, sempre prontas para
darem o bote, se forem contrariados – eles
também podem ser adoráveis, afetuosos e fiéis
com seus donos, reconhecidos pela casa, comida,
banhos, pet shops e tudo o mais… Ou seriam eles
os “donos do pedaço”?…

Outra dica: assim como os cães, se você adotar
um gato abandonado, tratá-lo, alimentá-lo,
cuidar de sua saúde e higiene, der toda a atenção
e carinho, ele certamente saberá retribuir! Pode
ser a companhia ideal para quem vive sozinho,
por opção, ou não.

E nunca se esqueça que ter um gato de verdade
não é como ter um bicho de pelúcia! E que
adotar um animal de estimação implica em
responsabilidade. Você não pode simplesmente
acordar um belo dia e decidir jogar o seu gato
fora, como se fosse lixo, caso se canse dele ou
decida viajar… Nesse caso, melhor deixá-lo livre
para procurar outro lar. Sempre haverá alguém
que adorará ter a companhia dele por perto. Para
os que amam gatos, sempre haverá um lugar
reservado, na casa e no coração.

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC), Brasil.

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