A ilha e o iluminado (Sônia Pillon)

Envolto em suas vestes rústicas de algodão, o venerável iluminado dividia com seus discípulos o pouco de arroz que havia sido trazido pelos visitantes do último verão. Os viajantes enfrentaram grandes dificuldades até encontrá-lo, em busca de um novo sentido para suas vidas. O rigoroso inverno fazia com que as poucas cabanas do vilarejo ficassem tomadas pela neve.

O vento soprava forte e o frio congelava o corpo até os ossos. Assim, uma tigela de arroz quente era uma dádiva que o mestre agradecia profundamente. Desde que havia sido exilado para esta inóspita ilha de Sado, na longínqua província de Niigata, ele sabia que sua vida não seria fácil. Mas aceitou o degredo com resignação. Aliás, sobreviver naquelas circunstâncias seria seu primeiro grande desafio, para depois cumprir sua missão espiritual, de transmitir para seus adeptos a essência do budismo: a benevolência.

Desde o primeiro dia em que desembarcou na ilha, o monge tinha consciência de que precisava usar todos os ensinamentos que adquiriu. Após anos de pesquisa nos escritos secretos de Sakyamuni, o primeiro Buda, se sentia na obrigação de fazer isso. Era sua missão e ele não iria fugir! A falta de alimentos, roupas adequadas e materiais para escrita nunca o desencorajaram. O sofrimento físico era suportado sem queixas: intensificava as orações. Mas o que o abalou profundamente foi saber que seus seguidores de Kamakura haviam abandonado a fé.

Enquanto mastigava lentamente sua porção de arroz, se dirigiu aos fiéis discípulos: “o arroz não é meramente arroz, mas é a própria vida”. Com isso, reforçava que garantir o alimento para si e para os demais é indispensável para a sobrevivência do homem. Sem sentia cansado, profundamente esgotado. Sabia que seu fim estava próximo. Vislumbrou que a série de escritos que deixou aos discípulos, os goshos, um dia iriam sair do Japão e ganhar o mundo.

Sentia que, como mestre, precisava abrir os olhos das pessoas para que enxergassem a verdade, se libertassem das ilusões e das visões distorcidas, para que identificassem o caminho correto. Para que fossem éticos e comprometidos com o bem comum em suas ações. Seria como um testamento humanista para a humanidade. Isso o deixou gratificado.

E foi assim, com esse sentimento de dever cumprido, que Nitiren Daishonin, que mais tarde seria chamado de “O Buda Original dos Últimos Dias da Lei”, se recolheu para dormir o seu último sono, na noite de 13 de outubro de 1282. Ele tinha 60 anos e deixou um rastro de bondade, compreensão e esperança ao seu redor.

Um dia antes de partir, para desolação dos que o amavam e sentiam que se tratava de uma despedida, Nitiren entregou seus documentos ao discípulo Nikko, que mal conseguiu conter as lágrimas. Enquanto viveu, Nikko guardou as relíquias como a própria vida. As futuras gerações lhe foram gratas.

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre e radicada em Jaraguá do Sul desde 1996. É autora de “Crônicas de Maria e Ouytras Tantas – Um olhar sobre Jaraguá do Sul”, lançado pela Design Editora em julho de 2009. É autora residente dos sites de literatura Letras et cetera, Cooperativa de letras e no http://soniapillon.blogspot.com.br (em construção).

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