Escritora Convidada: Marilice Ferraz

ESTE CORPO NÃO TE  PERTENCE

           Em cima do caixão de terceira classe do filho, com os olhos inchados e vermelhos pela noite em claro e pelo choro copioso, Dona Francisca já se sentia seca, sem lágrimas.  Em pouco tempo os poucos amigos, parentes e vizinhos começariam a chegar, o filho seria enterrado e logo tudo estaria acabado. Inclusive sua própria vida.

          Agora a mãe era capaz de pensar; a emoção já se fora e a razão, aquela que deveria nortear a vida dos seres humanos e que há tempos abandonara seu filho, era sua única companheira , no silêncio da sala pobre, vazia e fria do Velório Municipal.

          Tudo menos culpa. Dona Francisca experimentava um misto de sentimentos,  mas se recusava a se sentir culpada pela morte do filho. Fizera o melhor que pôde por ele a vida inteira.

          Quando menino, a pobre mulher chegara a perder bons empregos em casa de família para cuidar de sua bronquite asmática que o levava à beira da morte, quase que cotidianamente. Mais tarde, quando fizera 10 anos e a saúde tinha “endireitado” (depois de tantas idas e vindas à casa da benzedeira do bairro), fez o favor de cair do telhado molhado do vizinho pra pegar uma pipa, e ficar retardado, depois de muitos dias inconsciente na UTI.

          Retardado. Brigava com os vizinhos e com a família dela quando diziam isso. Mas, no seu íntimo, e agora diante dele morto, podia admitir: era mesmo um retardado. Por isso mesmo é que Dona Francisca  estava inconformada. Não podiam ter explorado e abusado de um retardado!

          Tudo começou com o vizinho pentecostal que, todo domingo, o queria levar pra Igreja.

          O filho nunca deixou de morar com a mãe, já tinha então a idade de Cristo e nunca tinha tido experiências mundanas, nem mesmo conhecido mulher. Era ingênuo como uma criança.

          A mãe dizia que não, que não fosse atrás “dessa baboseira”, era batizado na Igreja Católica e “não existe religião mais certa, meu filho; não se muda a natureza!”

          Mas Dona Francisca sabia também que o filho não tinha mais nada pra fazer além de sentar-se no alpendre da casa com o radinho de pilha e o papagaio no ombro.

          “Olha, quer saber, filho, vai com o rapaz lá, só hoje, não demora pra voltar e não se empolga muito, não precisa bater palma e gritar como os outros, tá? Só olha pra cruz de Cristo e canta, pensa no menino Jesus.”

          E lá se foi o filho, todo sorridente, com o vizinho; desceram o morro. A igreja ficava perto.

          Mas o que era uma visita de curiosidade passou a ser um hábito dominical. E em pouco tempo, o que era um hábito dominical passou a ser uma prática diária e, ao final de um ano, o filho tinha as chaves da igreja e era responsável pela limpeza dos banheiros, do salão, da arrumação das cadeiras, da água do pastor em cima do púlpito.

          Dona Francisca achava aquilo um grande abuso. Era uma mulher simples, mas não era boba, nem retardada como o filho, sabia reconhecer uma exploração. “Então era empregado do pastor agora?”

          E , pra sua surpresa, ao passar em frente do templo, voltando da feira naquela quarta-feira chuvosa, equilibrando guarda-chuva e sacolas, viu o filho ao lado do púlpito, ajudando a exorcizar um demônio do corpo de uma mulher.

          “Então o filho, que nunca conseguira freqüentar uma escola e tirar um diploma, aprender um ofício, nem mesmo datilografia, agora era especialista em expulsar demônios ? Além do mais, como alguém pode ter um demônio no corpo em pleno meio de semana? Quem trabalha não tem tempo pra adotar um demônio!”

          Dona Francisca era cética com relação à vida e às religiões. Era católica por batismo mas nunca fora praticante e como poderia ser? Inúmeras vezes havia constatado que as religiões desvirtuavam as pessoas, despertavam o que elas tinham de pior. Acreditava na fé  em Deus, pura e simplesmente e acima de tudo acreditava que ser religioso era agradecer e tão somente agradecer. Não se sentia digna de pedir nada a Deus, embora suas necessidades fossem muitas e de todas as naturezas.  Embora tivesse sofrido a vida toda com o filho, agradecia aos céus por ter a ele, afinal nada mais nem ninguém havia em sua vida. O marido, quando percebeu que tinha um filho problemático,  se mandou ( há muito tempo) com outra mulher, “uma que não tinha problemas”.

          E assim, o filho, que passou a participar dos rituais de retirada de demônios dia após dia, acabou adotando um para si. Foi o que se disse para consolá-la na porta do hospital para onde o filho fora levado em estado grave.

          “Uma ocasião, Jesus ordenou que o demônio saísse do corpo de um homem e se lançasse sobre uma vara de porcos que pastava nas proximidades e os porcos se jogaram do precipício”, assim explicou o pastor para a mãe inconformada e assim Dona Francisca, já resignada, tinha explicado pra vizinhança por que o filho se jogara do sétimo  andar do prédio onde fora pagar uma apólice para o pastor.

          E ali estava ele agora, o caixão lacrado. Os poucos amigos, parentes e vizinhos começaram a chegar, o filho de Dona Francisca seria enterrado e logo tudo estaria acabado. Inclusive sua própria vida.                                                                                                                                                                                                                                               Marilice Ferraz

Esse conto faz parte de uma coletânea  de 6 contos que abordam o tema suicídio, com o título “Sobre Vidas e Mortes”, apresentada para o Projeto Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária em 2006.

Marilice Ferraz de Almeida tem 49 anos, é nascida em Marília, no interior do Estado de São Paulo e reside no município catarinense de Jaraguá do Sul há 11 anos. Formada em Letras (Português/Alemão) pela UNESP, atuou como professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira por 17 anos na cidade paulista  de Araraquara, por 4 anos atuou na Administração Pública Municipal de Jaraguá do Sul como Diretora de Recursos Humanos, Coordenadora de Projetos e Cerimonial. Nos últimos 5 anos tem atuado como professora de Língua Portuguesa e Literatura no Colégio Marista São Luís.

 

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2 respostas para Escritora Convidada: Marilice Ferraz

  1. Inacio Carreira disse:

    Pungente, profundo, sofrido, vivido. Nem contra nem a favor, muito pelo contrário. Marilice aponta, com gesto sofrido, com palavras doloridas, (parodiando Nelson Rodrigues), a vida como ela é. Se eu tivesse o direito, diria: Parabéns.

  2. vanacomissoli disse:

    Estranheza. Isso é que me suscita este conto. Estranheza entre pensamento e ação. Pessoas simples costumam agir diante de suas definições de vida. Haverá um sub texto aí? Para mim parece que sim, um pouco mais exposto chamaria de um clássico difícil e perfeito.

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