Sol Outonal (Vana Comissoli)

Eu poderia observar aquele passeio sob o sol de outono o dia inteiro. Era lento, com breves paradas para acompanhar o voo das caturritas barulhentas. Trazia o jornal dobrado nas mãos que poderia ser uma adaga ou simplesmente um jornal, não podia adivinhar a expressão de seu rosto para saber exatamente o que o jornal representava. Tudo que me cabia era conjeturar.
Eu o via de muito alto, debruçada na varanda do oitavo andar, também absorvendo a delícia do outono, muito mais íntimo do que a primavera que incomoda um pouco com seu vento transportando polén.
Ele parou por instantes na frente do banco do jardim, havia dúvida em seus passos agora como se estivesse decidindo se sentava ou seguia. Eu torci para que continuasse, seria mais divertido para mim e possível de interpretar. Sentado, eu só poderia ler a curva de suas costas, a posição dos pés e se os braços largariam o jornal. A maior probabilidade era que se pusesse a ler e isto tiraria toda a graça de meu brinquedo. O incentivei com a força do pensamento concentrado: Vamos! Vamos! Ele era fácil, seguiu no mesmo ritmo de antes.
Nada havia de especial em sua caminhada a não ser o meu olhar. Vestia roupas que se perderiam nas ruas: calça jeans e uma camisa xadrez em tons de azul, igual a milhões de outras que caminham por aí. Não tinha um passo nem muito largo e nem muito apertado, não balançava para os lados como se dançasse e não era capenga. Chamou minha atenção apenas por ser a única pessoa caminhando no jardim às 5 horas da manhã de um plenilúneo perfeito de maio. A lua absolutamente redonda como um farolete no céu apesar de já estar bem claro. Eu deveria estar em meditação permitindo que a energia do Cosmo viesse a mim através da lua inusitada, mas espiava.
Com certeza ele não sabia que estava atraindo minha atenção, me tirando de um pensamento universal, de certa forma aquele homem de passos e roupas comuns era universal.
Sentiu-se exercitado por que entrou num dos prédios em torno do jardim e esperou o elevador sem demonstrar nem impaciência e nem lassidão. Esperava como se o elevador fosse velho conhecido e soubesse seu ritmo e não adiantasse fazer nada, não surtiria efeito. No entanto era novo na zona, caso contrário eu já o teria visto, ou não uma vez que era tão comum. Os cabelos eram castanhos e para mim não tinha olhos. Não estava ficando careca, podia perceber olhando o topo de sua cabeça. Estava em torno dos 50 anos vividos de forma absolutamente normal, sem grandes sobressaltos à excessão de um casamento desfeito, mas isso atualmente também era mais do que normal.
Não exagerava na comida e fazia algum exercício além de caminhar no jardim por que não era barrigudo e tinha um corpo normal. Eu nunca vira alguém tão normal como esse homem! Isso era fascinante.
Através da porta envidraçada pude vê-lo entrar no elevador. Minha manhã outonal havia terminado. Mesmo assim permaneci no meu posto, não apareceria outro tão encantadoramente normal, mas… Se desse sorte eu veria um torto, rápido e desesperado, coisa mais normal do que ser normal.
Para minha surpresa após poucos minutos ele apareceu na varanda do quinto andar e eu quase podia ler seus olhos agora. Havia uma rede e ele se esticou nela com o jornal nas mãos, com certeza ficaria assim até a contracapa. Eu não recebia jornal, mas adivinhava o que estava lendo. Eu ouvia incessantemente a Bandnews e todos os acontecimentos do Brasil e do mundo se atualizavam a cada 20 minutos.
Uma revoada de caturritas deu pinceladas de verde entre eu e ele que se levantou para acompanhar o voo até que pousasse numa árvore próxima. Éramos privilegiados, tínhamos jardim e caturritas, uma ilha surreal em meio à São Paulo de pedra, como gostam de dizer.
Voltou à rede e estava se pondo a par das inúmeras manifestações que ontem haviam trancado todo o trânsito já trancado ao natural do dia a dia e muito mais na sexta feira. Gente apanhou e foi presa, alguns coquetéis molotov bastante em moda nestes tempos bicudos, embora não mudassem nada. Depois passaria por alguns assassinatos e posteriores linchamentos, a Justiça andava muito lenta, as pessoas concluiram que acelerar seria uma saída para limpar o país.
Seu time deve ter perdido ontem por que o futebol anda refletindo as ruas e ninguém põe fé na tal de Copa do Mundo que levou um bocado de dinheiro embora e fez outro tanto de manifestações. Também não deram em nada e a Presidenta continua cheia de dentes com seu mestre ainda surdo porém bastante falante de asneiras. Talvez os jogadores tivessem um pouco de vergonha na cara e resolvessem reclamar de seus salários milionários não mandando a bola para o gol.
Meu vizinho levantou da rede e entrou, voltou em seguida vestindo a camseta do Corinthians e um copo de café na mão. Não era xícara ou caneca, era copo mesmo e pensei que a louça deveria estar desfalcada. Ontem ouvira barulho de louça quebrando, ou sendo jogada de propósito nas paredes. Teriam sido as dele? Ninguém joga um prato na parede assim, do nada. Foi em outro apartamento, ele não teria essa fúria interna que transborda quebrando coisas e não era rico, era remediado, não se desfaria de seus pratos e xícaras para comprar tudo outra vez.
Não se deitou na rede, sentou atravessado e com os pés pousados no chão o que impedia o balanço suave que vai dando um soninho…
Agora estava lendo a entrevista de um psiquiatra americano maluco pregando que drogas podem ser boas e podem ser usadas quando se conhece. Para conhecer não terei que usar por um bom tempo? Por que conhecer não é apenas uma apresentação, precisa intimidade. Ao terminar a leitura, ficou olhando o espaço, lembrando de seus tempos de garoto onde queimou alguns cigarros de maconha até arrebentar o carro do pai num poste e desistir para sempre.
Jogou o jornal no chão e ficou lá parado, tive vontade de abanar, ou fazer sinais em código como se faz nos navios, pelo menos na minha imaginação isso acontece por que acho poético falar através de bandeirolas coloridas. Adoraria receber uma declaração de amor dessa forma, embora jamais tenha navegado e de avião não é possível. A pressa de nosso mundo tirou a graça das coisas lentas, nem surpresa temos por que tudo acontece tão rápido que não há tempo suficiente para degustar a espera.
Se debruçou na guarda e olhou lá para baixo como se o chão estivesse mutio próximo. Próximo demais, eu diria e fiquei pensando se ele tinha saído da normalidade. Pessoas normais não se encantam com o chão, muito menos quando não está acontecendo nada nele a não ser algum passeio de formigas impossíveis de serem vistas do quinto andar.
Certamente a anormal sou eu que fico imaginando tragédias e crimes insuportáveis que conseguem abalar as pessoas. Que bobagem! Todos os dias cai um elefante branco no meio da rua, as pessoas contornam e seguem seu caminho. Alguns param um pouco dizem: Oh! E está lamentado. Quando muito farão uma manifestação inconsequente para incomodar um pouco o sono da presidenta que nem se incomoda mais. Continua interrompendo reuniões ministeriais para tomar o lanchinho da meia manhã e xingar alguma besteira qualquer, talvez para inventar mais um cargo de salário altíssimo para o primo do primo de sua prima. Tudo isso são apenas notícias para ficarmos indignados e quietos em nossas redes balouçantes. Coisas de gente normal.
Por momentos deixei de enxergar meu homem normal que sumira da varanda. Varanda ou sacada? Num lugar é varanda e noutro é sacada, essas mudanças de hábitos de falar me complicam um pouco e usarei os dois termos para todo mundo poder entender o que meu homem normal está fazendo. Coisa muito banal por que o comum não causa frisson. Ou será que atualmente está tudo tão fora do comum que exatamente ele desperta curiosidade?
Faz tempo que eu sei que não sou normal por que tenho amigos anormais e continuamos pensando e questionando a anormalidade que se tornou normal. Não usamos roupa da moda seja ela fashion ou demodé, curtimos usar simplesmente roupas, ainda comemos alimentos feitos em casa preferindo alguma coisa não plastificada. Nossos celulares não são de última geração, assistimos filmes velhos e ó, tremenda anormalidade!, lemos.
Vejo luz de televisão no interior do apartamento do meu homem normal. Provavelmente foi assistir algum noticiário onde favelas pegaram fogo matando alguma dezena ou talvez centena de pessoas. São todas pobres e pardas então não farão falta alguma embora o apresentador faça cara de horror para em seguida abrir um sorriso anunciando o dentifrício que devemos usar a partir de agora. Quase dá vontade de sair correndo para o mercado antes que acabe nas prateleiras, tão convincente ele é.
Meu homem normal está ficando meio anormal por que volta à janela só de cuecas e camiseta e está com o cabelo ouriçado como se tivesse acabado de fazer sexo e sei que não fez por que está sozinho e ninguém é tão anormal que bata uma na frente do noticiário. Francamente as notícias são tão devastadoras que tiram todo e qualquer resquício de tesão.
Fico um pouco preocupada novamente e acho que tem visão aguçada e vê lá embaixo o carreiro de formigas levando para casa todo o lixo eletrônico que jogamos no meio da rua junto com dezenas de milhares de garrafas pet, latinhas de cerveja e mais um caminhão de seringas usadas para fins não muito curativos.
Estou ficando bem pesada, está se tornando uma bronca dos infernos ver o que vê um homem normal. Dá mesmo vontade de sair nu e fazer alguma manifestação espantada para conseguir um pouco de atenção e quem sabe consciência. Consciência é uma coisa que pesa e puxa para baixo igual bola de ferro na perna de presidiário antigo, quando até presidiário era mais bonzinho dos que os bonzinhos de hoje em dia.
E não deu tempo nem de gritar, o homem normal subiu em pé na rede, balançou e se jogou varanda a fora gritando como caturrita.
Eu achei perfeitamente normal.

Vana Comissoli

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