O fim da jornada (Sônia Pillon)

Os pés de Lindalva estavam inchados, assim como suas pernas, doloridas de tanto caminhar por aquele desfiladeiro cheio de pedras, com ar rarefeito e iluminado por apenas uma réstia de luz. Sentia todo o corpo moído, a cabeça pesava, mas sabia que tinha de continuar. Faltava mais um pouco para alcançar o seu destino, e por mais que o cansaço gritasse em cada molécula de seu corpo, ouvia uma voz que sussurrava em seu ouvido.

– Aguenta mais um pouco, só mais um pouco. Você já está chegando lá, Lindalva! Nesses momentos, ela se enchia de ânimo e continuava. Era como se recebesse uma injeção de energia na veia que a fizesse esquecer tudo o mais.
Ficou lembrando do inferno que deixou para trás, daquela vida que pouco a pouco foi se tornando insuportável, até que decidiu romper com o passado e partir, antes mesmo do galo cantar. Ainda deu uma última olhadela no sítio, para o galinheiro e o estábulo. Até as vacas do pasto estavam dormindo. A única que a viu foi a gata Morena, que a olhou profundamente, como se entendesse o que estava acontecendo, e passou pelos seus pés, à espera de um agrado.

Saiu pela porta dos fundos, sem testemunhas, nem remorsos. Pelo contrário! Fazia quase um ano que passou a morar com a tia Filomena, depois da morte dos pais, ainda abalada com a perda repentina deles. Ninguém esperava aquela tragédia com o caminhão, justamente no dia do aniversário de casamento dos pais. E pensar que ela, Lindalva, que há dois meses tinha completado 18 anos, achou que ao aceitar o convite da tia, para a ajudar no sítio, teria a chance de uma vida nova, continuar estudando para prestar vestibular para gastronomia, sonho acalentado desde pequena.

Já na primeira semana, a jovem começou a conhecer a índole falsa e traiçoeira da tia. Descobriu que a voz mansa, a religiosidade, as demonstrações de afeto e a preocupação com as pessoas não passavam de uma fachada que ela se esmerava em manter. Mas o dia a dia foi mostrando o quanto ela era soberba, egoísta, fria e calculista.
Gradativamente, Filomena começou a exigir mais e mais da sobrinha. Tinha prometido uma ajuda de custo, que Lindalva concordou. Afinal, ela estava vivendo ali, não pagaria o aluguel até que o inventário dos pais saísse. Porém, passou a trabalhar de 10 a 12 horas por dia. Uma das primeiras coisas que a “tão querida tia Filomena” fez foi dispensar a empregada da casa. Para que manter a funcionária, se a sobrinha estava ali?…

Quando reclamava de cansaço e de que precisava de mais recursos e tempo para estudar, a tia sempre repetia a mesma ladainha: “O nosso combinado não foi esse, Lindalva! Você deveria dar graças a Deus que te recebi na minha casa!”. Mas as roupas novas e os gastos supérfluos de Filomena desmentiam a falta de recursos…

Lindalva soltou um profundo suspiro. Eram quase 7h, o sol já despontava e ela finalmente avista a cidade à sua frente. Um largo sorriso toma conta de seu rosto. A vaga no restaurante da pousada veio na hora certa. Ia poder trabalhar e investir na carreira profissional. Sentiu uma brisa soprar no rosto e por uns instantes fechou os olhos. Depois ajeitou os cabelos, a mochila e se preparou para iniciar uma vida nova.

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