Veracidade (Inacio Carreira)

Histórias alegres o comoviam. Fosse em filmes (fotografias com a ilusão de movimento) ou contadas nos livros, revistas, crônicas, televisão. Letras de música (que normalmente choram desamores, juras quebradas, adeuses) cantando aproximações, ritmos dançantes, intimidades aparentemente levadas ao público, confissões… A emoção do abraço, do primeiro beijo, a tia acariciando o sobrinho (filho emprestado?) fazendo-o lembrar de tias-mães e carinhos que ficaram no tempo e no espaço. Inatingíveis. Amizades de facebook (curtir, comentar, compartilhar), a opinião comportada em ícones, a expressão bitolada, o Big Brother manipulando a emoção.
Aproximação de parentes em programas da tarde, tipo “mulher revê a mãe após 30 anos de afastamento”, “Voluntário da Força da Paz reencontra filhos gerados no Japão pós-Segunda Guerra”, “irmãos descobrem-se vizinhos em São Paulo” o apontavam solidário/solitário. O analista apresenta o tema “Encontros de Família” e os desencontros internos que acarretam, ou não. Lembra do filme “Parente é Serpente”?… É por aí. “Encontros e desencontros”, outra lembrança… “Old Boy”, afastamento trágico, vingança, mesquinharia. Sempre, como pano de fundo, a solidão.
Histórias fúnebres o comoviam. Saudades o emocionavam. Fossem de lugares, momentos, pessoas. Paisagens, flores, abraços, sorrisos de crianças, pores do sol em algum lugar do mundo. A aproximação com os filhos eternizada na foto da cabeceira da cama e na estante da sala. Pelas incontáveis mortes que vivenciara, de parentes próximos e distantes, amigos, inimigos (desafetos?), desconhecidos em catástrofes esmiuçadas lágrima a lágrima pela televisão sensacionalista: se muito trágica, com direito à capa de revista semanal, que bons acontecimentos não viram notícia.
Os incontáveis amigos no Skype e todos off. Fim de noite na cidade pequena lembra da megalópoles e da solidão de final de semana, caso não tivesse programado nada com os poucos – e esparsos – relacionamentos. O mundo no monitor e ninguém – ninguém – com quem dividir as dúvidas, o doce de abóbora, a carne grelhada que aprendeu a preparar ingrediente a ingrediente num pool de receitas consultadas no Google. Ou no tradicional “Dona Benta”, que o acompanha vida afora e não depende de energia para responder…
Histórias humorísticas o deprimiam. O riso forçado, a claque nos momentos marcados, as trapalhadas à The Three Stooges: nas poucas vezes que levou as crianças ao circo, ria das palhaçadas mas as crianças não riam, ele fazia a claque para levar uma falsa alegria não compartilhada por elas. Hora de rir, hora de gargalhar, parem, riam novamente. O circo da vida, nada místico, mísero, apequenado pelos guinchos dos animais na coxia.
“Na madrugada a vitrola rolando um blues / Tocando B. B. King sem parar”… E se viesse a morte, única amiga, que nos acompanha a partir de um determinado momento da vida, a boa e velha petit mort tornando-se a última, grande, completa, definitiva morte? Referências: O Império dos Sentidos, O Livro de Cabeceira, o clássico O último tango em Paris… Será que o velho coração aguenta mais uma? Sexo ou diazepam? Morrer por morrer… Atropelado, de tiro, de queda livre, afogamento, queimado, de amor… Então, que seja de amor. Ainda que, como em boa parte da sua vida, solitário.
Aceitar o convite para uma tarde de amor no dia do aniversário do convidante. Melhor que morrer. Sim, a vida é melhor que morrer. Aqui sabia bem das histórias alegres que o comoviam, da aproximação de parentes que o apontavam solidário/solitário, das histórias fúnebres que o comoviam, dos incontáveis amigos off no Skype, das histórias humorísticas que o deprimiam, da madrugada cheia de referências, da cabeça cheia de referências, referências cheias de referências. Citações. Sinopses. Como alegria, lembrança do amigo que reapareceu, mudou de cidade mas continua o mesmo. Cidade…

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2 respostas para Veracidade (Inacio Carreira)

  1. O ondular da vida em meio à cidade que sempre surpreende, até quando não acreditamos mais.
    Um velho amigo perdio… Quer melhor do que isso? Só dois disso.
    Vera Cidade, meu amigo!

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