O destino não bate à porta, entra pela janela. (Vana Comissoli)

Salvador_Dali_and_Walt_Disney_Destino
Bateu 8 horas, ainda tinha relógio carrilhão. Já estava arrumada e maquiada, pronta para se debruçar à janela. Sorria, por que sorrindo deveria ser achada.
Desde que a cartomante dissera que na vida tudo já está escrito e que seu destino a encontraria na janela, Miranda cumpria o ritual. Resolveu que seria à noite, depois das oito, nessa hora saíra da cartomante e não aconteceria antes de ter sabido.
Já fazia 9 anos e meio que se postava, não recebia mais convites para o que quer que fosse, os parentes e poucos amigos tinham desistido, ela sempre se negava. Nem, aniversário, festa antes das 10 horas, cinema, absolutamente nada a tirava de casa. Por dois anos passara a noite acordada, esperando e no outro dia cambaleava no trabalho, tentara contar a amiga do peito, servira de gozação e resolveu que destino é coisa secreta.
Hoje deitou-se meia hora depois das oito sem que nada acontecesse. Chorou antes de dormir. Estava demorando demais e seu coração pesava. Perseverança, é preciso saber esperar e ter paciência. Fora fazer yoga e meditação para absorver as qualidades necessárias a tão longa espera. Agora desistira. Dane-se o destino!
O dia se arrastou e Miranda negou-se a olhar para os lados, não via as pessoas na rua, no ônibus e muito menos as que perguntavam alguma informação, ou a atropelavam. Era na janela e na janela seria, mas agora não seria em lugar algum.
Oito horas e ela não se arrumou, tomara banho e se enfiara no pijama. Não conseguiu deixar de se debruçar no batente da janela, conhecia todos os prédios à volta e sabia até mesmo os programas de televisão que os vizinhos assistiam sempre naquela cor azulada que televisor tem à noite. Reconheceu que estava esgotada, tinha dado todas as chances e nada…
Não existe destino! A vida é essa chatice sempre igual, és uma boba mesmo, disse para se convencer de uma vez para sempre. O que existe é gente com sorte e gente sem sorte, sou do segundo grupo. E esta história de sonhar muito e forte para acontecer é engana trouxas como eu. Se encontra ou não se encontra e não encontrarei. Chega!
Abriu uma garrafa de vinho e buscou os cigarros guardados há 2 anos. Deixara de fumar, chegara à conclusão que a fumaça espantava o destino. Bebia sucos de frutas, o destino também não gostava do bafo de álccol, se estivesse ¨alegrinha¨ ele poderia voar janela a dentro e Miranda confundir com barata de verão.
Estava tão habituada com a janela noturna que resolveu continuar se debruçando, mas com uma diferença, não esperaria mais o destino de lindos olhos, nem escolhera a cor qualquer uma servia. Poderia vir capenga, ou velho, não tinha importância. Esses haviam sido pensamentos que se formaram ao longo dos anos, agora os abandonaria. Ficaria à janela para criar histórias de fadas, afinal destino não passa de contos da Carochinha.
Imaginou que a moça prá lá e prá cá, no prédio em frente, não era a conhecida Julieta, era a outra Julieta, a Capuleto e o João Fernando do apartamento abaixo era Romeu Montecchio. Ela vestia lindas sedas vermelhas com manto azulão para reguardar-se. E danem se não gostam das cores, xingou os vizinhos que saíram à janela neste instante. Romeu estava de calções alaranjados (odiava essas bermudas modernas e largas) e camisa com jabô de rendas.
Levou um susto quando João Fernando colocou meio corpo para fora da janela e aos gritos convidou Julieta para descer e jogar truco. Ela acenou e sumiu para em seguida surgir no apartamento dele levando bolinhos.
¨Eu nem sabia que eram amigos¨, espantou-se Miranda e ficou estarrecida quando ele pegou Julieta pela cintura num beijo cinematográfico. Voou bolinho para todo lado e as cartas de truco nem sequer apareceram na cena.
Miranda suspirou:
– E foram felizes para sempre. Alguns têm destino, outros não.
Mudou o rumo do olhar, não era indiscreta e depois, João correra as cortinas. Sabia que Elisa xingava um pouco os filhos inquietos à noite, assistiria este bang bang metropolitano. Tomara que não desse chineladas nos meninos desta vez. Não gostava dessa parte. As crianças falavam e gesticulavam frente à mãe que ria com jeito bem feliz, abria a bolsa e tirava balas que estendeu aos filhos. Ficaram bem juntos no sofá até que eles se ajeitassem na certa meio dormidos.
E foram felizes para sempre, recitou Miranda. Alguns têm destino, outros não.
No último andar morava Maurícia e Verônica há anos, chegaram um pouco depois de começar a espera pelo tal destino. No início Miranda implicara, pensara misérias ao ver as duas se beijando na boca, depois das aulas de yoga e meditação até achava engraçadinho. De uns tempos para cá elas estavam dormindo uma na sala e outra no quarto. Miranda pensara que essas relações nasceram para dar errado, não faz parte do destino duas mulheres se amarem. Resolveu vesti-las de princesas, ficavam bem assim. Não conseguiu que o vestido parasse no corpo de Verônica, colocou-lhe belas calças de veludo marrom com um colete verde folha. Na passagem para a cozinha, as duas se encontraram, pararam a se olhar e por fim beijaram-se talvez como nunca antes. Foram de mãos dadas para o quarto.
– E foram felizes para sempre, reconheceu Miranda. Uns têm destino, outros não.
Passara bastante das dez horas e ela continuava a olhar as vidas predestinadas dos vizinhos. As luzes tinham se apagado quase todas, apenas os postes da rua que separava os dois prédios não apagariam, pensou Miranda, para que os destinos possam se reconhecer. Uns têm destino, outros não.
Nessa escuridão maior uma luz colorida e móvel chamou sua atenção. Não a conhecia, tinha certeza. Era bonita de ver, percebeu ser um daqueles abajures que a pantalha é recotada em desenhos por onde a luz atravessa e nas paredes aparecem peixinhos, ou aves, plantas aquáticas aumentadas pela distância. Devia ser morador novo e era mesmo, até ontem aquelas janelas não se abriam. Lembrou de ter tido uma dessas luminárias na infância e do quanto gostava. Ao ser aquecida pela lâmpada a pantalha girava e tudo parecia estar em movimento. Um sonho de mar, ar e do que mais fossem os desenhos.
Sem pensar, jogou por cima do pijama um casaco longo, mentalmente calculava qual seria o apartamento do abajur. Atravessou correndo a rua, ignorando o ridículo, apertou o interfone articulando desculpas esfarrapadas, por fim disse:
– Boa noite, vi sua luminária de minha janela, tive uma e adoro, posso ver de perto?
Ouviu a risada divertida de um homem que logo concordou e o clic da fechadura deu espaço a ela. Estava espantada de sua audácia e falta total de receio, coisa bem inusitada.
Quando a porta do apartamento foi aberta se apresentou. Ele sorria e disse seu nome: Lourenço.
Quando o galo cantou no despertador lá do outro lado da rua, no apartamento de porta escancarada os dois ainda conversavam e sabiam bastante de suas vidas de espera.
Uns têm destino, outros também e às vezes ele entra pela janela.

Vana Comissoli

Anúncios
Esse post foi publicado em Prosa e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para O destino não bate à porta, entra pela janela. (Vana Comissoli)

  1. Anônimo disse:

    Para maior luxo (como se precisasse), ilustrado por um desenho de Dali, o Salvador? Quantas histórias, quantos finais prováveis, quanta alegria ao constatar que, para essa descrente, o destino / e a sorte entraram pela janela. Ainda que ela tenha se arriscado, nessa época onde a falta de respeito com as mulheres é uma tônica. Mas tu o sabes. Boa semana. Beijos.

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s