Os dez mandamentos restaurados (Fernando Bastos)

Ano: 2.099

O choque de civilizações previsto por Samuel P. Huntington nos últimos anos do século vinte parece ter chegado ao seu auge. Começa com as torres do World Trade Center vindo abaixo após a investida de dois aviões; agora, tudo leva a crer que a Humanidade caminha para a terceira e a mais bestial de todas as guerras. Uma cruzada moderna liderada pelo governo dos Estados Unidos se instaurou para combater o avanço das forças do Oriente, que desejam dominar o mundo.

A Europa pertence a eles desde 2066.

Onde havia o Vaticano, ergueu-se a maior mesquita do mundo; símbolos cristãos desapareceram, igrejas e catedrais foram incendiadas ou derrubadas, bares e danceterias fechados, biquínis e maiôs sumiram das praias e piscinas. A sensualidade é reprimida pela Polícia da Moral. Mulheres andam cobertas dos pés à cabeça, ladrões são enforcados em praça pública. Ontem, seis mulheres acusadas de adultério foram apedrejadas até a morte no estádio de Wembley, para delírio dos crentes e dos novos convertidos. Os europeus esclarecidos, e mesmo os imigrantes que já residiam no Velho Mundo, amantes da liberdade, igualdade e fraternidade, veem com tristeza e dor que o lema da Revolução Francesa foi varrida do mapa pelos extremistas.

A “sharia” reina absoluta em solo onde um dia Montesquieu, Voltaire, Darwin, Freud e tantos gênios ajudaram o Ocidente a sair do obscurantismo mantido durante séculos por culpa e obra dos inimigos da ciência. No olhar dos invasores, é a luta de Deus contra satã, o império do mal, conhecido como Estados Unidos, e toda a imoralidade despejada pelo american way of life. Para o que resta do mundo livre e ocidental, as novas cruzadas representam a última esperança de evitar que sucumbam a democracia, os direitos humanos e a liberdade.

– É o Armagedon. O futuro da Humanidade está em nossa mãos – diz o major Smith, comandante da operação que levará a máquina de quase 50 bilhões de dólares de volta no tempo. Objetivo: encontrar Moisés, o profeta bíblico, e convencê-lo a alterar os Dez Mandamentos.
– E se falhar? – pergunta a Dra. Hanna.
– Iremos saber disso em breve.
O major de cinquenta anos e alguns fios grisalhos nas têmporas, observa no painel os números que indicam o momento da partida: 4…3….2…1… A máquina se desintegra diante dos olhos da equipe da NASA. O projeto de Ronald L. Mallett, professor de física da Universidade de Connecticut, estava sendo posto à prova. Inspirado pela Teoria da Relatividade Geral, sua invenção baseou-se em um conjunto de raios lasers em forma de espiral, cuja potência seria suficiente para deformar o espaço-tempo, permitindo viagens ao futuro e passado.

– Oh, meu Deus! – exclama o comandante. Einstein estava certo.
– E Mallet também – diz Hanna – Dois grandes loucos!
A nave levando os dois tripulantes acaba de chegar ao monte Horeb, situado ao sul da península do Sinai. Data registrada: século 13 antes de Cristo.
– E eu pensei que os dois anos de curso intensivo de hebraico tinham sido em vão – diz a PhD em astronomia – tirando o traje espacial e ficando de calcinha e sutiã sem constrangimento; depois coloca roupas mais adequadas à ocasião: uma vestimenta marrom de linho com cinto preso à cintura e sandálias cujas solas são feitas do couro duro do pescoço de camelo. Embora as hebreias não fossem obrigadas a usar o véu o tempo todo, a doutora Hanna prefere colocá-lo, por conta do sol abrasador do deserto.

Enquanto se veste, nota um olhar furtivo do comandante, e pensa: “Apesar dos meus 45, ainda devo despertar a libido de alguns homens”. Ela não tem o que temer, está em perfeita forma. Em Harvard, onde ela dava aula, muitos estudantes de vinte anos a convidavam para sair, preterindo as alunas da mesma idade. E chegou a ir para a cama com alguns deles. O major Smith troca-se de costas para a mulher, no espaço exíguo que dispõe. Ao ver a cueca Calvin Klein, a cientista assovia e provoca:
– Uau!, a academia surtiu efeito, estás com os glúteos firmes, comandante.
Ele olha por cima do ombro, rosto levemente corado e diz, tentando parecer sério:
– Com todo respeito, Doutora, não é hora para observações mundanas. – Então, coloca a kethoneth, a vestimenta interior feita de algodão, que chega aos joelhos e por cima joga o me’yil, uma capa enrolada ao corpo, de pano quadrado de cerca de três metros de largura.

A missão começa.

Se obtiverem êxito, sabem que o futuro da Humanidade será diferente. Com extremo cuidado, os dois tripulantes descem da nave. Subitamente, veem assomar por entre as pedras uma decrépita figura, equilibrando-se com dificuldade no terreno íngreme com seu cajado. O rosto está queimado do sol. Mais tarde, os narradores bíblicos irão registrar que Aarão e os israelitas tiveram medo de se aproximar do profeta por causa do rosto que brilhava: sinal que estivera na presença de Deus (Êxodo 34,30).

Ao ver o casal, Moisés ajoelha-se como fizera no seu primeiro encontro com Javé, quando fora encarregado de libertar os israelitas do jugo faraônico. Naquela ocasião, Javé apresentara-se sob forma de uma sarça que pegava fogo sem se consumir. Na verdade uma ilusão de ótica. Essa planta espinhosa, também conhecida como “Shittim”, vista de longe, dá a impressão de estar em chamas quando parasitada pela Loranthus acaciae, uma planta que possui frutos e flores avermelhados.

– Sois anjos enviados pelo meu Senhor? – indaga com a voz trêmula e gaguejante, o pastor de ovelhas, segurando as tábuas da lei que acabara de receber.
Doutora Hanna, que domina o idioma hebraico melhor que seu colega, acha por bem manter o equívoco do profeta e responde:
– Sim, Moshe. Somos anjos. Mas não tenhais medo, vamos explicar tudo. Viemos aqui para fazer algumas alterações nos mandamentos do Senhor, nosso Deus.
Moisés olha para as pedras que contêm os regulamentos e pergunta:
– Fiz algo de errado?…
– O Todo Poderoso deseja que tu destruas estas pedras e confecciones um novo código. Ele viu o futuro, e o que viu, não O agradou.
– O que Ele viu, podeis me dizer?
– Guerras, destruições e mortes, muitas mortes. De modo que Ele nos enviou para que tu graves os novos mandamentos.
O profeta parece indeciso. E se forem demônios?
– Como poderei saber se vós faleis a verdade?

Um deles, o que tem aparência de fêmea, o rosto branco como leite de cabra e olhos azuis faiscantes, e que fala sua língua com sotaque estranho, aponta-lhe uma tocha que não sai fogo, mas emite intensa luz amarela, ofuscando-lhe a visão.
– Não, meu Senhor, não me cegueis! – implora aos prantos o ancião.
– Faze apenas o que mando, Moshe. Pegue o cinzel, e escreva.
O velho dessa vez obedece prontamente. Com o instrumento cortante escreve o que lhe é ditado sobre dois blocos de pedra cedidos pelos “mensageiros divinos”, previamente cortados nas medidas de 50 por 35 centímetros cada um.

Os dez mandamentos:

1. Terás apenas uma religião: a do Amor.
2. Todos são livres para crer ou não na existência de um Deus criador. Ninguém será punido pela dúvida ou descrença.
3. Não imporás tuas crenças e opiniões à custa de ameaças e violência. Mas o farás com argumentações racionais. Mais importante do que crer, é ser bom e honesto para consigo e os outros.
4. Não matarás um ser humano em nome de Deus ou por qualquer outro motivo. As exceções são: a eutanásia, que só será realizada quando não há mais meios de impedir o sofrimento do paciente e em legítima defesa.
5. Viverás de modo a não causar dor e sofrimento a ti, nem a outras pessoas e animais.
6. Não discriminarás ninguém pela crença, cor de pele, etnia, orientação e gênero sexual.
7. Farás sexo somente com pessoas mentalmente sadias e que já tenham idade suficiente para que possam decidir se querem ou não fazê-lo, isto é, a partir dos dezoito anos.
8. O governo de cada nação deverá respeitar a liberdade de pensamento e os direitos de cada ser humano de viver com dignidade e respeito. Através de impostos arrecadados dos que trabalham, o governo dará ensino, moradias aos mais pobres, lazer e cuidará da saúde de todos sem custo para a população.
9. Darás a décima parte de tua riqueza para os mais pobres.
10. Os maiores de doze anos, mentalmente sãos, que causarem deliberadamente dor e sofrimento a seres humanos e animais serão presos e pagarão com trabalho os custos de sua detenção, além de ressarcir com dinheiro ou bens as vítimas ou responsáveis por elas. Mas nenhum detento deverá sofrer qualquer tipo de castigo que abale seu corpo ou sua mente.

É noite quando o casal de cientistas deixa o Sinai e volta para o futuro. Ano: 2.146.
– Meu Deus – diz apavorado o major – estivemos ausentes quase meio século!
– A relatividade, comandante.
Pela janela da nave, os dois observam aterrorizados a capital do país em ruínas; há focos de incêndio e fumaça por todos os cantos. O cheiro de carne humana queimada penetra as narinas dos dois viajantes do tempo, assim que abrem a porta do veículo espacial. Um homem envolto em trapos, com feridas por quase todo o corpo vasculha os escombros atrás de comida. Os dois astronautas aproximam-se dele. O major pergunta:
– O que houve aqui?
– Onde é que vocês estavam? Em Marte? – pergunta irônico o homem. – Faz mais de um mês que eles lançaram as bombas em cima de nós.
– E o resto do país?
– Destruído. Não há mais América, nem Europa, África, Ásia e Oceania. Alguns fugiram para a Antártida, estão lá a comer peixes e focas nesse momento, suponho. Nunca ouviram falar que as grandes potências tinham arsenal atômico para destruir o mundo dezenas de vezes? Finalmente, conseguiram.

Hanna abraça o major e, sem conseguir conter as lágrimas, diz, com a voz embotada:
– Não pode ser, Smith. Fizemos tudo certo, alteramos os mandamentos, não era esse o plano? Dar ao mundo regras humanistas que fariam dele um lugar seguro e bom de se viver? O primeiro mandamento: “Terás apenas uma religião: a do Amor.” O que aconteceu de errado?

Século 13 antes de Cristo.
Moisés acaba de chegar ao acampamento israelita, e irrita-se com o que vê:
O povo eleito corrompera-se diante de um ídolo de ouro. Aarão, seu irmão, tenta explicar que não é sua culpa, fora ameaçado a fazer o bezerro de ouro, já que seu líder demorava-se no alto da montanha. Moisés atira as duas tábuas da lei contra as rochas, espatifando-as. (Êxodo, 32,19). No dia seguinte, volta a ter com Javé. Mas desta vez, escreve as leis originais.

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