Abrindo Portas (Vana Comissoli)

Um dia comum, tão comum quanto qualquer outro dia comum, o cheiro do conhecido impregnava as narinas de Maria. Por que teria outro nome senão esse…  Comum… Maria… Bem comum e era um dia comum. Enjoou da repetição? O comum é uma repetição! O dia transcorria comum e Maria quase não suportava mais o dia tão comum e o silêncio que era comum apenas naquela casa de paredes brancas e sofá que quase nunca abraçava alguém. Nem os insetos gostavam dali, nunca os via e nem deixavam rastros.        Ela arrastava-se dividida entre o computador e a televisão, ambos a cansavam em pouco tempo, precisava revezar para não se atirar pela janela. Bem que gostaria e, às vezes, bem que a ideia passava por sua cabeça e se enxergava pipa carmim boiando no silêncio do céu azul. Não se lançava por sempre lembrar do silêncio azul, isso arrepiava, de silêncio e repetições estava farta. O azul se estendia repetitivo e igual, nem sequer nuvens boiavam nele. Monotonia e monotonia até o infinito.
Era outono, logo o inverno estaria batendo à porta, uma oportunidade de balançar o dia impossível uma vez que era hora de trocar as prateleiras e deixar à mão as blusas de lã e os capotes. Silêncio hibernal, gelado e restritivo. Nem olhar pela janela modificaria o cenário, as pessoas saem muito menos no inverno. Suspirou e foi em direção ao armário, antes ligou o rádio, a casa precisava de algum som, nem que fosse os falsos que a acompanhavam: televisão, computador, rádio, cedês.
Abriu as portas desavisada, conhecia suas roupas a ponto de não atraí-la mais, na verdade usava sempre as mesmas, não havia interesse em trocá-las uma vez que a não ser ela mesma, ninguém passaria por ali para prestar atenção. Desestimulou-se da vaidade.
As portas cederam sem resistência alguma, foi então que…
O armário não tinha roupa alguma, mas estava lotado, transbordando!
Maria saiu imediatamente do dia comum e espantou-se, a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi seu nome, Maria da Graça, fazia tanto tempo que era só Maria que levou um susto. Verdade, tivera alguma graça que fora esquecida e engolidas pelo silêncio de seus passos leves. Tão leves que nem parecia caminhar. Às vezes se perguntava quem protegeria dos ruídos? Talvez protegesse as presenças que não tinha, elas poderiam sair voando porta à fora espantadas e encolhidas. Era melhor deixa-las perambulando por ali, poderia fingir que tinham existido um dia… Tão perdido dia.
Começou a tirar coisas e mais coisas de dentro do armário e a cada uma observava como se pertencessem a uma pessoa desconhecida. Já fiz isso? Perguntou-se em voz alta. Imediatamente milhares de sons atropelaram o silêncio. Não eram misturados virando zoeira sem sentido, vinham claros, dançantes, tinham formas e rostos, entonação de voz e cores, exatamente do jeito que eram quando entraram em sua vida. Bailavam e reviviam suas lembranças, até mesmo as esquecidas no fundo do fundo das lembranças. É lá que guardamos as coisas mais preciosas, tanto as boas, quanto as ruins que acabam se tornando preciosas por serem tijolos de nossas vidas.
Maria da Graça sentou-se no meio daqueles personagens todos e entabulou conversas de 10, 15, 20, todos os seus anos atrás. Foi revivendo os episódios, as risadas, as bobagens ditas, as tragédias que julgara dramáticas. Algumas eram mesmo e arrancavam lágrimas dos olhos, outras eram risíveis e se tornavam riso suas infantilidades da meninice. Vestidos de renda cheirando à paixão, calças muito justas caminhando em direção à mulher que se tornaria. Conversas e risadinhas com as amigas. Tudo tão igual e tão diferente do hoje. Não se cansava de reviver, queria mais e mais e o armário não se cansava de satisfaze-la. Saíam dos cabides meninas faceiras, rapazes de olhar de esguelha, brincadeiras, coisas sérias, lágrimas sem fim. Cabelos desfeitos e cuidadosamente arrumados. Cigarros escondidos e o trabalho de se livrar deles anos depois. Os filhos correndo em sua direção, hoje tão distanciados em suas idades adultas, cada um, sem saber, enchendo seus próprios armário para um dia poderem olhar o desfile que hoje ela apreciava.
Após algum tempo de imensa satisfação ela estaqueou:
– Estaria a morte batendo à porta? – Perguntou-se. Já ouvira dizer vezes sem fim que perto da morte vemos o filme de nossas vidas inteirinho. E não era isso que estava acontecendo?
Via-se desde a mais tenra idade, crescendo através de dores, conflitos, alegrias e escolhas, podia enxergar seu estado atual sendo construído na reunião de tudo.
A vida estava muito e muito insípida, já desejara que acabasse de uma vez por todas, uma vez não sendo nem sequer ruim. Para que viver, ou teimar em viver se nada acontecia como se estivesse mergulhada num limbo sem fim? Viver é buscar felicidade, sofrer se preciso, mas estar dentro do movimento da vida e não à beira, apenas observando como parasita que suga o que outros produzem e ele não tem fibra para produzir nada. Não queria ser um vampiro sugando vida de plástico através da televisão em noveletas irreais e ridículas. Jamais vivenciáveis. No entanto, fruto do instinto ou da vontade, morrer não queria, não parecia justo nem para ela e nem para quem a amava, apesar da distância e do silêncio.
Apenas uma coisa poderia fazer agora: observar. Observar e analisar a si mesma e compreender ainda não sabia o quê, alguma coisa lhe cutucava insistentemente sussurrando que coisas secretas estavam tentando sair de gavetas muito bem fechadas do armário, talvez escaninhos secretos que apenas o silêncio, até então maldito, poderia lhe entregar a chave do mistério.
Sentou-se diante do desfile de suas experiências sem participar delas, deixando que a atravessassem, que despertassem coisas bem mais profundas que a mera revivência. Esqueceu-se das horas, deixou que o tempo se perde-se na poeira dele mesmo. Não sabe se ficou ali horas, ou dias, lembrava que de vez em quando ia à cozinha e comia qualquer coisa que já estivesse pronta por lá.
Acordou, ou terá voltado de uma estado de consciência desconhecido? Isso não era nem um pouco importante, agora estava novamente ali, diante do armário mágico e suas lembranças se acomodavam à sua volta. Sorria para as bonitas, lamentava as feias e se gratificava com as conquistas, até mesmo com as derrotas que a fortaleceram para deixar de ser ¨mulherzinha de meia pataca¨. Nenhuma delas era realmente significativa, haviam sido. Hoje o que importava não acontecia e precisava acontecer, de outra maneira o armário ficaria assim aberto e vazio de presente, cheio de passado disfuncional. Aos poucos tudo se deterioraria e as lembranças mofariam estagnadas, quase inúteis, elas precisavam de ar e de luz para existirem. Lembranças nada constroem apenas cochicham que se está fora de moda. Dobrou as memórias, espanou muito bem as prateleiras antes de guardá-las arrumadas por ordem de idade e fechou as portas.
Sem saber o que fazer, mas de alguma forma sabendo que faria, sabendo que algo se revelara, foi dormir.
Acordou suando no meio da noite, mas não tivera nenhum pesadelo, apenas era como se tivesse que estar alerta. Atravessou as últimas horas que a separavam do novo dia com algumas borboletas na barriga, mal surgiu a luz, estremeceu e não entendia por quê, era na luz que as coisas começariam a acontecer.
Abriu todos os armários, da cozinha ao quarto passando pela sala com seus cristais. Encheu sacos e sacos de coisas guardadas, há anos não tinham serventia alguma. O mais estranho é que fazia aquela limpeza com alegria e nem as coisas ou roupas pelas quais tivera tanto carinho deixavam vontade de quero mais, era uma libertação que transpirava uma leveza desconhecida. Mandava o passado morar no passado e abria portas que a levariam não sabia ainda para onde. O desconhecido não a amedrontava mais, não a tolhiam grudada no que foi vivido e não volta, a estrada à frente se tornara ampla e possível. Foi um dia inteiro de esvaziamento. Deitou-se em paz e dormiu com os anjos.
Na manhã seguinte o telefone tocou cedo e estava com pressa. O convite foi aceito imediatamente, estava pronta. Arrumou a mala que ficara leve e partiu para as novas possibilidades.

Vana Comissoli

Esse post foi publicado em Prosa e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para Abrindo Portas (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Vaníssima, que bom que abres portas e dixas que participemos de tua faina. Tenho certeza que o lugar das “novas possibilidades”, para onde o personagem foi, nos traga sempre mais narrativas, novas descobertas, nunca comuns.

    • Inacio Carreira disse:

      REPETINDO POR MOTIVO DE ERRO NA INICIAL.
      Vaníssima, que bom que abres portas e deixas que participemos de tua faina. Tenho certeza que o lugar das “novas possibilidades”, para onde o personagem foi, nos traga sempre mais narrativas, novas descobertas, nunca comuns.

  2. Gracias, amigão. Eu também espero.

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s