Aquário (Inacio Carreira)

Lucas_Cranach_d._Ä._der Jungbrunnen

Para quem é avô de netos ainda crianças, sendo também adotado pelos filhos e netos dos amigos, que o consideram “avô do coração”, a notícia de que crianças afogam-se em piscinas, por problemas nos ralos de sucção da água, é preocupante. Aviltante. Lamentável.

“Quando eu era jovem diziam que este é o país do futuro. Estou velho, este é o futuro? Bombeiros morrem queimados ou intoxicados (está virando epidemia, pandemia, endemia), brincadeiras aparentemente inocentes (qual a criança que não gosta de água, principalmente nas altas temperaturas constatadas naquele meio de verão?) transformam-se em armadilhas, tirando vidas inocentes e levando ao limbo pais e mães, que passarão o restante de suas vidas com o questionamento da culpa, associada tanto ao pecado quanto à lei, fazendo sombra à maioria da população, pois que os amorais não imputam-se culpa alguma.

Pensava em seus netos, distantes, e nos tantos pequenos próximos, olhando poças d’água e riachos, o mar e piscinas, caixas d’água e ofurôs. Lembrava da lenda de Ofélia, citada por Shakespeare em Hamlet. Acidente ou suicídio? Será que essa dúvida levou ao To be or not to be? Claro que não, estava somente exercitando a ironia. Neurônios ativados, vem à tona a imagem da escritora Virgínia Woolf, ou melhor, a imagem que o cinema passou-lhe da morte de Virgínia, no filme As Horas. Afogada a 28 de março, seu corpo foi resgatado após 21 dias. Ela deixou um bilhete de despedida ao marido Leonardo Woolf, também escritor:

“Querido, tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar”. Sofria? Com certeza. Chorava? Quem o poderá dizer?

“Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar”, continua seu bilhete testamento, que segue com mostras de consciência, amor, orgulho… Quem poderá julgar tal procedimento?

“Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. … Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais”: esta é a voz de alguém que ama, que sabe que é amada, que afasta-se para dar oportunidades de crescimento à pessoa amada.

O que Leonardo sentiu ao ler estas derradeiras palavras: “Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V”?

Pensar. Pensar… Pensar! Com essas elucubrações perseguia a insegurança, olhando preocupado nas poças d’água e riachos, caixas d’água e ofurôs, o mar e piscinas. Piscinas. Dizem que têm uma longa história, grandes tanques encontrados em pirâmides do Antigo Egito, informação que ele refutava, pois em sua vida nunca vira qualquer alusão a isso. Entretanto…

Dizem, também (como esse povo fala, brincava com os botões), que as piscinas e banhos públicos foram responsáveis pela contaminação, por altos níveis de chumbo, de parte da população da Roma Antiga, levando à teoria de que o envenenamento está intimamente ligado à queda do Império Romano.

Segue o trem, pensava: durante a Idade Média elas eram utilizadas para rituais do batismo cristão, sendo os crédulos mergulhados para purificação. Os tanques das igrejas ficaram menores, virando as atuais pias batismais.

No século XVII já existiam, novamente, balneários com piscinas públicas, mas a água não era tratada, expondo os banhistas a doenças. O tratamento veio com a evolução da natação e a necessidade de aperfeiçoá-la, desenvolvendo tecnologias de tratamento e manutenção.

Já as piscinas residenciais que conhecemos viraram moda, primeiro, entre os ricos e famosos de Hollywood, associadas ao glamour. Com o tempo e a utilização de novos materiais, o sonho de ter uma piscina chegou ao alcance de mais pessoas, tornando-se popular. “Popular, popular mesmo é a caixa d’água na laje”, ria.

Tanta história, tanta experiência para morrerem, as crianças, presas por ralos de piscinas? Voltamos à barbárie, revoltava-se, enquanto pensava em seus netos distantes e nos “netos do coração”, próximos, olhando com mais atenção as caixas d’água e ofurôs, poças d’água e riachos, o mar e as piscinas.

Piscinas essas que viraram brinquedo, presentes na maioria dos lares com área externa que permita sua instalação, normalmente de material plástico, fazendo a alegria de crianças, jovens e adultos na época de sol inclemente e, à frente de invenção contemporânea, o televisor, nas “cassetadas gravadas” em que predominam os acidentes com piscinas portáteis.

Aquário. Hoje é 26 de janeiro, estamos novamente sob o signo de Aquário desde 20 de janeiro. Informa, o horóscopo, que este é um signo positivo, masculino, violento, fixo, e de beleza. Que beleza há na morte?, revolta-se ainda mais. Onde a Justiça com letra maiúscula, a Ética, o Profissionalismo e, se nenhum desses argumentos servirem, o cristão “amor ao próximo”?

Amor ao próximo é uma boa pedida. Se realmente existisse ele não precisaria se preocupar com segurança e continuar caminhando, inseguro, procurando corpos nas piscinas e praias, ofurôs e caixas d’água, riachos e até poças d’água de chuva.

Quem se compadecerá dele quando for resgatado, não da água, que não quer engrossar estatísticas, mas de sob um viaduto, no asfalto quente, corpo transformado em pasta pelo trânsito também sem cara, sem culpa, violento e cruel?

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