Estava escrito (Fernando Bastos)

Em uma escola havia quatro livros, quatro salas de aula, quatro professores, cada um responsável por uma sala somente. Todos tinham um desejo em comum: levar sua pedagogia às quatro classes, de modo que a escola adotasse um único livro, o seu.
A disputa entre eles para ver quem era o mais popular entre os alunos recrudescia dia após dia. A animosidade entre os Mestres influenciou o comportamento dos estudantes, que passaram a brigar entre si, sala contra sala, em defesa de seus respectivos preceptores, bem como pela escolha de qual seria o melhor livro para orientá-los.
O diretor, percebendo que os ânimos não se acalmariam, decidiu contratar um novo professor, com a missão de trazer paz àquele estabelecimento. No dia de sua chegada, todos se reuniram no pátio, aguardando o pronunciamento. Ele se dirigiu à tribuna, puxou o microfone, apresentou-se e disse:
Meus caros, vejo que todos vocês têm bons mestres, cujo desejo comum é conduzi-los no caminho da Verdade. Mas onde está a Verdade? São quatro livros, que divergem entre si; então, a princípio, apenas um tem a resposta. Ou talvez, nenhum deles…
Um burburinho tomou conta da plateia, e o diretor temeu por mais confusão. O orador fez um sinal para que pudesse continuar e o silêncio voltou, sob uma atmosfera de desconfiança e medo.
– Li-os um por um e descobri que todos os livros contêm auríficos ensinamentos sobre o amor, caridade, perdão, compaixão, que, se observados, podem conduzi-los à senda da paz e da felicidade. Mas, tristemente, achei doutrinas que contradizem as primeiras. Veremos quais são elas:
O livro um, chamado assim por pertencer ao professor mais antigo, contém registros que estabelecem a pena de morte para adúlteros, homossexuais, astrólogos, pessoas que consultam os espíritos e moças que perdem a virgindade antes de casar; dá conselhos de como castigar um escravo, permite ao pai vender a própria filha e matar filhos rebeldes. Pode-se imaginar que, com tais regras, podemos formar bons alunos e adultos sadios no futuro?
O livro dois informa que aqueles que não seguem seu Mestre, serão encerrados numa cadeia sempiterna, onde haverá choro e castigos terríveis. Dirigindo-se ao professor, disse:
– Conversando com seus alunos hoje de manhã, notei que eles seguem o senhor mais por medo do castigo do que por convicção, e alunos que são instados a crer, sem poder questionar, não podem crescer psicologicamente. Coagir alguém a acreditar em algo, sob ameaças, não é uma conduta ética.
O livro três separa as pessoas em castas, sendo a última, a mais prejudicada. O integrante desta casta não pode aspirar ascensão na sociedade, de modo que lhe está reservado os serviços mais abjetos, que os das demais castas desprezam. Não pode chegar perto dos superiores, pois sua sombra os conspurcaria. Ora, a ciência demonstra que todos os seres humanos, dadas as condições necessárias desde o nascimento, têm as mesmas chances de progredir. A separação de castas é terrível, pois discrimina pessoas baseada na falsa premissa de que alguns nascem inferiores.
O livro quatro é especialmente favorável aos homens, mas repreensivo às mulheres. O homem tem direito a quatro esposas, pode bater nelas, e elas devem se cobrir inteiramente, somente o rosto pode ficar livre dos tecidos. Vim a saber do motivo: é uma proteção às mulheres, já que os homens são historicamente lascivos, e violentam mulheres pela simples visão de um tornozelo descoberto. Talvez em vez de punir as mulheres com tanto tecido, que lhes impede o prazer do toque do sol diretamente na pele e torna difícil sentir a brisa do vento esvoaçar seus cabelos e eriçar-lhes os pelos dos braços, deveriam punir os homens que não conseguem domar a libido, assemelhando-se a animais irracionais.
Meus queridos, os quatro livros são importantes, mas parte de sua doutrina está lhes fazendo mal por destruir relacionamentos, humilhar pessoas e promover a discórdia. Observei que esses livros são profundamente misóginos e machistas. Será porque foram escritos por homens?
Fui contratado para devolver a paz a esta escola. Confesso-lhes que também não sei qual o caminho da Verdade, mas tenho uma pergunta que pode ajudá-los:
Se está comprovado que a doutrina de ódio, segregação e preconceitos está lhes fazendo mal, não seria melhor abandoná-la, e abraçar somente aquela que incentiva o amor, a bondade e o respeito aos outros?
Sei que é difícil ser seguida por todos, mas se a maioria aceitá-la e guiar-se por ela, as chances de paz estarão bem mais próximas.

Esse post foi publicado em Prosa e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para Estava escrito (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    No meu entender, uma dissertação lógica sobre os grandes livros da humanidade, cujos seguidores nunca vão na senda da Paz, pois estão preocupados com a vitória de suas mesquinhas ideologias. Uma utopia a ser perseguida sempre, sempre e, como não pode deixar de ser, em PAZ!

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s