Ingratidão (Inacio Carreira)

Se havia alguém mais bondoso nesta terra de nosso senhor jesus cristinho, mais amável com as plantas, os bichos, as águas, as gentes; de fala mais mansa para os seres e as coisas; de pensamento mais puro às jovens que passavam de saia curta ou calça agarradinha; com presteza em auxiliar o próximo, fosse uma senhora com receio de atravessar a rua, nesses tempos tão conturbados de trânsito desrespeitoso com todos, fosse uma jovem grávida saída do mercado com sacolas, com sobrecarga além da que naturalmente levava ao ventre, fosse uma criança que inadvertida e inocentemente estivesse à margem do perigo, num local com águas não tão rasas, um muro, uma situação de violência explícita, fosse um animal pequeno que estivesse na iminência de se envolver em disputa com outro maior, ele estava sempre de prontidão para elogiar, amparar, carregar, proteger, defender…

Apontado como sem perspectiva pois não tinha ganância, não era avaro, buscava auto justificar-se com a lembrança dos versículos “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles” (Mateus 6, 28:29).

Buscava ser probo em ‘pensamentos, palavras e obras’, embora soubesse das dificuldades de andar no bom caminho, periodicamente analisando suas reações ante as oferendas que até ele chegavam, sopesando o certo e o errado nas atitudes, nas resoluções, nas respostas. Se o fiel da balança estivesse contra ele, ia até a pessoa que acreditava ter prejudicado e expunha seus sentimentos, buscando desculpar-se por algo que, às vezes, nem havia feito, ou não tivera a intenção de fazer.

Cultivava essa natural preocupação com o todo, que dirá consigo? Não, não era hipocondríaco, não vivia em academias, não buscava a última medicação para o que quer que fosse. Mas mantinha a alimentação saudável, dentro dos princípios do nutricionismo, segundo as informações que chegam a qualquer mortal por revistas, jornais, rádios, televisão. Sem contar a internet, com sites específicos sobre o assunto. Aproveitava as frutas da ocasião para refeições frugais, que completava com os necessários carboidratos e proteínas. Para este último item contrariava seus amigos veganos, a eles pedindo desculpas por não conseguir radicalizar nesse item.

O bem e o mal. Claro e escuro. Alto e baixo. Prazer e tristeza. Ocupação e preocupação. Dicotomias. Não. Não nasceu com esse conhecimento. Foi o mesmo sendo construído através de estudos de filosofia, incursões na psicologia, nos livros sagrados de diferentes povos, nas mitologias, nos demais conhecimentos místicos, na Teogonia, de Hesíodo, com Rabindranath Thakur (Tagore), com Bhagwan Shree Rajneesh (Osho), no dia a dia com familiares, amigos, leituras diversas. Periodicamente vinha-lhe à mente o discutível aforismo repetido por amigos: ‘O diabo não é esperto porque é diabo, é esperto porque é velho’.

Saindo de consulta médica, lembrava a passagem shakespeariana: “Oh, se esta carne sólida, tão sólida, se desfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno não tivesse condenado o suicídio!” (Hamlet: Ato I, Cena II).

Pensou nas palavras do médico e reviveu seus sintomas: perda de apetite e, consequentemente, de peso, fraqueza, diarreia, tontura… Mas, por quê? Câncer? Ou melhor, para ser menos agressivo (o médico pedira que fosse com acompanhante, fora só), carcinoma. Mas precisava investigar, bastante e rápido, com exames, em parceria com o relato inicial, que o doutor chamou de anamnese: exames de laboratório (sangue, fezes, urina), além de tomografia computadorizada do abdômen; ultrassonografia abdominal; ressonância nuclear de vias biliares e da região do pâncreas e, também, a biópsia do tecido. Afeta mais os homens e, na sua idade, o índice de sucesso na cirurgia é irrelevante. A localização do pâncreas na cavidade mais profunda do abdômen, atrás de outros órgãos, dificulta a detecção precoce. Normalmente desenvolve-se, o tumor, sem sintomas, sendo difícil diagnosticá-lo na fase inicial e, quando detectado, já pode estar em estágio muito avançado. Como descobriu ser o seu caso.

Estão entre os fatores de risco o uso de derivados do tabaco: fumantes possuem três vezes mais chances de desenvolver a doença do que os não fumantes. Balançava a cabeça, como a dizer não ser seu caso. Outro fator (de risco, claro) é o consumo excessivo de gordura, de carnes e de bebidas alcoólicas. Como também a exposição a compostos químicos, solventes e petróleo, durante longo tempo. Um grupo de risco, com maior chance de desenvolver a doença, é composto pelos que sofrem de pancreatite crônica ou de diabetes melitus, os que foram submetidos a cirurgias de úlcera no estômago ou duodeno ou sofreram retirada da vesícula biliar. Só dizia presente ao último item, retirada da vesícula biliar.

Procurou e leu, na internet, tudo (ou quase) que estivesse relacionado ao pâncreas e tumores nessa glândula. Era muita coisa, muita cientificidade, muita pamonha para a sua festa junina (comparação idiota, repreendeu-se, estavam em novembro…). Castigo divino? Mas, por quê?

Andava com a cabeça cheia. Querendo arrumar justificativa para seu corpo, tão bem tratado, tão elogiado, tão abençoado cada vez que fazia uma coisa boa (vai com deus, diziam. Deus te proteja, desejavam. Deus aumente tuas dádivas e tua bondade, oravam os mais amigos).

Não, não queria recompensa, o que fizera fora sempre de coração aberto. Muita gente não entendeu seus cuidados, muitos lhe viraram a cara, acreditando que ele almejava algum cargo eletivo, alguma medalha, outra recompensa qualquer. Não. Já do berço ouvia a voz da avó: ‘Faz o bem sem olhar a quem’, embora o escorpião tenha picado a rã que ia leva-la à outra margem, aprendeu mais tarde nos livros.

Agora sabia, o inimigo estava dentro dele. Ele era a rã que carregava o escorpião para a outra margem, mas sabia que não chegariam. Sim, esta seria a metáfora final de sua vida. Ele a rã, o câncer sendo o escorpião. O rio? A rua, uma qualquer, que nessa época todas são perigosas, daqui ao fim dos tempos todas serão perigosas, cada vez mais. Era só concentrar-se enquanto anfíbio e atravessar a avenida-rio, esperando a picada fatal. Que veio na forma de um caminhão, apressados que sempre estão.

No rosto um sorriso intrigante: ao longo da vida, com suas idas e vindas, favores e agradecimentos, tours de force e promoção de mil ajudas, sofrera muita ingratidão. Superara a todas. Mas não pôde, humano que era, superar a ingratidão do próprio corpo. Ninguém entendeu…

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Uma resposta para Ingratidão (Inacio Carreira)

  1. Guedes Zimmermann disse:

    Um texto enigmático, com riqueza de detalhes, citações bem lembradas e com um quê de rebeldia nas situações vívidas,muito bom, parabéns.

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