Jesus, sob dois olhares (Fernando Bastos)

Os dois nasceram no mesmo dia, 25 de dezembro, mas tomaram rumos diferentes na vida; a mãe, adepta do crack e da vida fácil, não sabia quem era o pai, largou-os num orfanato e sumiu. O que nasceu antes entrou num lar cristão, foi batizado e ganhou o nome de Salvador. Aos seis anos lia a Bíblia, rezava o terço. O outro, recebeu as simpatias de um casal estrangeiro e o nome Darwin, com o tempo saberia que o homem que o recolheu das mãos da madre e a quem chamaria pai trabalhava em meio a tubos de ensaio, microscópios, pipetas e livros de biologia molecular; a mulher dele, uma respeitada professora de mitologias, dava aulas e escrevia livros sobre civilizações antigas.
Os gêmeos cresceram amados, cada um em seu canto; Salvador fez catequese, ajudou o padre na missa, respirou a fumaça perfumada de olíbano que saía em forma de arabescos do turíbulo que sacolejava nas pequeninas mãos no momento da consagração, comeu hóstia na sacristia, formou-se em contabilidade, namorou, leu e releu os Evangelhos, casou, encheu a casa de santos e crucifixos, um sinal da cruz cada vez que passava por um deles, teve filhos católicos como ele e como seus pais adotivos, o que era de se esperar. Tivesse sido criado num kibutz, seria judeu; estudado numa madrassa, islâmico, e por aí vai. Darwin aos dez anos interessava-se por dinossauros, genética, neurociência, deuses gregos. Adulto, foi dar aulas de filosofia, apaixonou-se por uma aluna, casaram, tiveram um filho.
Poucos dias para completarem 33 anos, os gêmeos se veem pela primeira vez, desde que foram separados com poucos meses de vida. Seria o primeiro Natal juntos, e de quebra, comemorariam juntos seus aniversários. O que morava fora, veio ao Brasil com mulher e filho especialmente para reencontrar o irmão. Os dois deixaram as famílias em casa e saíram bem cedinho para andar pela praia, queriam exclusividade do momento. Caminharam abraçados, chutaram a água gelada que vinha lamber a areia, riram e choraram a dor dos anos longe um do outro.
Então, Salvador disse: irmão, gostaria que fosse comigo hoje à igreja, quero lhe mostrar o presépio; eu ajudei a montá-lo. Podemos aproveitar e confessar; não vai ter muita fila. Darwin sorriu e perguntou: confessar pra quê, Salvador? Ora, espantou-se o outro, todo mundo confessa seus pecados, assim Deus nos perdoa e temos as portas do céu abertas. O filósofo questionou mais uma vez: e se eu não me confessar, o que Deus fará comigo? Infelizmente você irá para o inferno, respondeu o beato, e seria muito triste para mim separar-me pela eternidade do único irmão que tenho e tanto amo. Darwin, você não é cristão, não teme a Deus?
Por que devo temer a Deus, Ele não é bom e misericordioso? Não creio nesse negócio de inferno, assegurou o que viera de longe. E explicou: é um mito inventado há muito tempo pelos sacerdotes mesopotâmicos, uma boa sacada pra manter o povo quieto e obediente. Todas as culturas que vieram depois emularam esse conceito, criando seus próprios infernos: egípcios, gregos, romanos…o cristianismo apenas o pintou com cores mais fortes. O zoroastrismo pelo menos dava oportunidade ao condenado se purificar numa espécie de purgatório de onde poderia sair a fim de se juntar aos outros no céu. O cristianismo não; fez vocês acreditarem que o inferno, além de ser um lugar real, onde haverá choro e ranger de dentes, é eterno, assim como o sofrimento dos infelizes que o conhecerem. Ora, um deus assim, que lava as mãos ao lhe da o livre arbítrio para amá-lo ou rejeitá-lo, mas se escolher a opção errada, aquela que ele não quer, o trancará num lugar de infinito suplício, se assemelha ao marido ciumento que diz à esposa que ela é livre para sair, mas se o trocar por outro, a encherá de pancadas até o fim de sua vida. Salvador, você é inteligente, piedoso, mas devia ler sobre mitologias pré-cristãs, para separar o mito da realidade. Desolado, e já prevendo o irmão sendo lançado às chamas do inferno, o católico perguntou: por acaso não crê em Jesus, acha Ele uma invenção como andam falando por aí?
Ele não é um mito, disse o outro, pois temos evidências do Jesus histórico. Mas sua biografia, ah essa meu irmão, essa ganhou retoques no Concílio de Niceia, organizado por Constantino. Jesus não podia ficar abaixo dos deuses romanos, tinha que superá-los. O galileu foi um professor da moral, como o foram Sócrates, Confúcio e Buda. Teve muitos acertos dignos de aplauso, mas cometeu alguns deslizes.
Darwin estava indo longe demais ao criticar o próprio Deus; o que teria aprendido naquela família secular a ponto de se tornar tão cego diante da única Verdade? Agarrando-se à piedade cristã, Salvador tentou trazê-lo de volta à Luz e convertê-lo: Jesus é perfeito, nunca encontrei uma falha em tudo que pregou…O filósofo escolheu as melhores palavras, pois não queria magoar o irmão, mas sabia que às vezes, para remover as chagas do obscurantismo, é necessário empregar remédio amargo. Parou de andar e convidou Salvador para sentar sobre uma pedra no final da enseada. O sol já despontava no horizonte, os barcos dos pescadores voltavam com suas redes cheias da valiosa mercadoria que logo seria vendida. Os primeiros compradores assomavam ao local onde os homens do mar desembarcariam. Rememorando um trecho bíblico, Darwin disse: Jesus falou à multidão que o seguia, se é mesmo que falou ou se colocaram em sua boca mais tarde, que ninguém vai ao Pai, isto é, chega ao céu, senão por ele. Nunca me conformei com essa frase, Salvador, pois demonstra acima de tudo arrogância, pois ignora que o mundo é habitado por judeus, hindus, muçulmanos, taoístas, agnósticos, ateus, que têm suas próprias crenças, dúvidas ou descrenças. Seguindo essa obtusa ótica cristã, os mais de cinco bilhões de seres humanos de hoje já estão condenados. Sem falar em todos que nos antecederam e morreram sem abraçar a fé cristã. O que é incrível e assustador, é que a teologia cristã ensina que um estuprador e assassino de dez crianças merece o céu, caso se arrependa, confirme a fé em Cristo e se confesse no último minuto de vida. Mas um judeu honesto, bom pai de família, vai para o inferno. Isto é, segundo essa visão desvirtuada, a crença é mais importante que o ser-no-mundo. Salvador, você consegue compreender a magnitude dos problemas que essa crença tem causado à humanidade? Não importa o quão honesto for o indivíduo, se não crer nessa Igreja que se julga a detentora da verdade, tem o passaporte carimbado para o fogo da Geena. Desculpa, mas isso é bem humano, demasiadamente humano.
Os gêmeos ficaram em silêncio por longos minutos, observando os barcos que atracavam à praia. Os peixes pulavam dentro das embarcações, reluzentes ao sol, impregnando o ar com seu característico cheiro, braços nus e bronzeados os colocavam em enormes cestos, pesavam-nos em balanças enferrujadas e os embrulhavam em jornais velhos, sob vigilância atenta dos compradores e das aves negras que voavam em círculos esperando alguma sobra para o almoço. Ali, naquela pedra, dois homens assistiam a tudo, mas suas mentes estavam distantes, remoendo o debate daquele início de manhã. Num acordo tácito, pois embora todo o tempo afastados um do outro, parecia que falavam telepaticamente, não teceram mais conjecturas metafísicas naquele dia. Levantaram-se e foram escolher algumas sardinhas e corvinas para o almoço.
O irmão católico não perdeu a fé, Jesus ainda é seu ídolo, mas não acha mais necessidade em se confessar. Desde que aprendeu sobre como as religiões exercem poder sobre a vida das pessoas, para o bem e para o mal, dispensou os intermediários entre ele e Deus. Agora, a conversa é direta com o Criador; se faz bem a ele, não serei eu quem irá julgá-lo.

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Uma resposta para Jesus, sob dois olhares (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    Nesta “época mais feliz do ano” merecemos um tempo para reflexão, e o texto do Bastos ajuda bastante. Abraços.

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