Acorde Transversal (Vana Comissoli)

Algumas pessoas nascem e logo são percebidas porque já chegam berrando. Outras silenciosamente como um matinho qualquer e nunca se darão conta de que elas estão por ali, em meio às belíssimas e muito coloridas rosas e orquídeas.

Esta teoria fora criada desde que era muito pequena, tanto que talvez ainda não tivesse idade alguma e se fortificara ao longo da vida esgueirada silenciosamente pelas paredes. Às vezes não tinha muita certeza se os pais lembravam de a terem parido, outras tinha certeza total. O dia em que brotara deveria ter sido cheio de um sol absurdamente luminoso, onde tudo que se olha é apenas reflexo e não se distingue as cores mais claras, assim como ela com sua pele branca, tão branca que se amorenar nas areias da praia era inviável, até porque nunca vira o mar.

Não se incomodava muito por este cenário insípido, não tinha outro para comparar, nem sequer desejar, pelo menos não a obrigariam a falar e a se mostrar agradável a ninguém. No entanto, no silêncio das noites escorridas em lençóis brancos, ela sabia que algo se aproximava, a chamava, sem pensar que podia ser pura ilusão, ou angústia. Simplesmente esperava, sem nem contar os dias.

Quando a vizinhança de classe média e mexeriqueira se assanhou com a chegada do novo vizinho, não se deu ao trabalho de espiar por cima do muro, nunca falaria com ele e nem sequer lhe veria a face. Que importava se fosse velho ou moço, alto ou baixo? Devia ser nascido e não brotado, nada teriam em comum, como nada em comum tinha com qualquer pessoa de quem já tivesse enxergado a cara.

Maria Clara ouviu as primeiras notas como quem vislumbra o Anjo Gabriel anunciando uma graça divina. A música se estendendo pelo dia fez com que o sol deixasse de ser branco e tomasse uma cor amarelo dourada, que ela jamais poderia imaginar que tivesse. Pela primeira vez levou uma cadeira para o jardim e sentou-se. Não passava de um matinho em meio à grama e nela se perdia. Ninguém reparou nesta aparição, apesar de todos terem suspendido suas atividades, parando para ouvir a melodia que dançava pelos canteiros, escorregava nas paredes e pendurava-se em cachopas de acordes nas árvores mais frondosas.

À noite o piano continuava a cantar, às vezes com força aumentada, como se a escuridão lhe despertasse a fúria e a dor. Maria Clara atravessou a rua olhando para todos os lados e postou-se sob a janela sem sentir a umidade que chorara pelo gramado. Dormir era tão desnecessário quanto comer, ou se vestir, não perderia nada se estas atividades minguassem mais do que já eram. Os pais não se deram conta da ausência, ou se deram sentiram alívio, era estranho e atrapalhado ter uma filha muda que não era muda.

Maria Clara sentia o coração explodir de gratidão pelo pianista sem rosto, mas cheio de magia. Não lhe passou pela cabeça que era homem e algo poderia rugir em seu corpo. Nunca rugira. Moças brancas não têm transição, não aquecem, não sonham, não desejam. Seria doloroso demais ter esta ousadia e até uma moça branca tem medo do sofrimento, fechara todas as entradas desde que nascera, assim não haveriam saídas e nem tremores.

Um mundo se abriu para ela pleno de emoções, desde a alegria mais suave até a dor mais profunda que arranhavam a alma, mas não eram insuportáveis. Quem disse que a dor não pode ser bela?, ela descobrira que podia ser intensamente bela. Conheceu amores e rancores, vida e morte, mocinhas apaixonadas e traições tortuosas. Conheceu o viver.

Não tinha como expressar sua gratidão, sua felicidade: então, durante os recitais noturnos, cuidava do jardim do pianista que jamais soube disso. Descobriu que a cor da flores não feriam, eram lindas vibrando ao som das sonatas, dos acordes mozartianos, das rezas de Bach.

Quando o som do piano entrou pelas noites, os moradores não acharam tão bonito assim e, acostumados à voz estridente das novelas, não conseguiam dormir com os delírios de um pianista apaixonado. Foi feita uma enquete para descobrir alguém que se dispusesse a bater na porta sempre fechada, ou que fosse à janela sempre aberta para exigir respeito às horas de descanso, coisa que deveria constar da Constituição. Fosse lá pelo motivo que fosse, ninguém se ofereceu. Ficaram boquiabertos quando aquela moça sempre quieta, timidamente, levantou o dedo e, sem uma palavra, se candidatou à tarefa.

Ela tremia quando tão suavemente bateu à porta que não foi ouvida, precisou bater até o anoitecer, quando a porta se entreabriu não disse uma palavra de reclamação. O pianista nada perguntou. Voltou ao piano deixando a entrada livre para ela que passou a ouvi-lo sentada no chão, depois de se maravilhar com a sincronia transversal perfeita que havia entre o piano e as brancas tábuas de pau marfim. Sentou-se mantendo a harmonia, qualquer deslize perturbaria a melodia e isso não era aceitável.

Nunca trocaram uma só palavra, o pianista deixava a porta entreaberta e não era possível saber se percebia quando a moça entrava e saía, até que nunca mais saiu. Faziam uma refeição frugal na tosca cozinha. João Gustavo aliviado de não precisar preparar mais nada, comia ali apenas por cuidado para que manchas de alimento não viessem a macular as teclas brancas e marcar as pretas. As duas cores que se mantinham num paralelismo perfeito para todas as outras linhas da vida.

Às vezes, quando havia espaço para devaneios, a moça pensava que seus nomes, afinal, tinham sido bem dados: João e Maria. Marcavam, como na história infantil, o caminho de volta para casa, apenas suas pedrinhas eram musicais, feitas de notas que soltas nada significavam, mas diziam tudo alinhadas em desenhos mirabolantes, atravessando cinco linhas paralelas.

Ela não notou quando as primeiras notas vieram, pareciam soltas assim dispersas pelos dias, foram se emendando até que ouviu embevecida a Sonata nº 2 para piano em Si bemol menor, op. 35, de Frédéric François Chopin. Soube que este era o nome porque o pianista levantara e sussurrara ao seu ouvido. O lamento de despedida foi entrando nela, entrando tão delicadamente que não percebeu quando parou de ir à cozinha.

O último acorde foi sumindo sem alarde, soou através dos braços do pianista abraçando as teclas em transversal, assim como foi sem alarde o último olhar que lançou à moça, que apenas deixou escapar um suspiro enquanto em seu rosto resplandecia o arco-íris.

Vana Comissoli

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