Maria e a himenolatria – herança de um passado patriarcal (Fernando Bastos)

As leis exercem vigilância sobre os crimes conhecidos, a religião exerce-a sobre os crimes secretos.” (François Marie Arouet – Voltaire)

Na maioria das sociedades atuais, a virgindade feminina continua um tabu, e mesmo na ocidental, que se diz laica e democrática, a preservação do hímen está ligada a decência e moralidade. Herdamos a moral judaico-cristã, e o cristianismo nos forneceu o protótipo de “mulher perfeita” – segundo a mentalidade machista e patriarcal.
Sabemos pouco sobre a filha de Ana e Joaquim. A fonte oficial quase nada fala dela, e mesmo assim, mulheres que nunca leram a Bíblia, e até aquelas que se dizem sem religião, são em maior ou menor grau, influenciadas por Maria, a israelita que aos 12 anos (14 ou 16 em outras fontes) foi visitada por um anjo, e após o Sim, engravidou sem a necessidade da seiva masculina, por obra e maestria do Espírito Santo; sendo que, cumprido o tempo necessário da gestação, gerou um bebê de nome Jesus, o filho de Deus.
Maria se tornou para o mundo ocidental, sobretudo a parte católica, a mulher mais influente na questão da moralidade feminina. A humilde hebreia, que não entendia o filho, mas o amava acima de tudo, serviu como uma luva para o clero da cristandade, pois foi usada para convencer filhas, noivas e esposas a não gostarem de sexo, a serem submissas aos homens e só abrirem a boca se um homem permitisse.
Para a doutrina católica ela permaneceu virgem mesmo depois de gerar o bebê (virginitas post partum) e criou–se o dogma da virgindade perpétua, com forte intuito de mostrar que Maria era assexuada, emulando assim as antigas vestais romanas; já os seguidores de Lutero atestam que depois do nascimento de Jesus, ela teve relações normais com José e gerou filhos, deixando de ser virgem. Os que não concordam, dizem que os irmãos a quem Jesus se refere nos Evangelhos, eram filhos somente de José, que os teve antes de conhecer Maria. Não pretendo discutir se Maria teve ou não filhos além de Jesus. Essa querela será discutida ad infinitum, e nunca se chegará a um consenso, cada um vai defender aquilo que lhe é conveniente.
O crucial é focar na “concepção virginal”, o momento em que a noiva de José engravida do Espírito Santo (Deus) indo contra as leis naturais. Por que essa questão é tão relevante? Qual a mensagem velada por trás dessa narrativa, onde a mulher que será a mãe do Redentor, fica desobrigada da relação natural? A mensagem (do clero, formado por homens) é: não é bom que a mulher tenha desejo por sexo, não é bom que ela sinta atração por homem, de modo que há menos risco dela se prostituir, e trair o futuro marido.
A castidade de Maria é o golpe de martelo nos ouvidos femininos, que ouvem desde o berço, que menina deve ser recatada, esperar o “homem certo”, e aceitar o poder masculino. O Mito da Virgem Maria, uma mulher que não conhece homem, no sentido bíblico, é o mais cruel arquétipo feminino, pois ensina a elas que o sexo não é bom, e uma mulher assexuada é o ideal de pureza. Já o arquétipo masculino é do homem viril, capaz de montar um harém, como os reis Davi e Salomão. Essa mentalidade machista ficará arraigada em nossa sociedade, e incrivelmente, são as mulheres que mais contribuem para a preservação desse preconceito, ao doutrinar suas filhas para que sejam “santas” e os filhos garanhões, os que irão “comer” as filhas das outras.
A supervalorização da virgindade feminina tornou-se uma verdadeira cruzada pela himenolatria, com seus defensores pregando que a pureza e a decência estão intrinsecamente ligadas ao hímen ainda não rompido pelo intercurso sexual. Cá no ocidente elas não padecem dos mesmos males de outras culturas, onde com frequência, a mulher que perde a virgindade antes de casar é morta pelos próprios parentes. Contudo, se em nossa sociedade ao homem é dado o direito de ter muitas parceiras na fase solteira, para ela, essa liberdade é mais cerceada. Aceitamos bem a mulher solteira ter intimidades com um homem, desde que esteja namorando, com vistas em casamento. Aquelas que mantêm relacionamentos abalizados apenas em sexo ganham logo uma etiqueta na testa.
A escritora Collete Dowling escreveu em Complexo de Cinderela: “A sexualidade da mulher é tão castrada que ela precisa da desculpa do amor para sentir prazer com o outro.” Isso é tão verdadeiro que mesmo entre as mulheres modernas, há aquelas que condenam suas colegas que têm uma vida sexual livre, com vários parceiros. Mas, assim como suas parentes do Paleolítico, muitas admiram e desejam os homens que saem com muitas mulheres; sinal de que são ótimos reprodutores.
O cientista social Luiz Mott declara: “Bem-aventurada para os crentes, maldita para os incrédulos, a mãe de Jesus carregará para sempre a culpa de ser a autora de um mito que levou e continua levando à infelicidade e à morte milhões de seres humanos culpados por um indevido prazer: o orgasmo”.
Com efeito, o relato da mulher virgem que engravida de um deus e gera uma criança divina não é original do cristianismo; nas culturas anteriores é vasto o número de semideuses gerados da união de um deus com uma mortal. Zeus e outros habitantes do Olimpo viviam engravidando belas mortais, geralmente virgens e algumas comprometidas. Em Roma, os imperadores eram semideuses, pois foram concebidos com a semente de um deus com sua mãe mortal. O cristianismo pegou essa ideia, e a transformou para criar sua própria lenda, divulgando assim a importância para as mulheres preservarem a castidade e se afastarem dos perigos do sexo. Maria devia ser o espelho para as filhas de Eva.
Penso que a história ficaria mais bela se fosse contada como provavelmente aconteceu: Maria e José se amaram como qualquer casal, e dessa união nasceu Jesus; talvez ela teve outros filhos, talvez não. O que não podemos é deixar que um conto mítico continue sendo a pedra no meio do caminho que impede a mulher de se sentir plenamente satisfeita em sua sexualidade.

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