Cálice de vinho (Marcelo Lamas)

Desde sempre tenho que me explicar por causa da abstinência alcoólica. Não posso por a culpa nos interlocutores, pois parte de mim a ansiedade de dar o motivo de não beber, antes que haja alguma expressão de estranheza do outro.
Meu pai tem um pouco disso. Quando criança eu o via tendo que explicar que não bebia porque sempre andara com o pai dele, o vô Chico “Lama”, que só tomava refrigerante. Uso sempre o mesmo expediente.
Já fui indagado: “você toma remédio?” ou “você é religioso?”. Sempre deixo claro que também não é questão ideológica familiar.
A minha avó Alice, esposa do Chico, a vida toda teve garrafas de vinho quase vazias na geladeira. Quando a questionávamos, ela explicava que era recomendado que se tomasse um cálice de vinho por dia. Só que o cálice dela era um generoso copo de requeijão, com volume 3 vezes maior! Nunca vamos saber se era “portuguesisse” dela (Martins Euzébio, seus sobrenomes) ou malandragem para escapar das piadinhas. A velha dormia tardes inteiras. Minha irmã e eu temos esta habilidade também, sem precisar do líquido.
Mas essa mania de ficar achando motivos é coisa da minha cabeça, a necessidade humana de sentir-se socializado. Certa vez fui numa festa que os copos eram escuros e achei o máximo que ninguém estava vendo que eu tomava água. Em férias no Caribe, fiquei maravilhado com o bar que fazia todos os drinks coloridos, com a opção: sem álcool.
Acho que simplesmente é uma questão de paladar, apenas não me cai bem. Outro dia vi um artigo de um cara que não bebe e ele dizia sentir-se “com a habilidade noturna de um leopardo, vendo mais do que os outros e lembrando de tudo depois”. A memória é a substituta da caneta na vida do cronista, não dá pra mandar parar o filme e acender a luz no cinema para pegar aquela frase emprestada.
Ainda vou escrever uma crônica com todos os convites que ouvi e recebi para festas, programas e eventos em turmas já divertidamente “embaladas”, que logicamente nunca aconteceram.
Posso garantir que jamais me aproveitei de presas embriagadas. Uma questão de princípio. Com algumas exceções, eu acho, não lembro bem.
Tenho inveja daqueles que podem usar a desculpa da canção do Kleiton e do Kledir Ramil:

“Depois do terceiro ou quarto copo
Tudo que vier eu topo.
Tudo que vier, vem bem.
Quando bebo perco o juízo.
Não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém”.

Marcelo Lamas, autor de “Arrumadinhas”.
marcelolamas@globo.com

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2 respostas para Cálice de vinho (Marcelo Lamas)

  1. Vana disse:

    Sempre me impressionou, agora mais do que nunca já que abdiquei de qualquer bebida, mesmo a ‘dita’ social, a dificuldade que as pessoas tem em aceitar quem naum bebe, quando, a rigor deveria ser o contrário.
    Muito bom levantar o assunto.

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