Acordes (Vana Comissoli)

Abriu a porta cansado, era a décima casa que visitava para um possível aluguel que se mostrava impossível. Todas tão sem possibilidades, sem nem uma nota musical bailando à sua espera. Nem sequer entrou totalmente, a cabeça desencantada foi olhando o chão.

O piso de pau marfim tinha as tábuas colocadas de forma enviesada e ele fascinou. Atravessou o portal com olhos sonhando e já vendo como tudo ficaria. Nem se deu ao trabalho de olhar os outros cômodos, eram apenas mecanismos de sobrevivência: comer, dormir e banhar-se. Coisas que fazia na obrigação.

Voltou à imobiliária e não pechinchou o aluguel, fechou negócio para logo infernizar a transportadora, era absolutamente necessário que se mudasse no dia seguinte, tinha pouca coisa e fora o piano de cauda, com nada mais precisavam ter cuidados.

Os homens levaram o piano quase sob açoite, ele não parava de gritar impropérios e exigir delicadezas que espontaneamente estavam sendo feitas. Depois foi com régua na mão que ele escolheu o local do instrumento, bem ao centro da sala.

O escasso mobiliário foi colocado à vontade dos transportadores. Não tinham muito o que escolher, cama e armário apesar de capengas só podem ir no quarto, fogão e geladeira tinham a cozinha como destino certo. Algumas poucas caixas de roupas e louças, todas misturadas, ficaram no corredor à espera da disposição de seu dono para ir aos armários. Sabe-se lá quando.

Assim que a porta fechou atrás dos homens suados, ele abriu as janelas e o sol da manhã escorregou pelo chão, tornando-o mais claro e pondo reflexos de brilho sobre a lateral do piano lustroso. Fora colocado ao contrário do encaixe das tábuas, o que davam uma desconcertante transversalidade, como se os caminhos se cruzassem sem jamais se tocar.

Ficou vários e mais vários minutos em êxtase olhando o que lhe parecia uma obra prima, prestes a bocejar criando vida. Sentia o fluir do sangue através dele, pronto a entrar nas veias retas do piso e das teclas. Sentou-se em reverência no banco junto ao instrumento e acarinhou as teclas com devoção, para em seguida fazer soar os primeiros acordes de uma sonata de Schubert. Sabia de cor cada nota e fechava os olhos como se a música formasse imagens dentro dele. Algo perdido no tempo, muito antes dele ter vindo ao mundo para tocar.

A noite chegou e ele continuava tocando, levantou-se algumas vezes para admirar a transversalidade. Era atravessado na vida e tinha, depois de muita busca sem saber o que buscava, encontrado a representação de si mesmo. A música atravessando a planura dos dias e a paralelismo com que convivia no mundo. Toda a luz vinda das notas que dançavam em torno dele, numa corporificação não permitida aos outros simples mortais.

Não se achava um exímio pianista, não achava que ninguém era digno de ser assim chamado. Não tinha amigos e nem namorada, nunca tivera. Quem falaria com tanto acerto como o piano? Quem teria uma curva mais precisa e suave que a cauda do instrumento? Quem se deixaria tocar com tanta sensualidade, raiva, amor, dúvida, tristeza do que as teclas que falavam, ronronavam, gritavam e seduziam? O único filme que merecera sua atenção foi A Lenda do Pianista do Mar e pela primeira vez na vida desejara ser outra pessoa que não ele, para deslizar pelo balouçante salão de um navio enquanto guiava seu imortal amor numa suavidade ondeada.

Solitário? Jamais! Vivia acompanhado desta alma musical que se corporificava sob seus dedos. Já dormira incontáveis noites sob o corpo do piano, como quem está com a mulher amada. Seus orgasmos eram infinitamente mais completos e lúdicos sob ele.

Às vezes se lembrava de banhar-se, comer, trocar de roupa para em seguida voltar aos pés do piano quase humilde, quase culpado por tê-lo abandonado nas exigências da vida.

Não fechava as janelas, imaginava que as notas precisavam de fuga para o céu de onde vieram, tinha certeza. No início os vizinhos ouviam encantados a música elegante, refinada e perfeita que o novo morador trouxera. Todos os mestres estavam presentes nela, devia ser de acordo com o estado do morador, cogitavam meio em surdina por cima do muro, como se não quisessem incomodar o pianista. Quando a música, fosse de quem fosse, atravessara as noites roubando o sono tranquilo, começaram a não achar tão bom assim. Quem seria o escolhido para bater àquela porta que apenas se entreabria para receber compras do mercado, na certa feitas pela internet ou telefone? Teria telefone? Nunca ouviram um único tilintar.

O vizinho não vinha à rua cuidar do jardim, nem sequer por o lixo para ser recolhido. Talvez de noite fizesse isso? Porque o jardim estava mais impecável do que jamais fora e belas rosas brancas desabrochavam em grandes e perfumadas pétalas. Alguém teria que enfrentar a tarefa, pedindo ao estranho morador que não tocasse durante a noite. Quem? Sem nunca terem visto o pianista, como era chamado, tinham um estranho medo dele.

João Gustavo ficava alheio a esses movimentos, não se daria ao desagradável trabalho de pensar em vizinhos, eram formigas para ele, as quais se pisa sem se prestar atenção, ou talvez nem sequer existissem realmente.

Maria Clara era uma mocinha sem graça, meio escondida pelos escorridos cabelos mais claros do que o desejável e a pele que se perdia nele por tão parecida ser na cor. Franzina, com seios encolhidos e pernas longas e finas cobertas por vestidos fora de época. Talvez pela aparência desamparada, acreditaram que o pianista se compadeceria e foi a escolhida. Para surpresa da vizinhança e alívio, ela se ofereceu para a empreitada. Não sabiam que muitas e muitas noites ela se esgueirara para baixo das janelas musicais e ali ficara até o amanhecer pintar o céu, o que lhe deu umas olheiras escuras que mais apareciam no rosto de leite.

João Gustavo nem sequer ouviu a primeira batida na porta feita por dedos trêmulos e magros, sem força para um toque firme. Talvez na terceira ou quarta vez tenha ouvido, mas era treinado em ignorar vendedores e pedintes que nada encontrariam com ele. Irritado com a insistência atendeu, os olhos cuspindo raiva pela intromissão.

Olhou a insignificância da figura e esperou sem uma palavra. Ela gaguejou o pedido para em seguida acrescentar que não era sua vontade, que o ouvia hipnotizada sob a janela e que por sua vontade ele tocaria sem qualquer intervalo. João fincou os olhos nos dela, não ouviu muito bem o recado, mas o encantou a ouvinte inesperada. Mandou-a entrar e ofereceu o chão como assento. Maria Clara não achou nada estranho e sentou na transversalidade do piano.

A vizinhança não teve o alívio esperado e, ao verem que a moça entrava e por lá ficava horas a fio ao longo dos dias, também não teve o amor surpreendente e tórrido que levaria vida ao pianista, na opinião deles.

João Gustavo em nada mudou sua rotina, apenas acrescentou um abrir de porta. Maria Clara não abria a boca nem para o bom dia, isso era absolutamente desnecessário e era um acerto tácito entre ambos. Sabiam que o som de suas vozes atormentaria a perfeita harmonia das notas.

Ao contrário do esperado pelos maledicentes vizinhos, ela não se tornou cantora de ópera e muito menos apareceu grávida. Não aprendeu a tocar piano e continuou não distinguindo uma clave de sol de uma clave de fá. A música era algo vivo que bastava que fosse João Gustavo a ter a dor de parir através do estudo das bolinhas e riscos negros atravessados nas folhas pautadas.

Os anos se passaram e a vizinhança se acostumou a dormir embalada por Mozart, Bach e sua turma. Os pais de Maria Clara pararam de reclamar que ela ficaria difamada entrando na casa de um homem solteiro, não prestavam atenção alguma a isso e às vezes nem sequer notavam que ela não estava em casa.

A música cessou de repente, sem desafinar e sem o acorde final. No meio de Minha Amada Imortal, a Nona Sinfonia de Beethoven.

Houve alvoroço na vizinhança, algo novo e muito sério acontecera. Bateriam na porta? Lembraram-se da moça branca, nem os pais sabiam o que havia acontecido com ela, parecia sumida como uma última nota tocada que paira um pouco no ar e se esvai sem ruído algum. Pensaram em chamar a polícia, mas era um bairro tão família que negaram o alvoroço. Pensaram em bater à porta, a moça era maior de idade, alegariam o quê? O grandalhão da rua, que impunha respeito pelo tamanho dos bíceps, foi escolhido para espiar pela janela. Pé ante pé, nervoso como se o dono da casa pudesse enfrenta-lo numa briga, espiou.

Deitado sobre o piano, abraçando as teclas, João Gustavo parecia dormir. Transversal. No chão cruzando as linhas das tábuas do chão, tão clara como pau marfim, Maria Clara também transversal.

O duplo sepultamento foi feito ao som da Sonata nº 2 para piano em Si bemol menor, op. 35 de Frédéric François Chopin, que chamamos de Marcha Fúnebre, mas que o pianista jamais assim intitulara. A vizinhança assumiu os preparativos, não tiveram coragem de mandar o pianista para um enterro indigente, ele absorvera suas emoções transformando-as em música, de modo que jamais tomaram proporções abissais em seus peitos.

Após alguns dias e noites silenciosos, onde ninguém se acomodava muito bem no sono, acostumados estavam a ser embalados, muito fraco e depois no velho e desejado volume de antes, a música voltou a percorrer as ruas e bater nas casas com sua esperança, tragédia e luz.

Na primeira manhã após a volta das melodias houve certo alvoroço, uma curiosidade velada para descobrir quem tocava, ou quem ligara o som dentro da casa que nunca mais conseguiu ser alugada. Fracas tentativas de busca e insossas perguntas foram feitas e calaram rapidamente: sem combinarem nada os vizinhos aceitaram como vindas do céu, para onde subiram levadas pelo amor do pianista. Se descobrissem o encanto estouraria como bolha de sabão, ou então seria mesmo a alma de João Gustavo que buscava seu piano à transversal das tábuas de pau marfim. Também nunca comentaram, nem sequer deram a entender que ouviam um fraco suspiro de mulher.

                                                            Vana Comissoli

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2 respostas para Acordes (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Novamente a magistralidade de Vana surpreende. Obrigado pela lição, pelas imagens, pela esperança de que possa haver paz neste tão conturbado mundo.

  2. Inacio eu já começo a desconfiar de tuas críticas. Preciso saber quando piso na bola.
    Gracias!

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