A inglória busca da Felicidade (Fernando Bastos)

Há pelo menos três necessidades imprescindíveis para nossa existência: beber água, comer e dormir. Alguém conseguiria ser feliz apenas tendo essas necessidades satisfeitas? Talvez alguns eremitas e os sadhus do hinduísmo. No entanto, não creio que existam pessoas que consigam ser felizes somente com essas três necessidades básicas, se forem visitadas ao longo da vida por dores e doenças.
De forma que chegamos à primeira conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono e saúde. Se alguns conseguem isolar-se, a maioria necessita viver em grupo, pois o homem é um ser social. Assim, precisa de gente ao lado.
Segunda conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono, saúde e ter amigos por perto. Mas e a moradia? É certo que há pessoas felizes vivendo na rua, e tendo alguns amigos, mas creio que são raras. O ser humano precisa de uma casa, que o abrigue dos humores do tempo. Casa é um bem material, para consegui-la, você deve trabalhar, a não ser que seja criança, viva sob favor de alguém, ganhou herança ou na loteria.
Terceira conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono, saúde, ter amigos por perto e um trabalho que nos permita ter uma casa onde possamos nos abrigar. Parece que isso bastaria para o ser humano ser feliz. E claro, há os que garantem sê-lo, mas são poucos. A biologia moldou nossos cérebros para nos acasalarmos. O sexo é um fator essencial para a felicidade humana. É verdade que alguns vivem sem ele, mas para a maioria é difícil. E mesmo para religiosos que escolheram a vida celibatária, sabemos o quão penoso é se manterem castos.
Quarta conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, comida, noite de sono, saúde, ter amigos por perto, um trabalho que nos permita ter uma casa onde possamos nos abrigar e sexo. Talvez o que foi exposto acima, mais o acréscimo de alguns prazeres fundamentais, como acesso ao conhecimento e algumas diversões bastaria para sermos felizes. Matérias em revistas e jornais mostram a existência de milhares de solteiros que vivem sozinhos e estão de bem com a vida. O problema é que o ser humano, diante do dilema “liberdade ou segurança”, geralmente escolhe o segundo. Essa segurança ele acredita ser possível apenas ao lado de outra pessoa, que seja somente dele, que lhe faça juras de amor eterno e o honre com fidelidade. Então, casa. Mas casamento sem procriação não é natural, pelo menos para a maioria. Portanto, fazemos filhos.
Quinta conclusão. Para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono, saúde, ter amigos por perto, um trabalho que nos permita ter uma casa onde possamos nos abrigar, sexo, acesso ao conhecimento, um pouco de diversão, uma esposa ou marido e filhos. Mas esperem. O número de divórcios no Brasil em 2011 cresceu 45,6% em relação ao ano anterior. Para cada quatro casamentos, há um divórcio. Os especialistas garantem que teríamos mais dissoluções do contrato conjugal se não houvesse as complicações de uma separação. O que falta ainda? Muitos argumentarão que falta o mais importante, a crença em um ser sobrenatural, que nos conforte espiritualmente. E ele é Deus.
Sexta conclusão: para nosso bem estar completo, precisamos, além do que já foi dito, acreditar em Deus. Entretanto, será verdade que a crença em Deus faz as pessoas felizes? Alguns dirão que sim. Mas olhando bem de perto, notaremos sem dificuldade que mesmo as pessoas mais fervorosas têm suas chagas para soprar. Paradoxalmente, muitas vezes é a própria crença religiosa a causadora da infelicidade, como atestam muitos especialistas em mente humana. Se pesquisarmos a vida de grandes nomes da Igreja, veremos que muitos padeceram com fortes crises existenciais, e morreram infelizes, apesar da fé que diziam possuir. Agostinho de Hipona lutou desesperadamente a vida inteira contra as tentações da carne; na obra “Confissões” revela como fora na juventude, um rapaz com gosto pela vida devassa. Lutero, em seus delírios, vociferava contra Satã, que nunca o deixou em paz.
Afinal, o que pode nos fazer felizes? Parece claro que a felicidade absoluta não existe; nossa vida é permeada por estados mentais em que nos sentimos muito alegres ou muito tristes, com variações que dependem de como lidamos com as mensagens externas que recebemos. O que parece não haver dúvida é que toda inquietação tem uma origem. Vem de dentro da pessoa, de seu cérebro, seu próprio eu. Como disse Buda, são seus desejos (fabricados pela mente, pelo seu eu) que o inquietam, e trazem sofrimento.
Todo ser humano deseja, logo, sofremos. Devemos, portanto, para diminuir nosso sofrimento, e aumentar o tempo de bem estar, ter equilíbrio e inteligência para lidar com nossos desejos, não sendo reféns deles, mas usando-os a nosso favor. Uma regra simples, mas por ser simples, tão difícil de ser seguida.

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4 respostas para A inglória busca da Felicidade (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    “Por fim amamos o próprio desejo, e não o desejado”, escreveu Nietzsche em Além do Bem e do Mal. Belíssimo ensaio, Fernando… Parabéns.

  2. Se a felicidade plena existisse será que o ser humano, eterno descompensado não mergulharia num tédio avassalador? Aposto que si e aí chegamos à conclusão que a questão não á a água, o alimento, o sexo, Deus e outras “necessidades” quaisquer, mas a infantilidade de todos nós.

  3. Fernando Bastos disse:

    voce tem razão Vana, percebi que navegar em águas mansas por muito tempo acarreta em tédio, precisamos às vezes de uma onda para nos motivar. só sentimos o doce por que ja experimentamos o amargo. no entanto, entre viver sempre num mar revolto ou num tranquilo eu pelo menos prefiro o segundo.

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