O sacrifício de Isaac (Fernando Bastos)

Quando completara cem anos, Abraão teve um filho e o chamou de Isaac. Sara, mulher de Abraão, também não era nenhuma mocinha quando engravidou. Foi após a visita de três anjos que a anciã de 91 anos fora fecundada com a semente do marido.
O menino já era um adolescente quando apareceu Javé diante de Abraão. O servo de Deus, ouvindo seu chamado, disse, Eis-me aqui, Senhor.
O Todo Poderoso ordenou, Toma seu filho, seu único filho a quem tanto ama, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde você o oferecerá em holocausto sobre um dos montes que eu o indicar.
O diálogo que precede o ritual de execução é comovente:
Meu pai, disse o jovem Isaac.
Eis-me aqui, meu filho, respondeu Abraão, com a voz embargada, mal segurando uma lágrima. Dali a poucos minutos, ele teria que degolar o filho com uma faca, seguindo ordens de seu Deus.
Aqui estão o fogo e a lenha, mas onde se acha o cordeiro para o holocausto, perguntou a inocente criança. E o velho respondeu, Deus providenciará o cordeiro, meu filho!
Quando chegaram ao local designado para o sacrifício, o rapaz foi amarrado sobre o altar improvisado sobre uma pedra. De seus olhos caíam lagrimas doloridas, queimando-lhe a tez morena da face, mas não disse nada. Não entendia porque Deus necessitava de seu sangue para ter certeza de que o pai lhe era fiel. Afinal, crescera ouvindo que o Deus de seu povo conhecia o pensamento dos homens, de modo que provavelmente saberia se o pai o temia ou não.
No exato instante em que Abraão ia degolar o filho com a faca, apareceu um anjo do Senhor, que gritou, Abraão! Abraão! Não lhe faça mal algum. Agora sei que verdadeiramente teme a Deus, pois não me recusou seu único filho. Em seguida, o velho centenário guardou aliviado a faca, e viu que havia um cordeiro preso pelos chifres em um arbusto. Libertou o filho das amarras, abraçou-o com ternura, chorando como uma criança, e ofereceu o animal em seu lugar. Deus Javé dispensara no último segundo o sangue de um inocente. Ali perto, duas figuras sorrateiras, invisíveis aos olhos humanos, confabulavam a respeito do esdrúxulo episódio.
Presumo que você não pensou nos traumas da criança, disse o Diabo. O Senhor, não muito dado a problemas psicológicos, já que não conhecia nada de Freud e psicanálise, perguntou, Traumas? É, disse Satã, traumas, as consequências para o psiquismo de Isaac. Coloca-se no lugar dele. Ver o pai com uma faca prestes a cortar-lhe o pescoço como se fosse uma galinha, não creio que seja muito animador para o crescimento de uma criança. Se queria testar o amor de Abraão por você, podia escolher algo que não envolvesse um inocente. Podia muito bem pedir que Abraão cortasse o próprio pescoço, livrando assim o pobre Isaac de terrível constrangimento. Mas tem outra coisa que me incomoda. O quê?, perguntou Deus. O Diabo respondeu, Não entendo essa excessiva mania de querer ser adorado o tempo todo. Seria algum problema de infância? Não, não pode ser; você não teve infância. Você devia ir a um psiquiatra, não, não, não, esquece; eles vão demorar a aparecer. Fico imaginando que sua insegurança talvez resida no fato de que você mesmo reconhece não ser muito crível, de modo que fica aí a toda hora querendo preces e sacrifícios.
Eu os criei, disse o Senhor, esbravejando, é justo ser honrado de vez em quando. O Diabo levantou uma sobrancelha, enquanto mordia uma maçã, e disse, Mesmo que for com o sangue de uma criança? Ora, agindo desse modo, você se equipara aos deuses cananeus, que pedem aos pais o sacrifício de bebês e meninas virgens. Cuidado, amigo, no futuro corre o risco de ter sua identidade questionada por pessoas inteligentes, que poderão colocá-lo ao lado de outros deuses inventados pelo homem…
Não vou admitir isso, crispou-se o Senhor, contorcendo os músculos da face, Vou exigir que todos creiam, e me adorem. Quem se recusar, será trespassado pelas lanças de meu exército, ou empalado vivo. Se não funcionar, inventarei outra forma ainda pior de persuasão: uma cadeia eterna de fogo e suplícios para os incréus e aqueles que não me adoram.
O diabo, dando a última mordida na maçã, suspirou e pensou, Típica personalidade de um tirano; mexi com seu ego.

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4 respostas para O sacrifício de Isaac (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    Segundo os estudiosos, este estudo marca o fim do sacrifício humano, substituído pelo sacrifício de um animal (no caso, o cordeiro). Esse ritual é retomado com o sacrifício do Cristo, chamado de Cordeiro… Confere?

  2. Fernando disse:

    Inácio, segundo alguns autores, os hebreus continuaram realizando sacrifícios humanos em honra a Javé (o deus do A.T.) muito tempo após a alegada existencia de Abraão (séc 13 aC). fato comprovado pela passagem em Juízes, cap. 1, quando o lider Jefté sacrifica a filha virgem a Javé após vencer uma batalha. Josué tb realizou sacrificios humanos para aplacar a fúria de Javé (Js. 7:1-26). tem outros, mas nao lembro de memória. parece que o rei Davi tb enforcava adversários em nome do Senhor. essa pratica judaica parece ter terminado pelo seculo 7 ou 6 aC.

  3. Fernando disse:

    errata: em juízes cap 11, 1 (sobre Jefté)

  4. Só confirma a minha convicção:
    1. o Diabo é bem mais amoroso que esse Deus do velho Testamento que era escravizador;
    2. O Viagra foi criado bem antes do que pensamos;
    3. Freud confirmou depois: a culpa é dos pais. Oba!
    4. Tudo que a Bíblia do Antigo Testamento pode ensinar resume-se em uma palavra: Subjugação.
    5. Deus é feito à imagem e semelhança do Homem.
    6. Não ter religião é saudável.

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