Indecisão (Inacio Carreira)

Não. Não estava contente com sua vida: era secretária, telefonista e recepcionista naquela pequena empresa onde a dona – uma divorciada frustrada com suas vidas, a amorosa e a profissional – procurava tirar o máximo de cada um. Ela, por estar próximo da Dona, sofria mais: era saco de pancada, boneco vodu, pau pra toda obra… Chegando em casa, à noite, a solidão tomava conta de si. Se no trabalho falava com todo mundo, obrigação das funções, no prédio não conhecia nem o vizinho do lado, nem o de baixo. Por sorte morava no último andar, o que evitava ter um vizinho “de cima”. Em cima dela só Deus. O que, dependendo do ângulo pelo qual se veja a situação, era uma pena.

Embora não fosse vaidosa, era bonita. De uma beleza singela, de uma boniteza quase comum, sem o ser. Por não ter filhos, por não ter casado (era o que pensava) conseguia manter sua silhueta elegante, o que fazia ressaltar com roupas que modelavam suas formas. Sem apertar, que esse negócio de provocar para ser chamada de gostosa, no meio da rua, não era do seu feitio. Um galanteio era bom, mas grosseria! Uma conhecida, há muito, repetia embevecida as frases endereçadas a ela, pelos rapazes, quando passava na Calle Florida, em Buenos Aires: Você é a rosa que falta no meu jardim; Se minha mãe te conhece me obriga a casar contigo; O sol não saiu hoje com vergonha de sua beleza… Galanteios, coisa que pensava esquecidos. Será que ainda era assim? Aqui, não, tem certeza.

Não conhecia nem o porteiro do prédio, pois quando chegava ele ainda não estava no serviço. E sair, que é bom, quem a convidava? Sozinha? Ir onde? Ainda se ela fosse médica, os clientes (ou pacientes?) a procurariam para falar de suas quizilas… Fora de hora, dentro do horário, a qualquer momento estaria disponível para atender sua clientela. Ao menos é o que pensava, lembrando que sua médica, na real, sumia do mapa logo após o término da consulta: teve necessidade de conversar, estava passando mal, mas qual o quê… Contato? Lembra da complicação para escrever para o Fantasma que Anda? Os pigmeus pegavam a correspondência na caixa postal e a colocavam num determinado ponto da Caverna da Caveira. Eita, quanta abobrinha…

Advogada também gostaria de ser. Os seriados que acompanhava, na TV, mostravam o lufa-lufa de um escritório envolvido com escândalos, processos, gente que entra, telefonemas intermináveis noite afora, tribunais… Damages era sua série preferida, pena que terminou. Nela, a grande artista Glenn Close brilha da primeira à última cena no papel de Patty Hewes, advogada em Nova York. Sim, seria bajulada, jantaria em restaurantes da moda aonde iria pilotando o carro do ano, tão bem vestida como a Papisa da Inglaterra, ou mais, teria lugar especial, mesa especial, companhia especial. Tudo do bom e do melhor para ela, a Rainha dos Tribunais!

Ser ativista. Será que isso é profissão? Participar de movimentos, passeatas, insuflar greves. Berras slogans. Jogar pedras (não na Geni)… Exibir seu corpitcho na Marcha das Vadias. Teria coragem para fazer topless? Se fosse para as ruas era para o que desse e viesse, achava que tiraria, sim, a parte superior da roupa. Adeus, sutiã, Viva Betty Friedan… Se os homens ficam com o tórax nu na praia, no campo, até nos jogos de futebol, porque esse preconceito com elas? Se eles ficam excitados vendo peitos femininos (Édipo explica), que culpa tinham as mulheres?

Bah (vão pensar que eu sou gaúcha, isso que dá atender gente de tudo que é parte do Brasil) … E jornalista? Talvez editora de moda, como aquela do filme O Diabo veste Prada, que diaba que era aquela mulher… Meryl Streep não merecia um papel desses… Mas que estilo! Que finesse! Eu não seria tão ruim assim, tão cheia de picuinhas, pra que espezinhar os outros como eu, que sou diminuída, sempre, cada vez que a Dona dirige a palavra à minha pessoa? Olha, já estou pensando como jornalista. Será? Viajar no avião do Papa, acompanhar aquela multidão. Conhecer médicos, advogados, cantores, artistas de novelas, tudo, tudo…

Conhecer cantores. Conhecer cantoras. Êpa! Aquela notícia caiu como uma bomba, deixando de olhos abertos e bocas escancaradas os moralistas de plantão. Ela não. Já vira tanta coisa na vida. Também, pra ficar sozinha como eu, ouvindo desaforos, sonhando com os impossíveis, até que topava entrar numa dessa. Será que aquele “Mercury” já era prenúncio de alguma coisa? Escolher logo o sobrenome do Fred, ícone pop capaz de deixar de pelos em pé os homofóbicos de plantão… Sério. Quer saber? Tenho preconceito não. De todas as possibilidades acima, resolvi: Quero ser Malu Mercury!

Inacio Carreira

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2 respostas para Indecisão (Inacio Carreira)

  1. Tiago disse:

    Ser ou não ser?

  2. A galinha do vizinho sempre põe ovos de ouro. Até que aprendamos a olhar os nossos.
    Sem dúvida sermos nós mesmos mesclados com nossas ilusões é a melhor escolhae a única possível.

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