Cisne Negro (Vana Comissoli)

Eu chorava escandalosamente e as asas se abriram em todo seu apogeu, não me incomodei em atrapalhar o cara ao meu lado, encolhido no seu não espalhafato. A emoção era gigantesca, talvez exagerada, mas o que a beleza não faz com a gente?

Acordei com minha mãe me chamando daquele jeito meio ridículo, amaciando a sinuosidade de meu nome, não entendo por que ela faz isso se foi ela mesma que me deu esse nome assim torcido e ambíguo.

– Ama  ryllis!

Grafava no tom de voz as duas primeiras sílabas e escondia o resto quase num sussurrar. Só faltava arrancar as cobertas e me tapar os pés.

Eu me deito e puxo o edredom até que cubra a cabeça, depois suo e acho bom a mornidadão molhada que escorrega em mim fazendo com que seja fácil transitar pelos túneis noturnos que toda noite encontro. Toneladas de terra que não me sufocam e permitem que eu nunca veja a luz solar que me torra os miolos e expõem minhas coisas mais secretas, tão secretas que nem eu mesma sei o que são. Não teve análise, psicanálise levantando véus para mim.

Depois ia para a aula e tirava sempre dez aplaudido por todos e eu sabendo que não sabia nada daqueles números todos e fingia que sim acertando problemas de álgebra e logaritmos e todos nomes sem significado enquanto as palavras se atropelavam sem ir a lugar algum por que não entendia de alma das palavras e nem os fantasmas que moram nelas, mas sabia compô-las com esmero. Futura escritora, era a certeza da plateia que minha mãe reunia. De coisas mortas pensava eu olhando o papel cheio das cobrinhas desenhadas por minha letra. A reunião , eu sabia, não era tanto pelas minhas conquistas, mas para mostrar como ela fizera uma filha tão inteligente.

Fui sabendo mais coisas enquanto continuava a dormir soterrada pelo edredom e ouvindo todas as manhãs o chamado ridículo com o qual comecei a implicar sem perceber e que afinal eu gostava tanto por que soava como amor, mas amor era uma coisa plástica que se resumia a letras as quais eu não entendia nada.

Uma vez me disseram que eu devia ter muita raiva, nem sei quem disse esta idiotice já que era tão gentil e sorrir era meu forte, adorava dar presentes e resolvi visitar doentes num hospital levando flores das quais nunca soube o nome. Nem conhecia os tais doentinhos e não gostava do cheiro de formol que tinham. Não ligava por que eu também não entendia nada de doenças e nunca respirara formol na minha vida. Era apenas mais um ato para encantar mamão e motiva-la a muitos outros chá com bolinhos e amigas.

Eu tropeçava todos os dias e caía de formas que ninguém nunca caía e era a rainha do joelho ralado e isso doía e eu sabia muito bem. A dor faz parte da vida, me diziam e sem entender achava que sim afinal vida e esta coisa que acontece todos os dias quando eu saio dos túneis mornos e suaves de meus sonhos. Bem pouco suaves já que tinha pesadelos à beça o que era muito desesperador, o sentimento deles era real para mim..  Eu não contava para ninguém sobre isso, seria feio demais dizer que uma alma tão gentil tinha pesadelos de monstros e de sonhos esquisitos que atormentavam minhas noites com um aconchego indevido.

– Ama ryllis!

A cortina foi aberta e a luz do sol entrou secando minha pele deliciosamente suada. Minha mãe não tinha cara já que estava contra a luz e eu só enxergava o negro silhuetado em que se transformara. Nem sei o me deu naquela hora, mas sei que deu e bem vi o rabo fino saindo lá da outra ponta do edredom e não parecia nem um pouco uma minhoca com aqueles guizos se sacudindo num barulhinho estranho que logo escondi me tapando toda e respondendo suavemente que já ia, já ia…

Afinal para onde ia eu sem entender nada deste jeito e louca de medo de ter um guizo de cascavel, tão suave e gentil menina de camisola rosa deitada nos lençóis macios e floridos como dia de primavera eterna que era minha vida doce, doce como mel. Não sei bem como me lembrei da doçura enjoativa do mel e não daquele jeito de lamber os beiços que as pessoas usam para o mel. Senti a picada da abelha escondida no mel, afinal elas são ou não são as donas dele e nós roubamos em aviso nenhum?

Era uma abelha das grandes toda listada de amarelo e preto e tinha uns olhos redondos iguais aos olhos de minha mãe. Sentou-se na poltrona de meu quarto me mandando escovar os dentes direito e não deixar os cabelos emaranhados coisa feia para uma menina. Depois foi voando e zunindo atrás de mim enquanto eu corria e corria para fazer a tempo aquele monte de coisas que mandava e ainda assim não me atrasar para a aula pois fica muito feio uma menina assim delicada se atrasar.

A abelha ficou dizendo tchau Amaryllis e foi pela primeira vez que percebi como meu nome sibilava combinando com aquele rabo de cobra que nem vou falar muito alto para não ser de verdade, embora eu achasse tão bonito seu cascalhar. O nome sibilava sim e fiquei ouvindo aquele sssss a aula inteira, achando lindo, lindo e olhando para os lados para ver se ninguém via como eu estava achando bonito e gostando muito mais do que das letras abertas do início dele.

Pela primeira vez a professora me perguntou o que estava acontecendo pois estava distraída e falou alguma coisa de passarinho verde e eu nem sabia que existia passarinho verde. Assim distraída eu percebi que as letras tinham sim um humor e diziam coisas fantásticas falando ao meu ouvido o tempo , saltando do quadro numa bela dança que tanto podia ser flamenga como mudava o rumo para um rock batido e até um tango dramático e mortal.

Foi um deus nos acuda, chamaram a diretora e a moça que fingia de enfermeira também pondo a mão na minha testa por que eu estava dançando com as letras e as equações pularam do meu caderno e os números dançaram um samba canção para me fazer entender de uma vez por todas como 1 mais 1 era mesmo dois, ou nem sempre e outras coisas que até então eram grego para mim.

Levaram-me para casa e a abelha lá estava chorando e arrancando os pelos do corpo desesperada e eu ria, ria por que nunca tinha visto abelha arrancar pelos e era para lá de gozado. O ferrão da danada apareceu e vi que tinha um veneno terrível que instilava nas minhas veias me chamando de filhinha e fazia um rombo enorme no meu braço. Lembrei-me que abelha africana é mesmo das brabas e a gente precisa matar sem dó. Era a abelha ou eu! Dei o bote sem me preocupar com o rabo que deixou de se esconder balançando no ar toda a vez que aparecia uma abelha para picar o meu caminho.

Foi nesta noite que minha mãe pela primeira vez disse meu nome por inteiro, com todo seus esses e is seguido de um boa noite sem ficar me enchendo o saco me forçando a rezar umas rezas que eu não sabia bulhufas sobre seu significado e muito menos acreditava.

Foi bom rezar baixinho, entendendo tudo sem estar com a cabeça enfiada nos travesseiro e atirando o edredom no chão, uma vez que fazia trinta graus todos os dias deste verão sufocante. A luz de cabeceira ficou apagada também pela primeira vez e não senti medo nenhum, até levantei calmamente e fechei a porta que nem sabia se fechar, mas aprendeu ligeirinho.

Estiquei-me na cama de um jeito gostoso, as pernas se alongando até mais não poder, tinha pensado que estavam enguiçadas e não soubessem se esticar. Tive um orgulho imenso daquele guizo que aparecia lá embaixo e sacudi bem para ouvir seu som bonito e sabendo muito bem que sempre que eu precisasse ele estaria ali para me salvar de ser picada por uma abelha africana das malvadas mesmo.                                                                        Vana Comissoli

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2 respostas para Cisne Negro (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Intrigante, instigante, belo. Sinônimos da literatura de Vana, sempre pronta a romper barreiras. Abraços.

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