O ritual (Fernando Bastos)

Os pais de Masoud, juntamente com parentes e amigos, chegaram ao Brasil alguns meses depois da revolução iraniana de 79, que trouxe os aiatolás ao poder no país. Embora seus pais acreditassem em Alá e no profeta, procuravam, na medida do possível, ter um estilo de vida semelhante ao povo do ocidente.  As festas ocasionais em que recebiam um grupo seleto de amigos eram celebradas com vodka e cerveja. A música vinha de fitas k-7 compradas de um vendedor clandestino; o repertório ia de Bee Gees a Iron Maiden, tocados bem baixo para que a polícia religiosa não ouvisse.

Já em solo brasileiro, Masoud foi para a faculdade cursar engenharia e lá conheceu seu melhor amigo, Lúcio, um porra-louca, como se dizia à época. O amigo brasileiro de Masoud era um ex-seminarista, deixara o curso de teologia na metade após verificar as incongruências das religiões, e baldeou para algo mais terreno: a filosofia. Apesar do ateísmo de Lúcio, o jovem iraniano nunca o discriminou, embora sempre que podia, tentava trazê-lo para sua fé.

Nas vezes em que vinha com esse tipo de conversa, Lúcio dizia, Cara, respeito tua crença, mas comigo não funciona. Não consigo acreditar em algo que não se pode ver e nem provar que exista. E ouvia como resposta, Irmão, um dia Alá, louvado seja o Seu nome!, irá transpor o muro de pedra diante de seu coração, e se revelará em toda Sua glória.

Masoud e Lúcio estão num bar, bebendo cerveja e relembrando os tempos de faculdade. Havia dez anos que não se viam. Lúcio pergunta, Como está a vida de casado? Ótima, irmão, responde Masoud. Nahid também é iraniana. E crente, Inshalá!

Filhos?

Temos uma filha. Yasmim faz oito anos amanhã. É nossa princesinha, linda como uma flor do campo. Será a melhor festa de aniversário que ela já teve. Sabe, irmão…elas ficam um pouco assustadas quando sabem que chegou a hora da visita de uma midgaan. Então, prometi que se ela cooperar, teria a melhor festa de sua vida. Claro, não contamos como é que a coisa funciona, mas é melhor ela saber só na hora.

Lúcio olha espantado para homem de barba a sua frente. Parece não acreditar no que está ouvindo. Irmão, disse penosamente, você vai circuncidar sua filha? Sim, por que não?, confirma o iraniano. É nossa tradição, e é uma recomendação do profeta, que a paz esteja com ele!

Masoud, você leu o Corão? Li, é um dever de todo crente. Lúcio o olha gravemente e pergunta, Por acaso lá está escrito que os pais devem circuncidar as filhas? Não, mas há os hadits…Lúcio o interrompe tentando manter a calma, Masoud, você sabe quantos hadits existem? Bem, são muitos, não sei dizer quantos, mas Deus os enviou ao profeta…

Você está enganado, irmão, assegura Lúcio. E explica, buscando na memória o que lera a respeito do Islã:  Al-Bukhari, um respeitado historiador disse haver 7.275 hadits genuínos, mas 600 mil eram falsos, inventados. Contudo, para Fatima Mernissi, escritora marroquina, mesmo aqueles “originais” não são totalmente confiáveis. Por exemplo, um hadit compara a mulher aos cães e jumentos, pois os três atrapalham as orações. Para Fátima, o autor desse hadit, Abu Hurayra, sofria de sérios problemas de ordem sexual, e era inimigo feroz de Aisha, a mais amada das esposas de Maomé. Uma vez, Aisha teria dito a Abu que seu marido rezava junto de suas esposas e nunca falou que elas o atrapalhavam. E quanto à circuncisão, há dois únicos hadits que o mencionam, mas já comprovados como falsos pelos eruditos islâmicos.

O iraniano retruca, O que você entende de nossa cultura, irmão? Ainda o amo, meu amigo, como se fosse da minha família, mas o que você diz é inaceitável. Masoud, meu irmão, disse o outro, segurando-o pelos ombros, como se quisesse despertá-lo. A circuncisão é uma prática antiga, já existia há cinco mil anos no Egito. Alguns estudiosos acreditam que se tratava de um ritual de iniciação; outros, um método profilático contra doenças provocadas pela areia do deserto. Com o tempo, líderes religiosos mantiveram o costume, pois perceberam que podiam frear o desejo feminino e evitar que as mulheres se tornassem prostitutas.

Todavia, a crença de que a cirurgia vai diminuir ou eliminar o prazer sexual da mulher é fruto da ignorância, Masoud, não quero lhe insultar, uso o termo ignorância no sentido de desconhecimento, pois muito mais importante que um detalhe anatômico para obtenção do prazer na mulher, são os fatores psicológicos e hormonais. Tecnicamente, a mulher mesmo circuncidada, poderá ter prazer na relação, mas devido aos traumas da operação e a educação recebida desde pequena ela acreditará que estará cometendo pecado se por acaso sentir satisfação no ato. Assim, ao casar, sua vida sexual se resumirá em dar prazer ao marido e gerar o maior número de filhos possíveis. Você conhece as consequências para as meninas circuncidadas? Muitas delas podem sofrer dores que vão durar meses ou anos; infecções que às vezes levam à infertilidade, sem falar…Sem falar o quê?, pergunta o iraniano, interrompendo o próximo gole e depositando o copo de cerveja à mesa.

Yasmim está em seu quarto, deitada sobre um tapete. Amanhã é seu aniversário, quando ganhará muitos presentes. Mas hoje é o Grande Dia, quando lhe será arrancada a carne do pecado e se tornará pura. Ela não sente medo, apenas está curiosa. Seus olhinhos giram lépidos observando a mãe e as tias ao redor, que lhe sorriem; sorriso de um pacto de segredo. A menina ainda não sabe. Só saberá quando a midgaan chegar. E a mulher responsável pela ablação não tarda. Foi recebida à porta de entrada pela empregada da família e conduzida ao quarto, onde o cordeiro foi preparado para o sacrifício, e seu sangue infantil alegrará a Deus, assim pensam as mulheres que se espremem em torno da inocente vítima.

Primeiro, a midgaan faz um sinal com o olhar, e duas tias abrem as pernas magricelas de Yasmim, que arregala os olhos. Agora sim, há medo em seu olhar. Num gesto de autodefesa, a menina tenta segurar o braço da mãe,  talvez implorando um colo, ou que a leve dali, coisa boa sabe que não é. Mas a mãe recua, afastando o braço de Yasmim, tentando segurar uma lágrima.

Em seguida, a mulher do ritual se ajoelha e começa a procurar a carne que será extirpada; assim que encontra o clitóris, passa a espremê-lo como se estivesse ordenhando uma vaca. A midgaan já perdeu as contas de quantas meninas mutilou. Sente-se honrada, por estar cumprindo ordens divinas e, naturalmente, feliz por levar alguns trocados para casa. Yasmim será apenas mais uma. Ela trouxe a tesoura, que irá cortar os pequenos lábios vaginais e o clitóris. Nesse momento vai ouvir Yasmim gritar desesperadamente, de modo que já alertou as mulheres para segurarem os braços e pernas da criança com toda forca que puderem. Vai sair muito sangue, por isso ela trouxe uma grande toalha felpuda. Assim que a operação terminar, irá suturar os grande lábios com uma agulha comprida, mas deixará um pequeno orifício do tamanho da cabeça de um palito de fósforo para permitir a passagem da urina e do ciclo, quando ele vier. Fim da operação, a arrancadora de clitóris irá cortar o fio excedente com os dentes, e irá embora, satisfeita por mais uma missão cumprida.

Masoud está assustado. Vai para o ponto de ônibus e, quando entra, senta próximo à porta. Sua frio. Reza freneticamente, balançando o corpo para frente e para trás, Alá, louvado seja!, é um Deus piedoso e benevolente, jamais permitiria causar dor a um crente, quanto mais a uma inocente menina. Preciso chegar rápido para salvar minha princesinha. Oh, Grande Alá, permita que eu chegue a  tempo de evitar. Ao descer do ônibus, vê uma aglomeração do lado de fora de sua casa. Um veículo do Samu, enfermeiros, uma maca coberta com uma capa cor cinza. Não quer acreditar, procura entre as mulheres que pranteiam, os rostos de sua mulher e de sua filha amada. Encontra a esposa, recostada na parede da casa, parada como uma estátua, os olhos olhando para o vazio. Masoud deixa escorregar da mão o presente que havia comprado de manhã, uma boneca que fala entre outras coisas, “Papai, eu amo você.”

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5 respostas para O ritual (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    Chocante. Revoltante. Difícil acreditar que tal prática seja contemporânea do SAMU…

  2. Tiago disse:

    Que conto forte.
    Parabéns pela sensibilidade, conseguiste atingir fundo esse teu leitor assíduo. É revoltante ver o mal que as práticas religiosas provocam ainda na atualidade.
    Sabes que me considero um sujeito moderadamente religioso. Mas se for pesar os prós e contras, não sei se ainda temos espaço para muitas das antigas práticas ritualísticas…

    • Fernando disse:

      Grato, Tiago. O grande problema é que a maioria dos fanáticos rejeita qualquer crítica a seus cultos e costumes. Mesmo que estes causem dor e sofrimento a inocentes. Eles acreditam que são ordens divinas, portanto, irrevogáveis.

  3. Teu melhor conto: a dor da ignorância religiosa profundamente vivencial, ao alcance da mão.
    Não dá para fazer maiores comentários, dói muito.
    Grande abraço.

  4. Fernando Bastos disse:

    obrigado Vana. uma verdade q começa a ganhar corpo infelizmente aqui no ocidente. em nome da culturalização, ou seja, aceitação dos costumes dos outros, q às vezes, podem ser extremamente perigosos. no livro Choque de Civilizações, o autor mostra que o ocidente sofre de peso na consciência por ter colonizado os povos da África e oriente médio, de modo que pra diminuir o sentimento de culpa, aceita sem restrições os costumes de outros povos, q vão sendo introduzidos lentamente por aqui. a islamização é preocupante, pois alguns autores acreditam que em pouco tempo a europa terá mais muçulmanos que europeus.estima-se que até 2060 de cada 4 europeus, um será muçulmano.

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