Motivos para escrever (Marcelo Lamas)

Estou completando 18 anos neste “ofício de juntar palavras”, como disse Drummond. Começou cedo minha admiração pelos impressos. Não havia o Google, achei importante manter uma fonte de informações e comecei a colecionar jornais. Consegui convencer minha mãe a gastar o salário integral de um mês de trabalho para comprar minha primeira máquina de escrever – um instrumento no qual você batia na tecla e a impressão saia automaticamente: “Marcelo, tu vais usar esta máquina? Só vale a pena comprar se tu fores usar bastante”. Usei e muito.
Ainda adolescente iniciei escrevendo para as seções de opinião, no RS. Quando mudei para Jaraguá do Sul tive dificuldade para publicar minhas ideias. Fiz uma pesquisa e quase não apareciam opiniões femininas. Pensei em escrever usando um pseudônimo de mulher. Depois, decidi que tinha que ter um “cargo”. Então, fundei uma “entidade”, que nem estatuto tinha, era o presidente. Hoje entendo que os espaços eram mais restritos e que os jornais não eram diários.
Um dia uma menina de onze anos sugeriu que escrevesse as histórias engraçadas que contava. Procurei aprimoramento, fiz cursos e oficinas para escritores e passei a dedicar-me às crônicas. Participei de antologias e publiquei um livro solo. Ainda está viva no meu DNA a obrigação social da época das opiniões. Fico imaginando ter um calçadão exclusivamente para pedestres – como o nome sugere – e deixar todos os semáforos “piscando” depois das 23h. É muito estranho ficar parado esperando um assalto às 2h da madrugada.
Por outro lado sou um contador de histórias por causa da Susana, era o babá da minha irmã. Quero ressaltar que só escrevo porque existem os leitores, senão guardava meus manuscritos num armário.
Meus amigos confidentes concordam comigo quando digo que as melhores histórias – ou trechos – são aquelas que não posso escrever. Não faltam transgressões, vindas de muitas direções, querendo descer pela ponta da minha caneta. Sigo a doutrina de Mario Quintana: “Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”.

Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

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6 respostas para Motivos para escrever (Marcelo Lamas)

  1. Fernando disse:

    Marcelo, eu tambem sofro com o receio de escrever coisas que podem magoar, ofender pessoas próximas. Falar de sexo, por exemplo, para um escritor desconhecido como eu, vai causar assombro, mas se é um escritor renomado, chovem elogios: ele é de vanguarda, culto, liberal, temos que refletir sobre o que ele escreve.
    Aos poucos estou perdendo o medo e colocando tudo que me vem à cabeça, assim pratico a honestidade comigo mesmo e com o leitor. sem hipocrisia. Doa a quem doer. Já li, mas não lembro quem escreveu, que um escritor jamais deve pensar no que os outros vao falar.

  2. Tiago disse:

    Motivos nunca nos faltam para escrever.
    Mas em meu caso, ultimamente falta tempo para transcrever os pensamentos.
    Ando pensando em gravar meus futuros textos e contratar alguém para digitar pra mim.
    Alguém se habilita? rs

  3. Tiago, grave sim. Não deixe a inspiração passar. Um dia você mesmo conseguirá transcrever, passar a limpo e suas ideias estarão prontas para publicação, mais maduras e revisadas. Abs.

  4. Marcelo, obrigada por dividir sua experiência. Estou aprendendo a cada dia, a redigir, a encontrar a inspiração, a ouvir as opiniões e crescer com elas. Não podemos obrigar a ninguém a gostar da gente e muito menos do que escrevemos. Mas podemos aprender a encontrar leitores que gostam de nossos pensamentos. Não pare. Continue compartilhando seus pensamentos. Abs.

  5. Escrever é uma ato de coragem, a atividade mais solitária possível.
    Os escritores (conhecidos ou não) são os grandes historiadores de sua época, poucos são universais. No momento que filtramos por medo de magoar ou ser muito “pesados” com certeza cortamos parte do retrato que queremos produzir e não somos fiéis ao que vemos, ouvimos e participamos.
    Esqueça do leitor, ele só existe depois.
    Grande abraço.

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