Labirinto do Tempo (Robert Brotzke)

Vejo o tempo passar depressa, num descompassado ritmo diante dos meus olhos. Por momentos despercebidos, poderia até não identificar quem eu era, até que meus pensamentos voltassem lúcidos neste novo instante. Mil e uma alternativas estiveram na minha frente, inúmeras escolhas passaram pelas minhas mãos, e tudo o que eu precisei fazer em todas elas, foi segurar ou largar a chave que abriria a porta desconhecida, ou apertar ou soltar a mão da pessoa que chegou na minha vida.
Tudo esteve necessariamente dependente das minhas decisões, mas poucas foram as vezes que eu as tomei com total lucidez sobre os prós e os contras que elas traziam consigo. Na grande totalidade, sequer dei importância ao que precisava ser decidido, com tanta urgência daqueles que precisavam saber qual era a minha escolha; eu me utilizava apenas do que era mais viável e prático pra mim no momento, incorporando inconscientemente uma dose elevadíssima de egoísmo.
Porém, tinha que pensar em mim mesmo, nas consequências que os caminhos me trariam. Será isso a explicação da frase da música dos Titãs: “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”??
 
Os ponteiros do relógio não se cansam de trabalhar, mostrando a ilusória noção exata de cada segundo que vivemos. O que pode ser mais demorado: um segundo de cochilo, ou um segundo olhando no fundo dos olhos da pessoa que faz nosso coração acelerar? Não deveriam valer os mesmos 100 milésimos cada um deles? Um segundo pode ser esquecido já no segundo seguinte, e outro segundo pode ser lembrado durante décadas.
 
Pela contagem padronizada que temos do tempo, vinte e sete anos já me passaram, onde cada instante teve um significado relevante para mim (até mesmo um cochilo pode ter sido decisivo, para que eu não sofresse nenhum acidente, ou adoecesse pela fraqueza do corpo), e muitos outros instantes ainda estarão ao meu alcance, necessitando de decisões instantâneas em cada um deles. Há um tempo atrás, isso me causava temor, por talvez não ter feito as escolhas certas, mas isso já não me perturba mais, pois vivemos diariamente em uma espécie de labirinto de perspectivas, onde mesmo tomando a decisão errada, seguindo por um caminho que não deveríamos passar, iremos mais cedo ou mais tarde nos deparar com um muro intransponível, que nos obrigará a retornar e voltar ao ponto de origem. Por mais que haja teimosia em querer provar para nós mesmos que estamos certos, perceberemos que não existe outra escolha. 
Normalmente quando caminhamos por um caminho desconhecido, prestamos atenção a cada detalhe, valorizando a totalidade de cada segundo, porém quando repetimos o caminho (ou a atitude), já sabemos até onde podemos chegar, e isto já não passa a ter tanta importância. Assim, ao longo dos nossos dias de vida, teremos a lembrança das coisas novas que fizemos, dos momentos inesquecíveis da viagem que sonhamos, das surpresas que a vida nos trouxe, das palavras amigas de alguém que nos mostrou a saída do fundo do poço, dos instantes mágicos que passamos ao lado da pessoa que nos fez sentir amor… mas esquecemos um segundo, uma hora, um dia ou até mesmo um ano que não agregou nada do que já sabíamos. Todos os segundos possuem o mesmo tempo, o que os eterniza é a importância que damos a cada um deles, e acredite: um simples cochilo ou suspiro, perdido no meio de um dia comum, pode mudar completamente o segundo seguinte.
 
Robert Brotzke
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3 respostas para Labirinto do Tempo (Robert Brotzke)

  1. Inacio Carreira disse:

    Parabéns, Robert.
    Parodiando o vate, escrever é preciso.
    Grande abraço.

  2. Tiago disse:

    É meu amigo. Em nossos dias vemos cada vez mais pessoas vivendo em modo “piloto-automático”.
    E o tempo vai passando.
    Viajei no teu texto cara. Contabilizei aqui muitos segundos, milhares na verdade, pateticamente perdidos…
    F…

  3. Hoje, voando do Rio para SP, escrevi sobre o tempo, outro prisma, mas sobre a vida que se esvai pelos olhos sem que a enxerguemos… Abs

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