Duplicidades (Inacio Carreira)

Na aula de História o tema, por incrível que pareça, foi Gêmeos. Numa parceria com Biologia, Geografia e Língua Portuguesa, numa tal de transdisciplinaridade, o professor de História, que teve a ideia, falou sobre Castor e Pollux, irmãos gêmeos da mitologia greco-romana, filhos de Leda com Tíndaro e Zeus, respectivamente, irmãos de Helena de Tróia e Clitemnestra, e meios-irmãos de Timandra, Febe, Héracles e Filónoe. No mito, os gêmeos partilham a mesma mãe, porém têm pais diferentes – o que significa que Pólux, por ser filho de Zeus, era imortal, enquanto Castor, não. Com a morte do irmão, Pólux pede ao pai que deixasse seu irmão partilhar da mesma imortalidade: teriam sido transformados na constelação de Gêmeos e são tidos como padroeiros dos navegantes, a quem aparecem na forma do Fogo de Santelmo. Esse fogo-de-santelmo é, na realidade, uma descarga eletroluminescente provocada pela ionização do ar num forte campo elétrico provocado pelas descargas elétricas. Entendeu? Eu não, ainda…

Já Rômulo e Remo, na mitologia romana, também são irmãos gêmeos: Rômulo fundou a cidade de Roma e foi seu primeiro rei. Conta a lenda que Rômulo e Remo eram filhos do deus grego Marte e da mortal Rhea Silvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa. Reza a lenda que Amúlio, irmão de Numitor, após golpe de estado, apoderou-se da coroa e fez Numitor prisioneiro. Rhea foi confinada à castidade, para que Numitor não viesse a ter descendência. Entretanto, Marte desposou Rhea Silvia, que deu a luz a Rômulo e Remo. Ao saber do nascimento das crianças, Amúlio jogou-as no rio Tibre: a correnteza os arremessou à margem e foram encontrados por uma loba (prostituta?), que os teria amamentado e cuidado até que foram achados pelo pastor Fáustulo, que junto com sua esposa os criou. Na Itália, as prostitutas são chamadas de Lobas, daí o nome de lupanar ao prostíbulo, o que muda um pouquinho a história acima.

E Cosme e Damião? Alguns relatos atestam que eram originários da Arábia, de pais cristãos. Seus nomes verdadeiros seriam Acta e Passio. Eles foram martirizados na Síria, sendo desconhecida a forma como morreram. Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e fiéis transportaram seus corpos para Roma. Das várias versões, uma explica que eram irmãos, bons e caridosos, que realizavam milagres. Outros relatos afirmam que foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e inimigos dos deuses romanos. Em outro, na primeira tentativa de morte foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, foram degolados e morreram. Depois de mortos, apareceram materializados ajudando crianças que sofriam violências. A partir do século V, os milagres de cura atribuídos aos gêmeos fizeram com que passassem a ser considerados médicos, pois, quando em vida, exerciam a Medicina na Síria, em Egeia e Ásia Menor. Mais tarde, foram escolhidos patronos dos cirurgiões. Muito esforço foi despendido para mostrar que Cosme e Damião não existiram de fato, que é apenas a versão cristã dos filhos gêmeos de Zeus, pagão.

Alguém lembrou do filme Gêmeos, Mórbida Semelhança, que tinha assistido em casa, e pediu para a professora de Artes entrar no circuito da transdisciplinaridade. Ela disse que não, que esse filme é muito forte para nossa idade. Curioso, juntei-me a um grupelho e assistimos ao mesmo em minha casa. Dirigido por David Cronenberg, “explora os mais estranhos medos, entre os cantos mais inquietantes da psicologia humana e da sexualidade”, diz a sinopse. Mais ainda, informa que é a história de gêmeos, médicos e ginecologistas, que são tão próximos que “suas identidades parecem interligadas em uma espécie de ´consciência conjunta`. Eles se aproveitam da aparência idêntica para trocar de lugar um com o outro à vontade, seja em aparições públicas, na realização de cirurgias e, até mesmo, compartilhando as mulheres que se envolvem com um deles. Quando um se apaixona por uma estrela de cinema, Claire, o elo íntimo é rompido, as coisas começam a dar errado. “O filme é um estudo sobre o pesadelo da dependência psicológica, das obrigações entre as pessoas saudáveis (simbolizado pelo sonho horrível em que um se imagina unido ao outro por um cordão umbilical de carne, que Claire tenta morder)”. Embora inusitada, o filme é baseado em fatos reais, quando os gêmeos e também ginecologistas de 45 anos, Stewart e Marcus, foram encontrados mortos em seu apartamento, em 1975 (o filme é de 1988). À época das mortes, os médicos se tornaram viciados em barbitúricos.

Vivos, alegres e comunicativos deveriam ser todos os gêmeos, desde os verdadeiros (pois já nascem acompanhados, não devem nunca sentir solidão) até os do signo. Entretanto, as histórias são trágicas, falando de terror, morte, desolação. O que eu faria se este fosse o meu signo? Gêmeo não sou, sei de cor, embora tenha uma pesquisa no Google que informa de estudos realizados com gêmeos separados ao nascer e criados em lugares diferentes, para ver se o DNA ou a criação, o ambiente, influenciam na pessoa. Deu 10 a zero para o DNA, deixou todo mundo intrigado.

Acho que os professores vão ter muito trabalho conosco. Depois de toda esta pesquisa não vai ter pra ninguém. Vamos subir ao firmamento, descer os despenhadeiros, degolar, criar cidades. Em sala de aula ou em algum jogo das redes sociais, onde podemos viver novamente.

Viver novamente?

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2 respostas para Duplicidades (Inacio Carreira)

  1. Fernando disse:

    mtas informações que eu nao conhecia, apesar de ler bastante sobre o tema. essa da loba ser uma prostituta só confirma que por trás de todo mito, às vezes há um fundo de realidade. E sei que há casos (raros) de gêmeos que compartilham a mesma mãe, mas pais diferentes.

  2. Fernando disse:

    ou seja, o criador do mito dos gêmeos Castor e Pollux, que talvez tenham existido, ao lhes conceder dois pais , nao estava fazendo ficção, como se pensava até algumas décadas atrás, antes da ciência comprovar que a “concepção em trio” era possível.

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