Aulas de Culinária: Ah!… Família… (Vana Comissoli)

     casa

       A casa ficava a sombranceiro do morro. De longe, ao subir a lomba, já se avistava suas aconchegantes formas brancas: o arco da varanda,  as duas janelas alegres, sempre abertas para as hortências, que no verão coloriam tudo de azul alilasado. A porta das visitas também era oval e a campainha estrilava num som de sino,  agudo e divertido. De perto, seu reboco, lembrando glacê de bolo,  despertava desejo de criança: dedo roubando porção para lamber.

         Havia um estreito corredor ao lado da casa por onde se chegava à entrada íntima. Sua pequena área estava invadida pela pitangueira carregada de frutos vermelhos e cheirosos. Impossivel  passar sem roubar uma folha e masserá-la até que sua seiva enchesse a mão de perfume intenso, obrigando a gente a cheirar as pontas dos dedos até  terminar o alento. Era desta porta que eu mais gostava. Meu passaporte de importância, de aconchego, eu  fazia parte da família, nem me importava de não retinir  campanhia.

         A casa pertencia aos meus tios, onde costumava passar as férias. Construída num bairro distante e pouco habitado, chegar lá dava sensação de viagem a outra cidade. Balançava em dois ônibus para vencer a distância de chegar. O bastante para sentir-me em outro país.

         Saía do apartamento silencioso de filha única e penetrava na ruidosa vivência com meus quatro primos: duas meninas e dois meninos. Todos mais velhos do que eu, mas não tanto que me fizesse sentir ameaçada.

         Em casa, empregada arrumando meu café, almoço pronto quando chegava da escola; roupa passada e cama feita na hora de dormir. Lá, no lar de verão, lavando a louça com as meninas, aprendendo incipiências de culinária, varrendo o chão e tirando o  pó. Dias pares na limpeza, com a prima Ana; dias ímpares, com  Suzana no preparo das refeições . De noite sempre sopa, e, às sete em ponto, que o tio era severo e chegava cansado do trabalho. Só mais tarde vim a compreender que era também machista e autoritário. Na época o víamos apenas o pai.

         Dezembro se aproxima. Os exames do fim de ano exigem muita atenção, se passar em todas as matéria (agora são muitas, pois estou com quinze anos e adiantada na escola) irei gozar as férias na casa da tia Zuleica. Termino tudo muito bem.

         Lá me vou, maleta em punho, sacolejando no ônibus amigo. O ponto de descida é um pouco além da casa, por isso, da janelinha, vejo meus primos em festivos abanos de boas-vindas.

         Beijos, risos, tudo a que tenho direito, me recebe. Meu coração pula de alegria. Alguém me toma a bagagem das mãos e vamos entrando pela porta do lado, mão esticada para arrancar a folha de pitanga. A cachorra vem latindo e abanando o rabo,faço um carinho rápido no pelo hirsuto. Vontade de entrar logo na ampla cozinha, a maior peça da casa, onde a família se reúne para comer, brigar e fazer planos. Onde  passarei a maior parte do meu tempo nos próximos dois meses.

         Ah, que bom ver de novo os dois fogões: um a lenha, onde a chaleira nunca esfria e outro a gás, para modernizar as lides. A grande geladeira branca, com seu logotipo GE,  bonito nas letras douradas. O paneleiro e suas panelas de espelho, orgulho da prima Suzana. Nos armários de aço, pintados de branco, guardam-se as louças com suas pinturas de rosas e junquilhos. As prateleiras laderais, de flancos arredondados,  suportam, com orgulho os objetos preciosos: chaleira antiga, peças de porcelana desparceiradas e o maravilhoso bule de chá inglês, todo azul com figuras brancas: cenas de caça.

         Na mesa redonda, onde sentamos espaçados, largo minha bolsa novinha. Vontade danada de distribuir os presentes: lenço de cambraia com um Z bordado à mão para a tia, brincos dourados para Ana e prateados para Suzana; par de meias azuis para Humberto e marrons para Roberto. O tio não precisa.

         Meu primo Roberto é o mais velho, sorriso mestiço, movimentos calmos, voz que se ouve em raro. Meio burro, não conseguiu terminar os estudos, por isso dedicou todos os cuidados ao corpo que  desenvolveu pendurado na barra do quintal.A pele foi amorenada no trato do jardim e num sangue índio perdido nos ancestrais, -até negro tem na família- informava a avó no desacerto de seus  olhos azuis  de origem francesa.

         Humberto puxou a mãe: uma barata meio descascada, cabelo sem cor, ou cor de areia, se um elogio fôsse necessário. Humor fácil, riso solto, um nome feio sempre na ponta da língua. Namorador e apaixonado. Cada festa um porre e uma declaração de amor para quem estivesse mais próximo.

         Ana, a mais velha das irmãs, retrato escarrado do primogênito, até no comportamento resguardado. Contrário de Suzana, a caçula, rabo quente, mentirosa e matreira. O problema da família, com sua predileção por namoros nos cantos escuros e dança de rosto colado. Rindo de sacudir toda ao enganar o avô cego e conseguir uns trocos para comprar um cigarro que seria fumado escondido, atrás das laranjeiras carregadas.

         Todos de férias. Tempo de sobra para traquinagens. Nós, meninas, na obrigação do levantar cedo, sempre prontas para uma brincadeira sacana com os rapazes que dormiam até mais tarde. Eles, correndo atrás, em vinganças de cócegas, ou de nos pegar desprevenidas estourando  ovo nos nossos cabelos sedosos.

         A manhã nasce ensolarada. Preparamos os paus de fósforos queimados até o limite, ainda com a brasa viva. Eu serei a agente do dia.

         Entro no quarto dos primos. Roberto dorme na cama mais próxima, será a vítima. O lençol mais descobre do que esconde o corpo, só de cuecas devido ao calor. O pé está  na posição correta, virado para cima, dedos na espera do mosquitinho ardido. Com todo cuidado implanto o fósforo em brasa. Meus olhos escorregam pelas pernas de músculos proeminentes, tão diferentes das minhas e um segredo dentro da pequena peça do vestuário, não sei porquê, se avoluma em minha direção. Saio rápida. As meninas me esperam no corredor, em risos seguros pelas mãos em concha sobre a boca. Meu coração está assanhado dentro do peito. Será medo que o primo me pegue na ação diariamente esperada?

         Um grito, um – merda, guria sacana ─ nos põe a correr. Logo o vulto,  com calções ao meio das pernas vai crescendo sobre nós.

─Cada uma para um lado.

  Corro o mais que posso procurando o abrigo seguro das laranjeiras. Uma mão me pega pela saia e me puxa, dois braços de ferro me levantam do chão e eu grito um socorro cheio de risos. Demoro a sentir a terra sob os pés, o abraço parece-me que afroxou, mas, porque não me larga? Enfim posso fugir. Olho sobre o ombro verificando a solidez da distância. Roberto não me segue. Está parado me olhando.

         Os dois rapazes sentam-se à mesa, Humberto bate no tampo e com voz de tio exige:

─ Café, suas lerdas, minhocas de aquário, antas velhas.

         Prestativas colocamos as xícaras servidas e fumegantes ao máximo, já bem açucaradas com sal. A vingança, bem sabemos, será cruel.

         Hoje é terça-feira.

         Suzana abre a GE. Tira um tatu de bom tamanho, linguiça, ovos, tempero verde, cebolas e muitos tomates. Eu observo.

         ─ Corta esta cebola, bem miúda, Angela, enquanto ponho a panela de ferro para esquentar.

         Obedeço. Na cozinha é o que me resta.

         Minha prima faz um furo na carne com uma faca pontuda e comprida. Penso nas notícias de morte que, às vezes, ouço meu pai comentar enquanto lê o jornal. O ovo ferve em cima do fogão à lenha e a panela, se esquenta na boca de gás. A linguiça é introduzida na carne. Olho fascinada. A carne é vermelha e Suzana a segura com firmeza, enche-lhe a mão. O recheio da linguiça, carne guisada, estica a pele que o contém, entra sem medo no túnel escuro que aguarda.

         ─ O que foi, guria, está de mandrake? Pega os tomates e pica bem picado, mas antes escalda para tirar a casca.

         Obedeço, sem deixar de olhar a linguiça entrando no tatu e depois um ovo duro e mais outro.

         O cheiro da banha quente satura o ar. Alho amassado e derramado sobre ela, uma fumaceira sobe da panela. A cebola que vai a seguir, perfuma tudo.

                     Suzana fecha o buraco da carne com o pedaço que tirou dela e prende tudo através de palitos.

         Sinto um movimento nas minhas costas quando me viro recebo em cheio, na cara, um punhado de farinha de trigo e um copo d’água. Roberto ri, tanto que precisa se agarrar nos meus ombros para não cair e encosta a cabeça na minha enquanto esperneio e dou socos flácidos no seu peito.

         Preciso de um banho, trocar as roupas. Suzana continua sozinha o trabalho. Liga o rádio no máximo e, do banheiro que divide parede com a cozinha, acompanho pelo cheiro, a carne ser posta na panela e ir dourando. O aroma se aprimora na lentidão do fogo. Os tempêros caem um a um e percebo o alecrim, a pimenta do reino, pouquinho de orégano. Afinal dimunem de intensidade quando a tampa recolhe todos eles. O sal não senti, que perfume não tem nenhum.

         Volto a tempo de ver o molho italiano ao suggo ser preparado.Muita cebola frita, alho de companheiro. O tomate, que piquei, avermelha sobre tudo, chiando no calor. Depois a folha de louro, a pimenta do reino, o sal; em seguida uma prova na palma da mão . Suzana faz um volteio, sacode o corpo ao rítmo do samba-canção que canta a saudade do amor longíncuo. A mexida da colher-de-pau na grande panela cheia de água , sal e um tanto de azeite, medido no olho, acompanha o começo do Roberto Carlos falando em botões da blusa se abrindo. A moça-cozinheira abre a própria roupa e eu fico hipnotizada, olhando. Em vez de seios em soutiens, enxergo pernas e volumes em cuecas.

         O molho ferve, a carne dourada  cozinha no próprio suco e o macarrão entra duro, se amolecendo aos poucos na água fervente. Espaghetti.

         Almoçamos com voracidade. Tia Zuleica foi ao médico, o tio, como todo dia, voltará apenas à noite. Temos festa, coca-cola e malícia. Humberto senta-se ao meu lado e fala da namorada Telma, uma gata para ninguém por defeito, uma paixão de arromba – definitiva. Ana sacode a cabeça em desaprovação e gira no dedo o anel de promessa que o namorado, quase noivo, lhe deu. Suzana come e mais nada. Pensa apenas na ambrosia amarela e doce esperando na geladeira. Roberto, na minha frente, olha o macarrão se enrolando no garfo, o molho vermelho que pinga e crava os dentes com força na carne macia. De espaço em espaço, espia por cima do garfo, bem na hora que o espio também e baixamos rápido a cabeça. A comida cai como uma pedra no meu estômago.

         O Natal se aproxima, a família toda virá festejar aqui. Dias antes estamos no preparo da cera esticada no chão, a árvore de puro brilho e lâmpadas montada na sala, a cozinha cheirando a calda, ovo, passas de frutas e pães crescendo no forno.

         Sempre ajudei meu primo mais velho a arrumar o pinheiro que quase alcança o teto. Quantas vezes ele me levantou no colo para que eu pudesse colocar a estrela-guia no galho mestre? Estou muito pesada, mesmo assim ele tenta me erguer, meu corpo tem que colar-se ao dele. Estendo os braços  em direção à árvore enquanto sua mãos me pegam pela cintura:

         ─ Ligeiro, prima, que não te aguento.

         ─ Mais um pouco, mais um pouco. Ah!

         Caímos os dois. A cadeira aonde subimos desaba junto. Rolamos no tapete e eu o abraço, nossas bocas se buscam numa ânsia que cresceu dia a dia. Sinto seu peito chato apertando meus seios incipientes e seu sexo pressionando o meu. Ele é tão grande, tão quente. Me liberto, saio correndo para o banheiro. Choro de frustração, desejo intenso e impossibilidade.

         Os dias que faltam para a grande festa passam normais: nenhuma palavra estranha é trocada, nenhum comentário incômodo é feito. O silêncio é muito mais rico que o falar. As brincadeiras de cócegas se tornam longas, as vinganças terriveis, abraços  poderosos e os mosquitinhos da manhã são colocados com técnica mais aprimorada, exigindo uma demora na consecução do feito.

         Roberto deitado, olhos acesos, espera a chegada da terrivel agressão ígnea. As mãos ásperas seguram a prima traidora e fazem revanche passeando pelos ombros, audaciosamente, indo aos seios. arrepiando os mamilos. Sem poder escapar Ângela se estica na cama e permite. Faz parte da guerra: atacar e ser atacado.

         A festa enche a casa de tios, avós, primos, primas. Hoje é Natal, todo mundo pode beber um pouco mais. Isto dá chance que, os que estão de mal, por motivos justos ou não, se abracem e confessem um bem-querer imorredouro. Lá está Humberto, o campeoníssimo do perdão de Natal, pendurado no tio, ouço sua voz tropeçando nas consoantes:

         ─ Eu prometo, pai, volto a estudar, tu sabes como te amo, mas não sou teu filho predileto, gostas mais do burro do Roberto. Vai ver, por isso preciso rodar, aquela história de chamar atenção.

         ─  Filho, besteira, eu que te amo. Tu vais fazer o melhor, tu és o melhor.

         As lágrimas se misturam, trocam de cara e saem os dois abraçados a tomar a fresca da noite enquanto a turma jovem canta a plenos pulmões:

         ­ Noite feliz, noite feliz.

         O Senhor, Deus de amor…

         Vejo Alceu, o quase-noivo de Ana, puxá-la para a varanda.

         ─ Ana, meu bem, eu te amo.

         ─  Eu também te amo, Alceu.

         ─ Morzinho, a gente vai casar. Já compramos fogão e geladeira.

         ─ Que bom!

         Alceu abraça a quase-noiva, sua mão anda nas costas, no pescoço. Enquanto seus lábios calam sua boca, a mão toca a ponta do seio por sobre a blusa.

         O pensamento de Ana corre também, atrapalhado:

         ─ Alceu é meu quase noivo, a gente vai casar, ele disse. Nos amamos… No seio, só no seio pode; ou não pode?

         Suzana levanta-se do sofá, larga na mesinha de centro o cálice com um resto de vinho branco, demora para se aprumar, parece que o corpo está muito pesado. Retoma a caminhada rumo ao corredor, erra a porta, bate com o ombro no batente. Pára e enfim desaparece.

         ─ Puta que pariu, estou bêbada. Preciso chegar no banheiro, está me dando uma ânsia, ai, que vem tudo para fora. Anselmo, desgraçado, filho de uma égua, não vieste e comprei abotoadura cara de presente. Eu arrumo logo outro, idiota, brocha, fresco. Cadê o banheiro? Mudou de lugar, merda?

         Eu continuo cantando, mas não deixo de ver quando Roberto sai da sala. Sinto sede, tenho urgência de beber um refrigerante, a champanhe me deixou tonta. Fumei um cigarro que me deu uma bobeira na cabeça.

         Ao chegar na cozinha encontro meu primo. Não tem ninguém no fundo da casa, ele me abraça:

         ─ Ainda não te dei feliz Natal, prima. Desculpa o esquecimento.

         ─ Foi nada.

         Ele me beija na boca e fico mole, devagarinho vamos indo para a churrasqueira, às escuras na falta de utilidade nesta noite. Roberto se deita no sofá e me puxa sobre ele, suas mãos procuram lugares que quero entregar. Sua voz, distante como as estrelas, soa lambendo o meu ouvido:

         ─ Nunca faça isso com mais ninguém. Não vão cuidar de ti. Só eu vou cuidar, só eu…

         Não quiz ficar na casa da tia Zuleica até a chegada de março. Minhas amigas estavam me procurando, disse minha mãe. Depois cresci, nunca mais passei férias lá, mas não perdi  a amizade pelo meu primo Roberto, nós crescemos juntos, difícil esquecer, mesmo depois de casada.

         A esse tempo devo o fato de ser excelente cozinheira, meu marido que o diga!

 

                                                                                Vana Comissoli

 

                     

Esse post foi publicado em Prosa e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Aulas de Culinária: Ah!… Família… (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Vanuska, oberigado pela viagem ao passado, pela receita do tatu assado no fogo à lenha, o macarrão no bom molho caseiro… Essa tensão adolescente, quando tudo é novo, quando tudo desabrocha, quando o mosquitinho acende emoções impensadas, desconhecidas…
    Parabéns ao marido que tem / teve uma mulher com tanta experiência de cama e mesa…
    Abraços.

  2. A mesa tu conheces e a cama ao lado também. Se eu ronco tu sabes. kkkkk
    Bjs

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s