Diário de um menino católico (Fernando Bastos)

Sexta-feira da Paixão, 30 de março de 1956

Perto do meio-dia fui confessar-me; sabia que não teria muita gente na igreja àquela hora. Dito e feito. Quase não pego o padre Dionísio, que já se retirava para a sacristia.

Chamei-o. Ele se virou: Que a paz de Nosso Senhor esteja contigo, Afonso; o que deseja? Vim me confessar, padre. Bom, disse ele estreitando os olhos, eu ia almoçar, não pode ser depois das duas? O que tenho pra falar é muito grave, disse acabrunhado, olhando para o piso de mármore e as unhas empretejadas de meus pés. Daí, ele concordou, entrou no confessionário, e esperou. Daí eu falei aquelas palavras que aprendi na catequese: “Padre, dai-me a vossa bênção, porque pequei”. Como já havia aprendido, tinha que começar pelos pecados mais graves, aqueles chamados mortais, mas eu só tinha um pecado, e era grave e mortal, e não sei como tive coragem, mas tive.

Padre, esse pecado me atormenta há meses, mas juro por Deus, eu, quando comecei, não sabia, não sabia que o que eu fazia era mal aos olhos do Senhor. Você está enrolando, Afonso, não precisa ter medo, conte tudo de uma vez. Daí eu contei tudo de uma vez: Tudo começou há uns quatro anos atrás, quando eu tinha 7 anos, quase oito. Foi quando meu pai trouxe pra casa aquele quadro de Nossa Senhora pisando descalça sobre a cabeça da cobra. Era Satanás, ele corrigiu. Eu sei padre, aprendi ano passado na catequese. Ele pregou um prego na parede, e o pendurou. Daí ele saiu pra trabalhar. Daí, quando ele saiu, fiquei por uma meia hora admirando aquele quadro, e só parei quando minha mãe me chamou pra almoçar. Afonso, meu filho, vá direto ao assunto, por favor.

Está bem, padre, agora vou dizer o meu pecado, o terrível mal que fiz, falei, quase chorando. Eu me encantei pelo lindo olhar da Senhora, pela sua boca, os cabelos loiros mal aparecendo sob o véu; porém, o que mais me encantou foram seus pés, de dedos branquinhos, longos e perfeitos, que a comprida túnica branca deixava à mostra. Daí, eu senti um formigamento na barriga, meu corpo latejar, e foi a primeira vez que tive aquele negócio, pelo menos do qual tenho lembrança. Você gostou do que sentiu?, perguntou o padre, com voz trêmula. Sim padre, muito, e desejei ardentemente me prostrar diante daquela imagem e beijar com fervor aqueles lindos pés. Desde aquele dia, não tiro a imagem daquele quadro da minha cabeça.

E aquelas sensações se repetiram, meu filho?, perguntou o santo homem, e fiquei na hora com pena dele, pois senti que ele parecia que ia morrer, ele mal conseguia respirar. Daí confirmei, pois aprendi que não se pode mentir a um homem de Deus. Virgem Santíssima!, disse o padre horrorizado, e pude ver mal e mal pela telinha do confessionário ele desabotoando a batina, para poder respirar melhor.

Depois que contei, parece que o padre Dionísio ia ter um treco; embora não visse claramente seu rosto, ouvia sua respiração se acelerar, e me pediu pra contar tudo de novo,
sem rodeios. Eu estava morrendo de vergonha, mas ele disse que se eu não contasse tudo tintim por tintim, ele não me absolveria. Daí falei tudo tintim por tintim, porque não sou bobo e não queria ir para o inferno queimar junto dos outros pecadores. Sei bem como é o inferno; a Virgem o revelou aos três pastorzinhos de Fátima, e é mais terrível do que se pode imaginar.

Ao terminar minha confissão, ouvi o padre gemer alto, provavelmente devido à frustração de ter que ouvir coisa tão asquerosa.

Daí que esperei pela minha penitência, pois eu sei que depois que confessamos nossas faltas, o padre nos perdoa com as palavras: “Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.” Levantei-me e me sentia leve como uma pena.

Fui para o primeiro banco da igreja, bem diante da imagem da Senhora, e rezei, e rezei e rezei, mas sem coragem de olhar nos olhos dela, pois seu olhar parecia um ímã, e daí rezei com mais fé, pois eu sentia que aquela coisa ia começar de novo.

Virgem Maria

Esse post foi publicado em Não categorizado e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Diário de um menino católico (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    Digno de Almodóvar… Parabéns pela isenção.

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s