Névoa (Vana Comissoli)

A névoa entrou sub-reptícia por baixo da porta. Foi confundida com a umidade que impregnava o “lá fora” como só os invernos distorcidos do sul conseguem ter. Primeiro ela varreu e varreu incansáveis vezes, não podia perceber que a névoa subia e já se enroscava nos pés das cadeiras que foram umedecendo inexoravelmente, contaminando o chão e os passos tortos que ela ainda tentava dar. Os saltos de dança como era seu costume foram se amontoando em cima da poltrona e do sofá com as pernas muito presas sob o corpo. Fingia não os ver, se os visse dizia que era uma posição de yoga transcendental que a levaria a alturas inimagináveis. Quem sabe muito próximo do Olho de Deus, estivesse escondido onde fosse.
Não deixou de ter razão. Foi levada à distâncias impensáveis. A diferença é que não foi para cima, foi para dentro, muito dentro de si mesma. Naqueles espaços longínquos e desconhecidos da alma ainda presa em alguma reminiscência do passado, ou seus neurônios que deixaram de dançar rumba e se puseram a bailar um melancólico e choroso lamento dentro de usa cabeça. Ainda se negava a ouvi-los deixando que os dias se amontoassem numa tentativa infrutífera e infeliz de fazer de conta que a vigem sideral que se aproximava era apenas uma piada de mau gosto se deslocando suavemente para fora quando o sol trouxesse um novo dia.
Nunca este amanhecer demorou tanto, se alongando em madrugadas alienadas cheias de seres tão íntimos e desconhecidos que habitavam a única companheira com quem se permitia partilhar o momento degradante: a televisão. Eles a viam dormir e acordar, debater-se sem fazer sequer um movimento enquanto o corpo de entorpecia de dolorosa fixação à cama.
Totalmente impossibilitada de viver e não querendo ainda aceitar que era uma sobrevivente como todos os outros, com a diferença que não estava mais fingindo “que fazeres” ou soluções drásticas como aguerrido prazer pelo dinheiro, ou sexo, ou drogas. Quem sabe alguma fantástica proposição benevolente de cuidar de outro ou outros seres humanos em nome de uma ética, talvez algum deus despido de misericórdia.
De vez em quando brigava um pouco com algum ser imaginário que chamava de Deus por ter feito a vida uma coisa tão miserável e transitória onde não se faz outra coisa além de perpetuar a espécie desesperadamente, mesmo que parte desta espécie fosse ela mesma.
Afinal conseguiu perceber a névoa tomando a altura de seus ombros e tudo que era possível fazer se limitava a navegar através dela, sem enxergar nada. O nada era a maior permanência junto com as vozes que vinham da tela colorida e sistematicamente ligada. Tomou a decisão que, se não era possível viver a sua própria vida, então que ao menos vivesse a dos personagens que quase sempre atravessavam todas as dores do mundo fosse como fosse para desembocar num final feliz ou ao menos satisfatório. Se o final trouxesse a morte, a fiel escudeira que nasce com todo mundo, também havia alguma solução desesperada de transcendência que permitia adivinhar uma continuação absolutamente incomprovável de vida que alimentava a permanente presença do desejo de não morrer.
Foi assim que viveu cem ou mais vidas se mimetizando em personagens fictícios que transformava em reais para respirar com eles e sentir alguma emoção que não fosse a dor na pele e o aperto no estômago que tornavam o “ir lá fora” uma tarefa hercúlea a qual não se submetia a menos que os cigarros tivessem acabado.
Foi tudo que a mente humana pode criar e transportar para a tela que chamam de cinema. Desde alienígenas fazendo contato expresso de terceiro grau, até viagens sonhadas à Marte ou outro planeta distante qualquer que passavam a impressão de que era mesmo onde estava vivendo no emendar dos dias sem sentido. Se prostituiu nas ruas de Las Vegas ou Los Angeles sem jamais ter estado em qualquer dessas cidades, caminhou atrás de amores bobocas pela rua da grande maçã e sofreu como filho de um pai perdido na destruição das torres gêmeas. Foi à África, à Europa e conheceu o mundo todo vivendo entre tribos primárias que sofriam a desgraça de pertencer ao terceiro mundo totalmente estigmatizada pelos pseudo grandes primeiro mundistas. Até participou do assassinato de Bin Laden e outros monstros terroristas. Esteve nos dois lados das inúmeras guerras que ainda zumbem nos ouvidos como alerta mudos para a humanidade fazer de conta que jamais repetirá a bobagem, repetindo-a todos os dias. Nas grandes ou pequenas distâncias, até mesmo ali na esquina onde o bandidinho de 14 anos mata por trinta reais que lhe possibilitarão algumas pedras onde mergulhará sua tragédia de ter nascido num mundo miserável, seja por falta de dinheiro ou de bom senso mesmo.
De vez em quando se lembrava de que precisava comer e já tinha emagrecido o suficiente para entrar nas velhas calças jeans e pedia um socorro sussurrado onde não deixava transparecer a extensão do dano que a névoa colocava em seus poros, músculos e, por mais admirável que fosse não conseguia adentrar a fortaleza de seus pensamentos. Pensar era única coisa que se permitia sem que a névoa interferisse, tudo o mais entregava sem reclamar e nem sequer gemer muito alto. Por pensar se deu conta que era melhor afinar o grito e buscar algum tipo de possível boia de salvação que a impedisse de se afogar com a névoa entrando pelos ouvidos, olhos e boca até a morte psíquica total.
Esse grito contido trouxe as pílulas brancas e azuis, tão bonitinhas e brilhantes no seu invólucro de silicone ou outra coisa que o suco gástrico destruía. Tomou esperançosa que tivessem a capacidade de empurrar a maldita névoa porta a fora e ela de novo pudesse respirar um ar seco e magnificamente cheio de sol, embora acreditando que o sol se escondera atrás do monte para sempre.
As pílulas desceram com uma batida de relógio e foram fazendo seu trabalhinho sujo. Não trouxeram sol algum, pelo contrário fecharam ainda mais as janelas do quarto e germinaram sonhos de suicídio. A sorte, ou azar, não identificava muito bem, é que não havia nenhum apoio para uma forca e as facas quando entram no corpo fazem muita sujeira e deixariam o apartamento estragado para outros inevitáveis moradores. Quem alugaria um lugar onde o chão apontaria uma definitiva mancha vermelho coagulado? Sem detalhar que facada é coisa que dói e pode errar o caminho nem sequer matar de verdade, apenas deixando uma feia cicatriz que lembraria para sempre a visita da névoa. Caso ela resolvesse ir embora.
Neste estágio resolveu que o melhor era cortar comunicações há muito indesejadas, elas apenas revigoravam a certeza de que estava vivendo num mundo paralelo onde vozes soam intrometidas e desconfiadas para todo o sempre. Só precisou suportar com os dentes cerrados, uma receita ditada pela irmã distante que não podia saber da visitante em sua casa. Nem sequer foi pelo celular o que a obrigou a sair da cama para atender o aparelhinho insistente que se não fosse atendido poria a porta abaixo.
De qualquer forma se lembrava de tomar banho e empurrar alguma comida para dentro, de preferência as que deslizassem sem necessidade de mastigação, um exercício muscular de primeira grandeza. Foi assim que se tornou a rainha da sopa e das massas congeladas.
Sete ou oito intermináveis dias se arrastaram até se dar conta que os desenhos suicidas apareciam pontualmente em algum tempo após a ingestão das lindas pílulas. A loucura lúcida é ainda mais frenética do que a alienada e tivera o bom senso de ler a bula inteira e se tornara conhecedora da possibilidade do remédio fazer efeito reverso e acentuar o estado que viera curar. Abriu a tampa da privada e viu as pílulas se afogarem mansamente sem nenhuma resistência. Não fez o gesto com muita coragem, havia sempre a possibilidade de engano e afinal a névoa voltar com intensidade redobrada.
Foi a primeira noite que o sono não veio imposto e estava preparada para atravessar as horas abraçada a algum personagem cinematográfico que se dispusesse a acompanha-la. Eles eram fraternos e nunca se negavam a fazer a caminhada noturna pontuada com algum passeio pela casa silenciosa onde a luz da rua dava a sensação de que não habitava sozinha aquele campo inóspito e seco. Era uma boa ilusão que alimentava sofregamente, apesar da não resistência, a névoa gelava os ossos e não era possível abraça-la pedindo que não se diluísse. Mas não foi assim. Nem sequer conseguiu acompanhar os primeiros passos do homem que se debatia com a árvore das cem palavras. Era um filme bonito que passava uma mensagem de transformação possível, mas não o soube o fim até três dias depois quando repetiu na sessão da tarde. Dormiu.
Acordar sem que a cabeça parecesse um balão esvaziado trouxe a convicção que quem está se afogando e no último momento consegue vir à tona ainda com os sentidos encharcados tem uma visão possível de ressureição. Respirou o ar da manhã como se estivesse pela primeira vez saindo de um útero sombrio e os pulmões agradeceram num riso de perfeito prazer.
A névoa olhava meio desconfiada pela porta entreaberta para onde era empurrada sem convite de voltar para o almoço. Recolheu seus esparsos resíduos que ainda atapetavam a sala e colocou-os em sua bolsa enorme e rota.
Era um dia muito úmido e a chuva volta e meia desfazia a sensação de que faltaria água no mundo um dia. Mesmo assim abriu as janelas, pegou a cachorra e saiu a passear molhando os cabelos até que grudassem na testa. A satisfação de sentir aquele cinza todo fora de si e não saído de seu secreto coração valia toda a chuva que ainda o céu pudesse guardar.
Algumas perguntas ficaram pendentes, mas a resposta mais importante estava muito bem escrita em cuidadosa letra: Não é para entender, é apenas para viver.

Vana Comissoli

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Uma resposta para Névoa (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Vana, viva cada névoa e retorne, sempre, renovada para nos contar as novidades.
    Obrigado por sobreviver.
    Grande abraço.

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