Quem ama não mata… (Inacio Carreira)

Vivia grudado na internet buscando novidades. Que, depois, espalhava pela turma, pessoalmente, por e-mail ou através das redes sociais. Assinava todas, ou todas que conhecia. Precisava parar com isso. Perdia um tempo danado na frente da telinha. Se o patrão descobre, rua! Sem poder reclamar, que estava tudo registrado ali, no seu ID. Como se fosse seu id, aquele descrito por Freud. E, como o id, o ID é “a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade”. Como? Explico: se uma atriz de televisão denuncia a invasão de seus arquivos eletrônicos e a divulgação de uma foto sua, nua ou transando com o namorado de plantão, a polícia vai atrás rapidinho e prende o sabichão. Agora, se você recebe mensagens anônimas, de pessoas interessadas em azarar com sua paciência, e busca auxílio na mesma polícia (só existe uma, grosso modo) recebe a resposta de que “só se houver morte envolvida”.

Continuando os paralelos, assim como o id, o ID “desconhece o julgamento de valores, o bem e o mal, a moralidade” (Freud). As forças do id buscam a satisfação imediata, sem tomar conhecimento das circunstâncias da realidade. Funcionam de acordo com o princípio do prazer, preocupadas em reduzir a tensão mediante a busca do prazer e evitando a dor. Qualquer coincidência é pura semelhança. Ainda mais, para os incautos de plantão: o id contém a nossa energia psíquica básica, ou a libido, e se expressa por meio da redução de tensão. Assim, agimos na tentativa de reduzir essa tensão a um nível mais tolerável. Para satisfazer as necessidades e manter um nível confortável de tensão, é necessário interagir com o mundo real. Por exemplo: as pessoas famintas devem ir em busca de comida, caso queiram descarregar a tensão induzida pela fome. Portanto, é necessário estabelecer alguma espécie de ligação adequada entre as demandas do id e a realidade.
Entendeu? Se um automóvel é a extensão de nossas pernas, se uma arma é a extensão de nossos braços, o computador é a extensão de nosso cérebro. Antes de um computador com grande capacidade, temos que ter muita capacidade cerebral, ou não saberemos o que fazer com a máquina. São complementares. Até que o Ser invente o Androide inteligente, pensante, que tenha a capacidade de reflexão do aqui-agora, lembrando Blade Runner, o Caçador de Androides, filme de 1982.

Vivia grudado na internet buscando novidades. Encontrou a foto de sua namorada com o melhor amigo (deles). No maior malho. Indiferentes aos clarões do flash… Curtindo. Seria mesmo ela? Vai mandar cópia para o celular dos dois e ver a reação. Sósias? Impossível. Com a mesma roupa íntima, mesmo corte de cabelo, mesma expressão alucinada na hora do vamos ver?

Sua reação – instintiva – foi jogar o monitor contra a parede, lembrou a tempo de que não estava em casa, aquele aparelho não era dele, aquele tempo não era dele, aquela reação exacerbada – somente dele – deveria vir à tona em outra hora e lugar, quando encontrasse com os dois ex. Qual seria sua reação? Qual seria sua vingança?

O pior era o desejo, forte, que sentiu ao ver aquelas cenas e a falta de iniciativa para mudar de endereço. Músculos enrijecidos, rosto vermelho pelo afluxo de sangue, medo de que alguém chegasse em sua estação de trabalho naquele momento e o visse transtornado. Alterado. Transportado.

Tinha que aliviar a tensão. Depois veria o que fazer…

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2 respostas para Quem ama não mata… (Inacio Carreira)

  1. caco disse:

    Bem interessante sua explicação de ID. e o nosso eu mais puro, criança. Bem administrado só traz felicidade……

  2. boa sacada essa comparação entre os dois “ids”. abraços.

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