O choro é livre (Vana Comissoli)

choro 

            Impossível olhá-lo sem parar a observar. O homem chorava copiosamente no meio da rua e não se incomodava nem um pouco com o olhar intrigado dos transeuntes. Eu não tinha nada a fazer, situação de aposentado que sai a esquentar a vida debaixo do sol sonhando calores que não tem mais.

            O sujeito começou a andar meio trôpego e pensei que podia estar embriagado, só alguém fora de seu juízo com a idade que aparentava ter, lá pelos trinta e vários, daria aquele espetáculo sem pejo. Passou-me pela cabeça que ele poderia cair, tropeçar, ser atropelado por algum idiota que não se perturba com a dor alheia. Digo dor porque aquele pranto esparramado só podia carregar um sofrimento desmedido. Seria algum resultado de exame maligno que trazia nas mãos? Ou um obituário de jornal?

            Fui atrás dele sem me preocupar com o percurso e nem se estava me afastando muito do meu próprio caminho, há algum tempo não ficava distante de casa. Vá que tivesse uma síncope, ou um AVC? Dizem que é sem aviso e eu não tinha preferência por cair duro na rua, daria tremendo trabalho a meus filhos me recolher, mandar para o IML, prestar depoimento… Não, eu não faria isso com eles.

            Não faria? Dobramos uma esquina e outra e outra. Será que este sujeito sabe para onde vai? E agora essa! Está soluçando. Preciso falar com ele, não me lembrava de ter visto alguém envolto em tanto sentimento! É triste, mas é lindo. Agora a moda é mais filosofar sobre os entraves da vida do que senti-los e isso é mais triste ainda.

            A natureza toda parece concordar comigo por que abriu um céu mais azul do que o azul que o céu tem. Posso até sonhar que são os anjos que espiam um sentimento andando pela rua a soltar faíscas de existência.

            Ele sentou! Meu herói descobriu uma acolhedora mureta dura para sentar. Seus ombros sacodem com o desamparo do pranto. Não vacilo: sento-me ao seu lado.

            ─ Amigo, me conta o que te faz sofrer tanto?

Perguntei na coragem, acreditando que me mandaria catar coquinho. Olhou-me como quem estivesse esperando que lhe fizessem essa urgente e necessária pergunta.

─ Mataram, mataram ela!

─ Ela! Quem morreu?

─ A Valéria. A moça amiga, caridosa. Ela cuidava dos meninos de rua como uma mãe e eles a adoravam. Não tinha nojo de abraça-los, sentir seu cheiro. Nada que um bom banho não resolva, deveria ter dito aos seus ouvidos.

Fiquei procurando na minha memória que andava dando umas falhadas cretinas, quem era a Valéria. Pensei em todas as novelas, nos noticiários e não me lembrei de nem uma, já andava mesmo desconfiado que o alemão me visitava, o tal Alzheimer com quem não quero intimidades. Precisava desesperadamente lembrar por que só podia ser uma celebridade. Muito respeitoso perguntei e afirmei, tudo ao mesmo tempo:

─ Sinto muito, não estou reconhecendo qual das Valérias… Aquela? Ou a outra?

Ele me olhou desalentado. Senti uma faca no peito, eu era mesmo um asno vestido, como podia ferir com minha ignorância alguém que devia estar sofrendo por um amor? Fosse lá de que tipo fosse este amor. O coitado voltou a chorar, desta vez ainda mais alto. Entrecortada por soluços eu ouvia a explicação:

─ Ninguém sabe quem é a Valéria, isso é desalentador. Como uma vida pode passar assim em branco? Quando eu morrer também não se lembrarão de mim? Não suporto esta ideia, não suporto esta mania que a vida tem de andar de braços dados com a morte. Prá que? Prá que isso? A Valéria… Pobre e querida Valéria.

Torci os miolos, não tinha a menor chance de sair bem da situação. Chorar… Não conseguiria fingir. Eu o feriria mais se desse um fora no reconhecimento da querida moça. Felizmente ele se pôs a contar.

            “Gosto de puta. Gosto mesmo. São carinhosas, só cobram o que foi combinado, não pedem para ir ao shopping, não atrapalham o futebol do domingo, não deixam rastros de limpeza pela casa. Fazem tudo que pedes sem ficar arranjando desculpas, não têm dor de cabeça e muito menos discutem a relação.”

            Eu concordava, era bem verdade o que ele estava dizendo, senti uma pontada de culpa por tê-las desprezado um pouco e ter resolvido que casada era bom. Resultou que dei com os burros n’água e gastei os tubos, além de ter que criar dois filhos durante meus melhores anos. Não que os amasse pouco, mas, pensando bem, é uma troca insana quando se percebe, como agora, que não pudera fazer muitas e muitas coisas por causa deles e teria que ir embora chupando o dedo. Na obrigação de achar muito bom eles conseguirem mais do que eu. Eles fariam, mas eu não tinha a menor chance de nada, deveria agradecer se o alemão não levasse embora até as lembranças do pouco que tive. Uma puta é consideravelmente boa vista deste ângulo. Ele continuou.

            ─ Meus amigos não entendem. Não sou um cara feio.

            Examinei-o pela primeira vez. Não era mesmo. Tinha olhos acinzentados, talvez fossem até azuis sem as lágrimas, um nariz reto que se poderia chamar de grego e a insustentável beleza dos maravilhosos 30 anos. Uma boa altura, qualquer mulher poderia se aninhar em seus braços e se sentir satisfeita.

            ─ Puta, igualmente às santas, merece homem bem apanhado. É o que eu acho. Porque deveriam andar sempre com uns pelegos velhos? Quem gosta de puta de verdade, como eu, respeita o trabalho duro que elas têm, sabem que muito homem é nojento e maltrata. Acabam ficando amigos delas. Não tem amiga mais fiel do que amiga puta. Não falam mal de ti por que sabem quanto dói ser difamado, não inventam desculpas para escapar de ti por que sempre és bem-vindo. Enfim, tive muitas amigas. O melhor é não virem com a história de que não se trepa com amiga. Puta trepa com amigo numa boa  e até acha melhor, sabe com quem está. Passam a te beijar na boca, coisa que não dão para qualquer um. Te tornas uma espécie de escolhido, de ser especial.

            Eu estava bem interessado na explanação, quem sabe puta gosta de velho e tem paciência. Seria bom relembrar como é ter uma mulher, mesmo que fosse puta. Já estava convencido da útil feminilidade das meninas.

            ─ É preciso entrar no mundo delas e nunca arrepiei de fazer isso. É um universo multicolorido, cabe todo tipo de gente dentro dele, o mais legal é que não estão preocupados com aparência, verniz social e estas coisas que fazem as pessoas se tornarem hipócritas. Foi assim que conheci os travestis que circulam nos arredores das putas. Troca de freguesia, uma questão de negócio, nada pessoal. Tem alguns insuportáveis, mas não por serem gays, mas por ser gente de má índole. Nunca confunda as coisas: quem é bom, é bom de qualquer lado do campo. O inverso é verdadeiro, seja lorde ou vagabundo é abjeto do mesmo jeito se vem de raiz torta.

            Estava aprendendo o que não tinha aprendido a vida toda. Deu um arrepio maior do que eu estava acostumado quando olhava minha vida. Este homem chorando pela Valéria que devia ser puta, é claro, me mostrava que minha passagem rápida por este mundo doido, tinha sido pobre, mais pobre do que o pobre que eu achava dela. Era bom e melancólico aprender, se tivesse sido uns dez anos atrás ainda daria tempo de dar uma guinada no timão, mas agora… Era outra mágoa para arrastar.

            ─ Foi assim que simpatizei com a Valéria logo de cara, entendes? A gente percebe uma alma pura trazendo luz para a Terra. Se sente dentro do peito.

            Agora eu entendia tudo, até o que nem remotamente me passara pela divagação. Parei de lamentar as perdas, era uma maneira de usufruir vivendo de ouvido. Na minha imaginação cenas de submundo, nem tão sub assim, aprendia, desfilavam envoltas em todas as cenas que assistira em filmes, lera nos jornais e espiara na noite. Nada era o que me diziam ou enfiavam na minha mente sobre este mundo. Ele era feito de gente pelo jeito bem mais honesta do que as conhecidas por mim. Tinha visto tanta sacanagem envolta em sorriso! Se neste desvão atropelado por impropérios existia roubo, ou fraude, elas eram parte do negócio e não uma traição deliberada. Eu poderia sonhar que existia uma fatia de humanidade mais parecida com a que se deseja que haja. Gente emocionalmente decente.

            ─ Agora vem essa notícia que a Valéria foi esfaqueada por um desgraçado lá na praia de Copacabana.

            Estranhei. Então isso tudo era no Rio de Janeiro?

            ─ Moraste por lá, amigo?

            ─ Não, nunca estive no Rio. Qualquer hora dessas eu vou, quero ver de perto o lugar onde o sangue da Valéria avermelhou a areia branca.

            Realmente o quadro era terrível. A areia pura, quase brilhante… O sangue saindo em cascata por buracos do corpo de Valéria. O desgraçado fugindo, com certeza encapuzado. As marcas dos saltos ainda marcando o chão mole. Os olhos abertos surpreendidos pela avalanche da violência. Policiais que não deviam ter investigado o suficiente por que afinal era apenas um homossexual doente de luxúria esparramado na praia. Só restava chorar a dor dos mal paridos.

            ─ Ela estava toda linda, sabia se maquiar a Valéria. Tinha posto o vestido rosa pink e arrumado o cabelo daquele jeito que fica preso só de um lado. E não era peruca não, era de verdade. Essa vantagem temos hoje em dia, os pobres travestis podem deixar o cabelo crescer quanto quiserem. E o batom! O batom era demais, exatamente da cor do vestido.

            Meu companheiro sabia demais. O que interessa à observação de um homem uma coerência entre batom e vestido? Fiquei com um pé atrás. Seria ele mesmo gay? E se fosse? Que raio de preconceito enraizado dentro da gente! Fiquei com raiva de mim mesmo por ter permitido tal reação vinda sei lá de que fogo do inferno através das palavras de quem eu nem conhecia, mas que queimavam minha recente descoberta. Não sei se ele percebeu ou foi casualidade, mas explicou:

            ─ A gente aprende a observar e sabe que é bom? Adquire-se uma acuidade estética que ajuda muito a entender a beleza de uma mulher, por que travesti é uma mulher que errou de corpo, apenas isso e muitas vezes mais feminina do que várias que eu conheço que não se entregam nunca, ficam se digladiando com a gente em nome de uma estúpida concorrência de sexo. Com isso ficam sem sexo gostoso algum.

            Olhei o relógio, há algum tempo já deveria estar em casa me preparando para a chegada da noite, não tinha mais o hábito de me atrasar, qualquer vacilo poderia por a perder a disciplina que o médico jurara, prolongaria minha miserável vida. Mas me afastar do sujeito ainda descomposto? Não tinha coragem, ele me dera tanto.

            ─ Tomei uma decisão. ─ Ele se levantou num salto. ─ A morte da Valéria me abriu os olhos. Vou me casar.

            Eu não podia acreditar no que dizia, acabara de me convencer que viver livre e aberto era o máximo e agora vinha com essa de casar?

            ─ Relutei bastante, a Sarita é puta, mas não vou ligar mesmo. Somos namorados há três anos e há dois não aceita dinheiro de mim. Namorado não paga e sou fiel, assim como ela. Não transo com mais ninguém, nem ela, apenas trabalha, é diferente, é o comércio que ela conseguiu abrir. Se fosse uma loja todos bateriam palmas e elogiariam.

Pensei que era muito justo e casar com puta deveria ser bem melhor do que casar com moça de família, até por que as diferenças entre uma e outra não eram lá tão grandes assim. Conhecia muita casada que corneava o marido e não se mandava só para ficar no bem bom de ser sustentada. E puta trabalha firme, com pausa só três ou quatro dias por mês, não tem salário fixo, nem férias, muito menos 13º. Não é para qualquer um.

Esse amigo de rua era mesmo um estrondo, sua sabedoria e jogo de cintura com a vida me deixavam embasbacado. Talvez, se pintasse o cabelo, desse um trato na cara, eu conseguisse conquistar uma puta jeitosa como a dele. Não seria nada mal um casamento de primeira categoria agora que os sinos da véspera batiam à minha porta. Chegaria lá em cima, na frente do tal de deus que não tinha me mostrado essas possibilidades e teria o que agradecer em vez de dizer que era um cretino me aprontando uma vidinha de merda.

─ Não te convido para padrinho por que a turma vai achar ruim trazer amigo recente quando tem tantos que acompanham meu romance desde o princípio, mas te deixo meu telefone, quero que vás ao casamento. Pelo menos na igreja. A Sarita sonha com vestido de noiva e ela tem a alma mais pura que conheço.

Aceitei prontamente, não podia perder este cara de vista. Também estava contente, tinha parado de chorar e uma energia nova e luminosa me garantiu que os olhos eram mesmo azuis.

─ Amigo, irei com prazer. Será que as colegas da Sarita vão ao casamento? Antes que me esqueça. A Valéria, fiquei sabendo tudo, menos tua história com ela. Como a conheceste e tal…

─ Valéria? Ah, ela é personagem do livro que terminei de ler. Que autor! O livro se desenvolve em torno da morte trágica da moça e não revela quem a matou. Não dá uma pena danada?

                                                        Vana Comissoli

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5 respostas para O choro é livre (Vana Comissoli)

  1. inacio.carreiga@gmail.com disse:

    Caríssima,
    num mesmo texto consegues fazer apologia à homossexualidade (ou transsexualidade, como quero acreditar que o texto indique), prostituição, casamento, afinidades e literatura. Levando-nos aos meandros de um universo almodovariano, ficas – e nos deixas – entre o ser e o não ser, existencialismo contemporâneo… Dizer o quê? Eu, que sou “macaco de auditório de primeira fila”, só posso dizer OBRIGADO!
    Grande abraço.

  2. Querido,
    só queria dizer que nunca se limite às aparências e muito menos aos conceitos preconceituosos por que por baixo da fantasia, somos todos iguais.
    O livro citado é “Berenice Procura” de Luis Alfredo Garcia-Roza, ele sim te leva a viajar tanto que se faz um conto desses. hehehe
    Obrigada pela tua linda leitura.

    • gostei da descrição benevolente sobre as prostitutas. são desprezadas pela sociedade (hipócrita) mas mostrem-me os homens q já não as procuraram, mesmo que em sonhos.

      • O mais gozado, ou triste, ou sarcástico é que elas são como as drogas: só existem por que têm quem as queira.
        E homem, na cama, quando está com uma mulher que os satisfaça, gostam de mimoseá-las com esse título.
        Hipocrisia é pouco!

      • Tiago disse:

        Na veia!

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