Cobaias (Fernando Bastos)

Lá pelos meus sete ou oito anos comecei a suspeitar que as pessoas a minha volta participavam de um grande jogo contra mim,  e todas faziam parte de uma trapaça, a fim de me enganar a respeito das coisas, que todas sabiam exatamente o que eu pensava.

Até de meus pais e irmãos eu guardava calculadas reservas, pois não tinha muita certeza de que eram meus pais e irmãos, mas seres de outro planeta ou algo parecido. Eu pensava que estava sendo vigiado 24 horas por dia, e que até na privacidade do banheiro, de porta fechada, fazendo minhas necessidades, alguém me observava, e contaria tudo para minha mãe, ou aquela que parecia ser minha mãe.

Essa sensação de estar num Big Brother de George Orwell, que eu só leria décadas depois, se prolongou até perto dos treze anos, quando aos poucos fui me convencendo de que essa história de imaginar uma conspiração contra mim não passava de fantasias da minha cabeça, ninguém, claro, poderia entrar em meus pensamentos e saber seu conteúdo, as pessoas eram tão reais quanto eu, sentiam dor, frio, calor, ficavam alegres e tristes, e, quando cometiam atos reprováveis, ficavam também com aquela sensação de coração dolorido, respiração ofegante e frio na barriga, que vim a saber mais tarde era provocada pela ansiedade e angústia.

Outra descoberta importante naquela época foi saber que outros meninos eram parecidos comigo, e tive certeza disso nas conversas com colegas entre uma aula e outra, assim que minha timidez permitiu, ao ouvir um garoto em tom professoral dizer que aquele líquido branco que saía do pênis era porra; dias depois aprendi o nome certo para a gosma, era sêmen, conforme ensinou um professor de Educação Física taradinho,  que em um dia de chuva, o pátio molhado impossibilitando a ginástica, resolveu explicar para meninos e meninas concentrados em sala de aula, os mistérios do corpo humano, e lá pelas tantas, disse que nessa idade era comum os peitos das meninas crescerem e aparecer pelos na xoxota, e só o fato dele mencionar essa palavra já foi motivo para todos me encararem, tamanha era minha fama de santo, incapaz de proferir palavrão, mas a gota d´água foi  quando ele disse que é normal o menino ir de vez em quando ao banheiro tocar uma punheta, eu quis me esconder debaixo da carteira, e se tivesse um buraco no chão da sala, eu teria me jogado para não voltar mais por um bom tempo, tanta era a vergonha que senti diante dos rostos com sorrisos de deboche que se voltavam para me observar, pois minha ignorância nesses assuntos e fama de inocente, eu diria hoje, de idiota, eram de conhecimento público. Não sabia para onde olhar, meu rosto ficou quente como brasa e devia estar mais vermelho que um morango maduro. As meninas mais atiradas, sempre que queriam me ver corado de vergonha, esperavam o recreio, sentavam ao meu lado na carteira de dois lugares comuns na década de 60, e, com a cara mais santa do mundo, encostavam a coxa nua, mal coberta pela saia de uniforme azul marinho plissada contra minha perna, sob pretexto de tirar alguma dúvida sobre uma matéria qualquer, pois eu era o gênio, o garoto prodígio, como a Marta, uma morena esguia e de belos cabelos negros um dia asseverou.

À medida que eu crescia na proporção da minha curiosidade intelectual, enredei saudáveis amizades com Freud, Nietzsche, Bertrand Russell, Jean Paul Sartre e outros do gênero, de modo que comecei a entender que meus entraves em questões sexuais eram frutos da minha educação agressivamente religiosa, onde escutava sempre que fazia algo indecoroso para os adultos, o famoso “Não faz isso que Deus castiga”.

Ler aquele escol de gênios teve um efeito devastador sobre meu espírito supersticioso, amedrontado e influenciável, pois deixei de ter medo das três piores coisas que mais me apavoravam: a primeira, de mulher – agora era eu quem procurava me encoxar; segundo, de sexo, quando aos 23 anos fui para a cama pela primeira vez com uma mulher – não faz mal que era uma prostituta, e nem tão formosa como eu desejava, precisei da ajuda dela para separar a banha extra das rotundas coxas e achar o caminho, mas pelo menos fez-me sentir um homem de verdade – percebi que sexo não era aquela coisa repugnante que me fizeram pensar, nem tão complicado, era só relaxar, gozar e ser feliz; e terceiro, de Deus, pois com as luzes que entraram pela janela da minha obscurecida mente, expulsei todos os demônios e explicações metafísicas para as incertezas que giravam ao redor do meu ser como gemebundos fantasmas.

O estranho é que, durante minha escalada para o cume da montanha, quanto mais eu subia, e via a paisagem se distanciar, e as pessoas ficarem quase tão pequeninas quanto formigas, uma estranha sensação se apossou de meu ser, uma espécie de déjà vu, mas agora de efeito contrário, pois não achava que as pessoas mantinham um conluio contra mim; eu havia percebido que elas é que viviam um falso mundo, manipuladas por uma ideia obsessiva, surreal, improvável e absurda; em última análise, elas eram como autômatos, comandadas por gente esperta que dizia o que elas deviam fazer, o que vestir, comer, e no que acreditar. Na minha escalada, encontrei muitos outros que haviam superado essa fase de cegueira mental, e quanto mais eram beneficiados com o ar puro da montanha, mais subiam e se enriqueciam com esse clima novo.

Hoje, perto de fazer 58 anos, continuo a subir a grande montanha, posto que a jornada para o conhecimento só termina com a morte, e a cada passo, consigo compreender um pouco mais porque a maioria das pessoas prefere ficar na planície, feito cordeiros ruminando as palavras trazidas pelo vento dos ancestrais, e acreditando no que seus condutores pregam. É mais confortável acreditar do que raciocinar, consome-se menos energia, e os poupa de dores e questionamentos.

Outro dia, no silêncio de meu apartamento de um quarto, cercado das minhas únicas companhias, um gato e um papagaio, lembrava do tempo em que imaginava viver em um mundo onde eu era uma espécie de cobaia e todos a minha volta eram os pesquisadores; hoje reflito e vejo que as cobaias somos todos nós, presos num imenso laboratório, repetindo comportamentos e ladainhas milenares, na mais das vezes nocivos para a saúde geral, mas encarados como a única verdade num mundo possível. E isso me apavora. Pois sei que poucos levantarão as cabeças do transe em que se encontram, e observarão para fora de suas gaiolas.

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4 respostas para Cobaias (Fernando Bastos)

  1. inacio.carreiga@gmail.com disse:

    Espero que esse personagem encontre a compreensão, o conhecimento, antes de chegar ao topo da Grande Montanha… Como ensina o Tao, o caminho se faz no caminhar… Parabéns pela oportunidade de reflexão… Abraços.

  2. Tenho que dizer infelizmente por que é triste que assim seja, mas concordo contigo. Talvez sejamos bem mais robóticos do que diz nossas vãs filosofias.
    Subir a montanha é preciso, parece que ela termina nas nuvens e eu não sei o que tem prá lá das nuvens, A dificuldade de enfrentar este caminho é, que a medida em que andamos, estamos cada vez mais sozinhos e nem todos suportam este novo conceito de vida: não precisas estar pendurado em alguém o tempo todo.
    Abç

    • Tiago disse:

      Mudando de assunto, sempre que leio algo sobre subir a montanha, recordo de uma canção de Nei Lisboa, onde o personagem sobe ao alto da montanha para esquecer seu grande amor e na volta encontra-a no dia do casamento… Termina com a frase: nunca mais subi na montanha… http://letras.mus.br/nei-lisboa/436884/

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