Paz e amor (Inacio Carreira)

 Tendo mandado à multidão que se assentasse sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, deu graças e, partindo os pães, entregou-os aos discípulos, e os discípulos entregaram-nos à multidão.

Mateus 14:19

 Este é seu sonho de consumo: multiplicar pães e peixes. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede. Ainda que não pense em termos bíblicos, mas reais, humanos. Movido pela compaixão, às vezes ele era mal interpretado. Pagar um prato de comida àquela mulher com cara de fome? Comprar um sanduíche para o jovem que, aparentemente drogado, pedia dinheiro e dizia estar com larica?

Não, ele não vivia para os outros, embrenhava-se no trabalho e amealhava alguma reserva financeira. Que, sozinho, não lhe servia de muita coisa. Não era dado a festas, bebidas, mulheres. Prezava a família, a amizade, o calor humano. Via nas pessoas como Madre Teresa de Calcutá, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela – e tantas outras – exemplos a serem seguidos. Lista à qual, recentemente, juntara o nome de Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal, relator do julgamento do chamado Mensalão, apontado nas redes sociais como futuro presidente do Brasil (embora assolado por dores crônicas na região lombar, o ministro não se deixava abater e continuava sua sanha de Cavaleiro da Justiça. Solitário, infelizmente).

Embora não desprezasse, que isto não fazia o seu feitio, era contra os apresentadores de televisão, elevados ao patamar de deuses, ou semideuses, ainda mais quando usavam do prestígio para doar utensílios e gêneros, bens e serviços aos menos favorecidos pela sorte, tendo como troco a permanência nos programas dominicais, ou em outros horários nobres. Alguns se aventuravam a cargos políticos, às vezes com sucesso na votação, mas, com evidente insucesso na vida pública…

Também os jogadores de futebol e outras modalidades… Embora no século 21, a plebe praticava costumes que remontam à Grécia Clássica e suas Olimpíadas, quando os vencedores ganhavam, em praça pública, estátua e culto. Sim, semideuses. Os nossos são diferentes? Alguns desses (poucos, ainda bem) extrapolam esses poderes e vão até a atribuição da morte, seja por acidentes de trânsito, armas de fogo ou outros instrumentos!

Inspirado por tantos movimentos pró e contra tudo, tanta sede de verdade, tanta busca de compensação financeira por danos sofridos, armou-se de coragem e, vestindo branco da cabeça aos pés saiu caminhando no meio da avenida principal de sua cidade, de porte médio, trânsito privilegiando os apaniguados e seus importados… A cena remetia ao filme Forrest Gump, o Contador de Histórias. Lembram? Foi juntando gente, gente…

Se os primeiros sentiam-se ameaçados pelos veículos, a multidão ocupou todo o espaço da via pública, a massa caminhava e perguntava-se o porquê daquilo, quem era aquela figura alva, as pessoas queriam saber o que fazia aquela figura branca caminhando contra a corrente de trânsito (que agora se colocava à margem da pista), buzinas chamando a atenção para tentar tirá-lo do caminho. Não podiam deixá-lo sozinho: pensavam ser um protesto contra o uso abusivo da mata ciliar, a invasão de escorpiões em Varginha (que antes fora famosa pela invasão de ETs – eita cidade mais invadida), a falta de delegacias especiais para mulheres, para crianças, para idosos, para portadores de necessidades especiais, para pessoas com síndrome de pânico…

Era bonito de ver tanta união. Não foi isso que Gandhi fez, na Índia, com sua Resistência Pacífica contra a dominação inglesa, em 1947? Martin Luther King, com seu famoso discurso I have a dream, contra a discriminação racial, em Washington D.C., em 1963? Embora Nelson Mandela contrarie os dois exemplos, sendo braço forte na luta armada contra o apartheid, na África do Sul, presidiu essa nação de 1994 a 1999, não sem antes receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1993.

Dividir pães e peixes. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede. Ainda que não pensasse em termos bíblicos, mas reais, humanos. Movido pela compaixão, às vezes ele era mal interpretado. Este é seu sonho de consumo: assim como tantos outros, ele tem um sonho. Ver o mundo todo de mãos dadas, saber-se parte de uma congregação de irmãos, sentar na relva para comer pão e peixe, dividir a água, saborear o ar da manhã, a brisa do final do dia, a alegria de sentir-se vivo após mais uma jornada. Vivo e produtivo, produtivo e participante… tentando fazer história, querendo mudar a história.

 “…somos todos iguais, braços dados ou não” foi o que martelou em sua mente quando, percebendo um ardor no peito, olhou e viu o sangue tingindo sua roupa, sentiu sua vida esvaindo-se, chocou-se contra a aridez do asfalto.

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6 respostas para Paz e amor (Inacio Carreira)

  1. Tiago disse:

    Seu texto me fez lembrar uma canção da minha adolescência: http://letras.mus.br/ira/46411/

    Um “baita” texto mestre. Humor afiadíssimo e ironia na dose certa.
    Gostei muito.

    • Inacio Carreira disse:

      Obrigado pelo “baita” texto… Por minha vez, gostei muito da canção que indicaste, eu não conhecia… Belíssima… Sim, pareceria a propósito dessa canção se eu a conhecesse, coisa que infelizmente não acontecia… Obrigado pela dica. Abraços.

      • o triste nessa história (para os que como o protagonista, almejam um mundo pacífico e mais amoroso) é constatar q na verdade, o mundo dispara pro outro lado, o de guerras, ódios, intolerâncias, desrespeitos aos direitos humanos, censuras à lberdade de expressão…nao sou pessimista mas nao vejo q esse quadro mude tão cedo.

  2. O mais triste mesmo é saber que esta busca se resume quase que só aos ilusionistas e filósofos, bem longe do todo dia das ruas e do que deveriam ser lares.
    Em resumo: o homem continua pensando muito e fazendo nada.
    Aqui no sul se resumiria:
    “É brabo nada de poncho contra a correnteza.”
    Beijo, Inácio, como sempre com o coração nas mãos.

  3. Caco disse:

    É preciso ser otimista e não calar-se,a internet é um ótimo meio de divulgar os pensamentos de paz, amor , alegria, barriguinha cheia,” ensinar a pescar”. Quem é do bem precisa insistir e lutar sempre, e é maioria, mas precisa tomar o poder. (Inácio você é o cara)

  4. Patricia disse:

    Raul já dizi “Sonho que se sonha junto é realidade”.
    Que Este mundo que você, eu e outros poucos sonhamos passe a existir mais perto a cada dia, pois o mais importante é fazermos a nossa parte!
    Belo texto Inácio, como sempre!
    Abração

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