“Causos” de vovós (Vana Comissoli)

vovó           

         Depois do AVC, todo mundo a tratava como se daí a 2 minutos ela fosse se esfarelar deixando na cadeira apenas um pozinho parecido com pó de cupim: nunca se vê o bicho, mas se sabe que está por perto. Isso a incomodava uma barbaridade. Era bonito ver como os netos e bisnetos viam vê-la cheios de olhos doces e lembrancinhas compradas no “ligeirão”, entre uma aula e um namorico, mas a chateava também. Não tinha sido sua intenção sobreviver ao piripaque do coração.Só em lembrar da mãe anos a fio em cima de uma cama, já tirava toda a graça de viver, aquilo não foi viver, foi se tornar um peso do cão, por mais amor que houvesse. Reconhecia galhardamente: Velho cansa os jovens, ou meio jovens, que precisam saborear a vida antes de se sentarem ad eternum numa cadeira de rodas que lhe deixava a bunda quadrada.

          Só sentia alguma alegria verdadeira quando a neta emprestada vinha visita-la e a animava com histórias sem nenhuma descrição de doenças e cuidados. Era já entrada nos 40 anos e não tinha freios na língua. Sabia fazer rir e, por algumas poucas horas, Vovó Matilde deixava de sentir o impedimento do corpo.

           Dorotéia também apreciava suas histórias dos tempos de casada com um homem de fora da cidadezinha. Vindo da capital grande, cheio de malícia e picardia nada tinha dos pudores enraizados da gente da roça que ainda era a massa do povo da cidade, mentalidade pequena e cheia de preconceitos, onde alguns assuntos a gente não fala em público. Os tabus eram o sexo, a sacanagem de algum filho, a bebedeira escondida e a surra que algum marido deu na mulher por razão nenhuma, ou a mais escusa de todas..

            O marido de vovó chegara ali sem eira nem beira, desconhecido total, de olhos negros no mar de olhos azuis que compunham o local, cabelos mais escuros ainda e crespos. De longe aparecia em meio às cabeleiras que iam do muito loiro ao um pouco menos. Pior, não entendia uma palavra de alemão que, embora no Brasil, era a linguagem corrente dessas bandas. Mas era alegre, fanfarrão mesmo e conquistou a todos com sua fala alta, seus gestos largos e um palavrão sempre na ponta da língua. É bem certo que as mulheres o olhavam de soslaio, entre risinhos nervosos de quem quer tocar, mas não pode. Os homens o aceitaram por pura inveja, quem sabe estando perto poderiam aprender um pouco de laço solto.

            Damastor foi se fazendo na cidade, trouxera conhecimento de marcenaria e logo era dono da única fábrica de móveis do local. Era exímio artesão do estilo chipandelle, coisa de moda lá das décadas 40, 50 do século passado.

            A história dele nunca ninguém soube ao certo, mas vovó confidenciava que tinha deixado mulher e um bando de filhos lá na São Paulo. Enjoara da esposa miudeira que só sabia reclamar e exigir exclusividade, coisa que não era de seu agrado Saíra um dia para comprar cigarros e se perdera no mundão até chegar nesta quase vila incrustrada nas terras do sul. Voltaria apenas 15 anos depois, mas isso é outro “causo”.

            Enrabichou-se pelos olhos de cristal de Matilde, com seu corpão de colona, fartos seios e cabeleira que mais parecia o penacho dourado do trigo. Para facilitar as coisas, ela, a contra marcha de seu tempo, tinha casado e se separado, era quase uma mulher sem honra, no mexerico das vizinhas, embora nenhum dedo pudesse se levantar em acusação da vida simples, metódica e embaixo da asa da mãe que ela levava.

            A via passar na rua, em direção ao armazém, ou a feirinha dos colonos: a saia rodada e florida rodando no vento frio, as faces avermelhadas pelo Minuano sem compaixão.

            Foi ficando tão encanzinado que logo deu um jeito de fazer amizade com o irmão dela e mais rápido ainda se sentava ao lado do fogão à lenha onde a chapa assava pinhões recém-colhidos. Aconchego que só o povo da serra conhece na intimidade e sabe a deliciosa ternura quente que contém.

            Damastor esticava o olho para a moça que nem sequer parecia enxerga-lo. Tentava tocar sua mão na hora de pegar uma rapadura, ou fatia de bolo do preto estendido por ela. Numa dessas derramou a travessa toda de pipoca doce e caiu na risada enquanto os demais ficavam paralisados. Comida fora é pecado.

            Fez a corte como nunca, até que com a ajuda do irmão de Matilde, dobrou-a e se casaram.Na verdade foram morar juntos, uma vez que não havia divórcio e ele era casadinho da silva.

            Tão logo a paixão aplacada, o velho Damastor apareceu e logo outros rabos de saia o interessaram. Matilde conhecia a vida, essas coisas acontecem e nem se deu ao trabalho de reclamar. Além do que isso não o impedia de comparecer. E como comparecia!

            ─ Eu não sabia o que era realmente sexo até conhecê-lo. Para mim e o que me contavam as amigas era uma coisa sem graça que quando estava começando a ficar bom, acabava. Os machos gozavam e a gente ficava ali, se retorcendo. É a sina, o dever da mulher e a gente tolerava. Mas Damastor não. Era safado, passava a mão nos seios e até nas partes da gente. Levantava labaredas e, mesmo sabendo que era um sem vergonha, não dava para abrir mão. A vida foi indo assim. Eu sabia e não sabia. Estava resolvida a questão.

            Aconteceu de um dia não poder mais fazer de conta. O desgraçado, toda tarde depois do almoço, esperava o marido de minha vizinha de quintal sair para o trabalho e se enfiava na cama dela. Nós éramos amigas, eu sabia que ela devia estar satisfeita como nunca antes, não me importava de repartir.

            Um dia, o marido, acho que desconfiado de tanto que a mulher se agitava depois do almoço, de tanto que cantarolava no final a tarde como nunca havia feito, voltou num repente, mal tinha passado 15 minutos.

         Damastor ouviu a chave na porta, se escafedeu pela janela, se enfiando no quarto, trancado á chave. Dei-me por conta do que acontecia quando ouvi o griteiro lá fora, tiro pro ar e o Matias prometendo vingança fatal enquanto a mulher, aos prantos, negava tudo embora com a cabeleira desgrenhada e abotoando a blusa esgarçada.

            Matias se vingou. Damastor trouxera um chapéu de feltro inglês, todo chique, era a única coisa que prestava quando chegou nestas bandas. Seu grande orgulho.

            O vizinho chegou no meio da rua, deu mais uns tiros e gritou bem alto:

            ─ Quero ver tu vir buscar o filho da puta do chapéu, seu negro filho da puta! ─ alar filho da puta em voz alta era crime consagrado.

            E jogou o chapéu que ficara sobre a mesa na pressa da saída de escape, em cima do poste da esquina.

            ─ Se tu vier buscar, desgraçado, eu tô de olho e te furo à bala. ─ Apelou para o gaudério. ─ Índio cabotino! ─ Pior ofensa. Além de traíra, era gentinha da terra.

            Foi uma vingança exemplar ─ continuou Matilde ─ Damastor não tinha coragem de tirar o chapéu de lá e todos os dias o via a balançar ,cai não cai, e nunca caindo. Acho que levou mais de ano para a chuva e o sol esturricarem o coitado e ele se sumir. Antes disso ficou russo e desbeiçado.

           Doroteia riu de se torcer. Não contou para vovó, mas era bem o que gostaria de ter acontecido com seu próprio marido com sua mania de achar tudo que é mulher que se atravessasse, uma coitadinha que precisava salvar. Essa desmascarada, ela não faria com o sobrinho preferido da vovó, ele poderia ser achincalhado, mas ela não merecia a desilusão. Se vingou por tabela.

         Veio o chá com bolinhos fritos, a noite caindo devagarinho, mas a conversa parecia nunca cansar Matilde, pelo contrário, a revigorava e contava as histórias como quem faz crochê: um ponto enlaçando o outro.

     Doroteia também não se cansava.Com vovó aprendia a ter paciência, entender o marido, lamentar um pouco em voz alta sua angústia de traída, fazendo de conta que era compaixão pela vida de vovó enquanto essa ria a bom rir e de tudo tirava partido para viver sentada na cadeira de rodas.

           ─ Então o bom foi a cama vovó? Devia ser uma coisa muito inusitada.

            ─ Se foi! Eu contava para as amigas e elas ficavam babando. Os homens daqui era só vir por cima, corcovear e cair fora. Dava até pena por que todos morreriam virgens de prazer: machos e fêmeas. Tu sabes que até me comer por trás ele queria? Mas eu não deixei, tinha ouvido dizer que doia.

     ─ Mesmo, vovó? Pois foi uma pena, se a gente relaxar não dói nada e tem um prazer danado. Não doce para todo dia, mas de vez em quando a gente come e se lambuza.

        ─ Não me diz uma coisa dessas agora que o Damastor já morreu! Se a gente tivesse conversado antes… Ele não me escapava e não seria essa cadeira a machucar meu traseiro, mas uma boa saudades de meu homem.

       ─ Vovó!!!!

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4 respostas para “Causos” de vovós (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Depois de ler mais de 90 páginas de um original da Vana, ler este conto (?) só confirma o que já disse: essa prenda escreve bem demais… Obrigado por compartilhar conosco. Grande abraço.

  2. Hehehe, mas farei as correções pq esta prenda não vive sem teus pitacos! bj

  3. Tiago disse:

    Gostei.
    Alto teor de qualidade literária…
    “Pra variar” né? rs

  4. Se queremos escrever temos que nos “puxar”.
    Se a ideia for muito minguada melhor deixar na gaveta.

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