Torcedor Camaleão (Ítalo Puccini)

            Aprendi a torcer por um time por influência de meu pai e de meu avô. Por dois times, na verdade. Pelo Flamengo e pelo Caxias, este de Joinville, Bicampeão Estadual em 1954/55. Time campeão no qual meu avô, Vilmar Puccini, foi goleiro por dez anos. Eu e pai até escrevemos livro contando a vida vitoriosa do vô (84 anos recém-completados), no futebol e no trabalho de longos anos na Tigre S/A – publicamos “A trajetória de Puccini” em março de 2009 –, afinal, naquela época jogador de futebol também trabalhava ‘normalmente’ 8 horas por dia em uma empresa. Treinos eram artigos de luxo. Não existia essa mordomia de hoje, em que os jogadores treinam a semana inteira para errar o mais elementar dos passes durante o jogo. Enfim.
            São dois modos diferentes de torcer. O Flamengo joga todo ano, o ano todo. Tem mídia excessiva e qualquer espirro vira epidemia. Já o Caxias não joga todo ano, muito menos o ano todo, quando joga. Tem pouca mídia na cidade de Joinville, e nem um caso de Gripe A acho que faz virar notícia. O Flamengo eu pouco assisto ao vivo. Mas estive no jogo mais importante dos últimos anos para o clube, a final do Brasileirão de 2009, no Maracanã: o jogo do hexa. Já o Caxias, quase sempre que joga, eu assisto no Ernestão. Dois estádios muito diferentes. Dois times muito diferentes. O torcer, da mesma forma, diferente.
            O fato é que gosto muito de estar em uma arquibancada acompanhando um jogo. Agrada-me tanto que este ano, morando em Joinville, tornei-me sócio do Joinville Esporte Clube para acompanhar os jogos da Série B ‘in loco’. Não tenho apreço nenhum pelo JEC, assim como não tenho desgosto. Aproveito o lugar do time na segunda divisão para ver de perto times rodados do país. E para sentir novamente o que é estar em um estádio. Baita sensação!
            E não há nada mais gostoso do que não torcer para nenhum dos dois times aos quais você está assistindo. E ainda por cima observar as reações dos torcedores – estes, sim – apaixonados pelo clube da cidade. Uma diversão e tanto. Sem contar as ‘peças’ com as quais você se depara numa arquibancada: o velhinho sem dentes – mas que consegue como poucos gritar, a favor ou contra; a criança com menos de dez anos que já sabe a escalação do time e reconhece cada jogador; o senhor com o fone nos ouvidos, que a cada cinco minutos informa o tempo do jogo a quem está por perto; e o tio da bebida, que berra em alto e bom som “cerveja só pra mim. Quem quer água e refri?”. E eu sou bom nisso de interpretar, futebolisticamente falando: sei falar bem do time “Tá jogando bonito hoje, hein? Que orgulho!”, assim como sei xingar com propriedade “Que time de bosta mesmo! Levanta daí, seu vadio!”. Ainda recebo abraços entusiasmados no momento de um gol, nos dias de ‘casa cheia’.
            Aprendi, nisso de torcer, a gostar de times que buscam o ataque, que criam oportunidades de gol, que envolvem o torcedor na esperança do grito de gol. Torço sempre por jogos em que os times se predisponham a isso. Sou muito camaleão. (Aliás, quem não é? Isso de secar o rival torna qualquer torcedor muito camaleão. Troca de camisa de time semanalmente. Mas não admite). Eu torço pra saírem muitos gols, dos dois lados, sendo bastante discreto, é claro. Aprendi também que a coisa mais importante numa partida de futebol é o gol. Tanto que é declarado vencedor o time que mais vezes faz gol, não importando o desempenho em si dentro de campo. Infelizmente, o futebol ainda permite a um time abdicar do ataque e, ainda assim, vencer com um ‘gol espírita’, um contra-ataque, uma única chance em 90 minutos. Questão de oportunismo. O mundo é oportunista, etcetal. Não sei se um dia me acostumarei com isto. Até lá, permanecerei no meu método: torcer um pouco pr’um time, um pouco pr’outro.
 
ítalo. (também publicada aqui).
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