Herança da guerreira Tonha (Elianete Vieira)

Antonia nasceu em 18/01/1917 na cidade de Jacutinga/MG, mas foi registrada em 25/02, algo muito comum naquela época para os moradores do campo. Somente quando alguém da família ia até a cidade fazer alguma compra ou cumprir outra obrigação, os bebês recém-nascidos eram registrados. Nestes eventos, erros de registros ocorriam, pois nem sempre era o próprio pai que registrava seu filho e isso gerava até troca de sobrenomes, algo que contarei noutro dia. Antonia cresceu na roça, na enxada desde muito pequena, pois não fazia a menor ideia do que seria ler ou escrever. Assim como seus irmãos e primos, que também não sabiam. Eles brincavam até terem força para pegar na enxada e ajudar os pais na lavoura. Seus pais lavradores, deram aos seus filhos a melhor criação do mundo: honestos e muito trabalhadores, venceram na vida com as armas que tinham: braços fortes para o trabalho.Aos 13 anos, sua mãe morreu no parto do 7º filho e seu pai foi embora. Antonia então se viu sozinha para criar seus irmãos mais novos, incluindo uma irmã de três anos.

Conheceu seu prí­ncipe ainda criança. Viviam na mesma fazenda onde os pais de ambos trabalhavam. Cresceram e brincaram juntos. Brasilino, filho de italianos, não chegou num cavalo branco, mas juntos lutaram muito para mudar o rumo da vida, sempre em busca de melhoria para eles e os filhos.

Na roça nasceram, na roça se casaram, na roça criaram os filhos quando ainda pequenos. Tunica, como era chamada, contava que havia carpido pés de café até o final da luz do dia, naquele 25/09, caminhado quilômetros de volta para casa, e pouco depois de chegar, começou a sentir as dores do parto, nascendo uma bonequinha a quem batizou de “Erza”, que só descobriu que seu nome de fato era Elza, em seu 1º dia de aula, aos sete anos.

Nascida e criada no mato, analfabeta e convivendo com lavradores italianos, possivelmente analfabetos também, Antonia não sabia a grafia e pronuncia correta de algumas palavras, nem sabia ela que falava italiano misturado ao português.

Mas uma coisa ela sempre teve forte dentro de si: – meus filhos estudarão e serão mais do que fui. – E assim fez. Quando chegou o momento dos filhos, cinco, estudarem, ela arrumou a mudança para a cidade, Espirito Santo do Pinhal, arranjou emprego na Votorantim e colocou os filhos na escola. De lavradora passou a operária, rapidamente aprendendo o novo ofício. Trabalhou até os 42 anos quando seu 6º filho, uma menina, nasceu morta.

Os filhos mais velhos dividiam o tempo entre a escola e a fábrica. A Elza, sua 4a filha, com 10 anos era a “dona de casa”. Limpava, lavava e cozinhava para todos. Subia num caixote para alcançar a pia e fogão. Mas dava conta do recado. O irmão caçula teve mais sorte, pois teve mais tempo para brincar e estudar. Mas era mais rebelde e fugia da escola para brincar.

E assim, Antonia, analfabeta continuou, mas viu seus filhos aprenderem a ler e a escrever. Eles se diplomaram na 4a série primária, como era chamada na época essa primeira fase escolar. Mas ela já se sentia vencedora. Havia dado para seus filhos mais do que havia recebido de seus pais. Filhos operários e “com leitura”.

Os 5 se casaram. Deram-lhe 17 netos que puderam estudar antes de começar a trabalhar. Com orgulho vó Tonha, como os netos a chamavam, viu suas primeiras netas se formarem na faculdade. Viu algumas netas se casarem. Viu os primeiros bisnetos nascerem.

Seu orgulho e realização eram gigantescos, porque sua meta havia sido superada pelos filhos que herdaram sua força e honestidade para o trabalho e multiplicaram seus feitos, dando-lhe mais conforto e estudos para seus filhos.

Tonha dizia aos filhos: 
– Eu não tive nada. O pouco que lhes dei é muito para mim. Vocês tem que dar o dobro para os filhos de vocês. E eles o dobro também para os filhos deles. Sempre o dobro.

Quando uma neta foi trabalhar no estrangeiro, ela estava doente e chegou a ser internada. Ela dizia ao médico e aos enfermeiros que ela precisava viver para ver a neta chegar do estrangeiro e contar sobre a neve que ela não fazia ideia de como seria.

A neta ao chegar dos EUA após passar o mês de janeiro em treinamento em pleno inverno de Boston, foi visitá-la com dezenas de fotos e muitas histórias, além de um filme. Nos dias 13 e 14 ela ouviu atentamente as histórias, olhou e comentou cada foto, com olhinhos brilhando de felicidade e admiração, pela neta que mais uma vez a tinha feito superar mais um limite com sua viagem ao “estrangeiro”, como ela dizia.

Ao despedir da neta no final da tarde de domingo, a neta lhe disse que ia trabalhar em Curitiba mas voltaria no sábado para vê-la. Ela respondeu informando que aquela seria a última despedida, pois ela estava partindo e não estaria ali no próximo final de semana. E ela estava certa. No dia seguinte, 15/02/1993, Antonia durante o banho disse para a filha: – “Erza estou partindo.” – Tombou sua cabeça e dormiu para sempre.

Elianete Vieira
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3 respostas para Herança da guerreira Tonha (Elianete Vieira)

  1. Tiago disse:

    Uma bela homenagem. Todos nós temos os nossos heróis. É sempre bom lembrarmos deles as vezes.
    Abs.

  2. Inacio Carreira disse:

    Eu pensei ser, este, um blog literário… Mas, enfim…

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