Sonho Impossível?

Sonho Impossível
Chico Buarque

Sonhar mais um sonho impossível

 Mergulhei em teu olhar sabendo que me iludiria com a droga mais ardida e tóxica que poderia encontrar. Aquela a que ninguém resiste e que nos leva sempre a voltar a usar com uma inconsequência infantil e irresponsável. Impossível medir consequências diante dela, mesmo que tragédias possam ser geradas, seu poder de sedução é irracional e de mega amplitude.

Amores não dão certo, nem sequer existem de verdade, ainda na volúpia da paixão, as brigas acontecem e os fechamentos emocionais batem a porta na tua cara inexoravelmente. Amores não passam de necessidades psíquicas.

O sonho imperturbável retorna a cada nova decepção, a cada novo encontro desencontrado. Eu sabia disso e jurava estar vacinada, sorrindo meio irônica da busca desenfreada que motiva as pessoas a procurarem o “par perfeito”. Comigo não! Isso jamais voltaria a acontecer, eu deixara este vício há muito tempo, junto com outros não tão nefastos quanto este.

No entanto lá estava eu fascinada pelo movimento de tuas mãos, pelo modo como teus olhos colavam nos meus e sentindo os malditos hormônios batendo palmas no ventre. Não que tivesse decidido ser freira, apenas respondia às necessidades de meu corpo, nada de sentimento, emoção, olhos nos olhos. Isso é para os incautos e não para uma atenta como eu.

Lutar quando é fácil ceder

 Poderia ter me levantado com uma desculpa qualquer carregada de ênfase em que todos acreditariam e dando um jeito de nunca mais te ver. Nada mais fácil de executar, afinal nem sequer amigos comuns tínhamos, nos encontrarmos tinha sido uma coincidência fortuita de fim de festa.

Eu sentia teu cheiro como cão sente odor de cio e sabia que uma delícia incompreensível tomaria conta de meus sentidos como se não soubesse qual o resultado final e repetitivo: cada um saindo um pouco mais magoado, um pouco mais descrente deste tal de amor da Carochinha. Já me ferira vezes o suficiente para não querer mais, descobrira que viver sozinha tinha uma paz que outra presença não me permitiria.

Ainda tentei me agarrar na disponibilidade plena de meu tempo, falta de obrigação com a fome de alguém, meu filme favorito rodando sem ter que discutir quem poderia escolher nesta noite e tantas outras maravilhas de não possuir ramo algum, apenas meu próprio tronco ereto rumo ao céu.

Nada adiantou, quando dei por mim estávamos trocando números de telefones, tinha cedido como uma virgenzinha de 15 anos influenciáveis.

Vencer o inimigo invencível

 A última coisa lúcida que me lembro de ter pensado foi: Lá vou eu de novo!

O tal amor tem olhos mornos coalhados de açúcar cristalizado. Perfume de todos os deliciosos sabores da vida e cores diante das quais até o arco-íris esmaece. Tem, principalmente, braços e boca que envolvem e comem como um morango maduro.

O certo é nem entrar na paranoia e vencer os neurônios fissurados por uma descarga extra de adrenalina especial. Eu poderia derrubá-lo, tinha certeza, já passara por momentos semelhantes e saíra ilesa sacudindo as tranças. Este inimigo só é forte quando o enfeitamos com rendas, na verdade não passa de um falso brilhante, zircônio de segunda fabricado na linha de montagem de uma psique carente.

Percebi que a peça teatral estava um pouco mais carregada de holofotes e resolvi pagar para ver, assim que provasse minha tese infalível voltaria para casa-peito só minha. Foi desse jeito que manipulei a mim.

Negar quando a regra é vender

 Todo mundo se vende por um punhado de ilusões mil vezes desfeitas e a vida é muito mais desenlaces trágicos ou suportados das relações amorosas do que de “foram felizes para sempre”.

Nunca se é feliz para sempre, haveria outra paixão vagabunda qualquer para levar o tal olhar para longe, ou um embaraço psíquico, momento de transformação pessoal, surto psicótico dos diabos guardados na mente insana que temos e, as vozes, antes apaixonadas, se digladiariam em tons acusatórios e terminais.

Como se consegue emburrecer tão rápido, eu nunca entendi. Esquecer aprendizados duramente adquiridos e se deixar levar pelo beiço rumo ao matadouro com um sorriso de bobo da corte. Ao fundo o mugido de bois de corte.

Me vendi, me entreguei sem teres feito esforço algum. O mais risível era saber que, se tu raciocinasses, saberias que também te vendias. Terias os mesmos pensamentos razoáveis voando pela cabeça e se perdendo no aperto de um abraço, no desejo de saciar a boca. Ambos vendidos por um punhado de carícias, de tolas palavras doces, jurando que estavam comprando ouro em pó e sabendo que se tratava de pirita.

Seguimos o sonho da boiada.

Sofrer a tortura implacável

 Estava me propondo a sofrer pelos teus olhos, teu corpo, mentindo que era por tua alma e por ti e que poderia suportar qualquer coisa. Mentindo deslavadamente para mim mesma, revendo sem querer, as dezenas de filmes pornográficos sobre amor incorruptível.

Mas se não te tivesse eu me roeria e me ameaçaria de morte por não ter tentado. E se desse certo¿ Se afinal o amor existisse, fosse apenas uma questão de tempo e de chegar a pessoa certa, o Outro da minha vida…

Talvez fosse mais fácil deixar tudo preso num momento passageiro e depois de alguns ou muitos anos lembrar-me de ti pensando no que não vivi, no que não sofri, no que jamais saberia. Seria apenas um breve lamento cheio de se…

As situações não resolvidas que se acumulam na caixa de ossos que carregamos dentro da mente, do corpo, do espírito. Temi este peso e acreditei que, tortura por tortura, melhor aquela que eu vivesse pelo menos a terapia posterior seria mais rápida e um terapeuta babaca não ficaria desenterrando meu pobre pai que, a rigor, não tinha nada com isso além do fato de ter dado um espermatozoide para que outra maluca atrás de amor nascesse e tivesse onde por a culpa. Como se não fosse uma busca ancestral. Acho que ao nascer não se deveria chorar, se deveria gritar: Amor, cheguei!

Romper a incabível prisão

 Fosse qual fosse a escolha, eu teria algum punhado de dor à minha inteira disposição. Ou imaginando moinhos de vento sem vento, ou me descabelando para conseguir me segurar nas pás de teus braços.

Tantas coisas pensadas num átimo de tempo, apenas agora que relembro este hiato entre o sim e o não, compreendo que toda minha vida deslizava dentro de mim. Os anos que me aprisionara numa racionalidade que me tornava confortável. Podia rir e sacudir a cabeleira sem me preocupar com o vento desmanchando, mas vazia de mim e de todo sentimento que negava para não sofrer. Eu não sofria nada e também não podia dizer que me felicitava. Um tranquilo deslizar de dias de sol morno que não aquecia. Dias onde as cores intensas não brilhavam nas pétalas que feneceriam e voltariam a ser nada. Como o amor¿

Meus pulsos atados por injunções de perfeição, contos de fadas ouvidos convictamente demais e ordens religiosas inventadas por quem nunca se casou, romperam as amarras e ousei enfrentar os olhos de galhofa dos meus amigos sobre o meu pragmatismo abandonado.

Eu te escolhi.


Voar num limite improvável tocar o inacessível chão

 Todos os impossíveis se reuniram em dias que escorregavam de um para o outro sobre as descobertas feitas surpreendentemente.

Olhava a escova de dentes esperando ao lado da minha e sabia que logo poderia me incomodar, os pingos de pasta na pia me chateariam, assim como os copos espalhados pela casa e o banheiro rezingaria com os respingos de teu banho. Tantas outras chatices eu descobriria! E tu me chamarias de boba por ser miudeira e ririas de alguma mania infantil, ou adulta demais. Ririas da minha preferência absurda pela caneca com desenhos de peixinhos e tomarias café nela apenas para implicar. Eu te odiaria solenemente.

Essas coisas ainda não tinham aparecido, deixei para depois, quando o sonho se esboroasse. Enquanto isso resolvemos viver todos os desdobramentos de uma paixão, fazendo de conta que era destino e realizamos todas as loucuras que nosso desejo criou.

Não me lembrava de como podia gargalhar, ou talvez nunca tivesse dado risadas escandalosas como as que dava ao teu lado pelas coisas mais banais. Não era o acontecimento que fazia rir a mim e a ti, mas a felicidade sem rubor que escolhêramos. O motivo é apenas uma justificativa para expormos o que está acontecendo no mundo impalpável, levemente compreensível de nossos sentimentos.

Cotidiano e excepcional se mesclavam como sorvete de chocolate e baunilha, cada um com seu saber único, mais suave ou mais marcante, não fazia diferença para o prazer de degustar. Eu enjoaria, me preparava para isso, não era marinheiro de primeira viagem e a última, só se faz sozinho. Essa era a realidade, a dura terra onde pisaria quando descesse das nuvens.

Havia poeira, cansaço, sono, fome, como em qualquer outra situação, mas… Eu já teria sentido alguma delas¿ Passara por elas, não prestara muita atenção, afinal eram banalidades e algumas difíceis, me neguei a senti-las e descobri a delícia de dormir sem precisar me preocupar se te satisfizera ou não. Bastava para ti que eu estivesse ao lado e para mim bastava saber que te bastaria. E bastar é pouco demais para dizer o quanto é muito.


É minha lei, é minha questão virar esse mundo cravar esse chão

 Depois de certo tempo indefinido nos meus registros, aprofundamos a besteira, resolvemos que sim, o Amor descrito e cantado em prosa e verso, surgira para nós com todas as músicas melosas, filmes românticos e superações jamais confirmadas. Resolvemos juntar os trapos, desmanchar as barreiras pessoais e viver sob o mesmo teto, tive direito a ser carregada no colo e a uma noite frente à lareira como a melhor cena idílica possível de ser criada.

Algumas canecas de peixinho foram quebradas, alguns jornais foram rasgados antes de serem lidos, palavras cruéis voaram na arena do quarto e enfiei mil farpas embaixo das minhas e das tuas unhas. Ainda assim estávamos completamente idiotizados pelo Amor e cravamos no chão da vida três novas vidas.

Por que eu me perguntava a cada parto. Por que trago mais gente para vagar em busca do inencontrável é a pergunta que não cala através dos ossos, músculos e presença, acima de tudo presença, de meus filhos.


Não me importa saber se é terrível demais

 É batalha todo dia e, às vezes dá uma vontade danada de mandar tudo longe e buscar por mim, por que, às vezes eu nem sei quem sou. Tenho vários nomes agora e muitos sentimentos que se entrechocam, viram guerra, chegam à beira do tapa na cara que me faz tanta falta.

Roo os dentes e bato com a cabeça na parede e posso enlouquecer: quebrar alguns pratos, jogar o resto do miserável leite derramado em parte, pela cozinha toda. Posso me esconder num canto e me desesperar, jogar praga contra a vida que eu não vivi, me chamar de idiota e serviçal. Posso lutar por mim com unhas e dentes e ferir todo mundo à minha volta e faço isso com imenso esforço.

Roo meus próprios ossos e te vejo roendo os teus. Tuas noites insones, tua busca numa responsabilidade que não te permite sonhar.

Vejo tuas costas na cama de encontro às minhas e sei o quanto eu não conheço mais tua linguagem e tenho certeza que erramos, jogamos a vida fora, nos amarramos numa ilusão de  filhotes ali ao lado, sorrindo para nós e não podemos sair da prisão.

Grito, de vez em quando, a casa vazia de vocês. Urro, feito bicho, tão mais sábios que nós, compreendem que a aproximação é cópula, mais nada. Logo me recomponho e sirvo a mesa onde comes ruminando. Eu e tu, nos odiando na vida que criamos, esquecidos do sonho impossível que nos reuniu.

 

E amanhã, se esse chão que eu beijei for meu leito e perdão vou saber que valeu delirar
e morrer de paixão

 Agora estou aqui sentada e tenho muitos anos. Penso em todos os enganos, nas nossas absurdas raivas. Revejo teus olhos cansados e, no fundo deles o mesmo convite insano: vem me amar.

Para os filmes, os poetas, os artistas do absurdo, não te amei devidamente. Não fui maravilhosa e fêmea todos os dias e tu não foste o pai recolhedor de minhas dores e, às vezes, nem amante foste. Aquele que desperta a tigresa em mim. Esculhambaste meu ego e acabei com o teu. Choramos abraçados e, a cada abraço desesperado, nos amamos muito mais do que supúnhamos.

Agora, que o tempo permitiu que nos tornássemos amigos, nós mal e mal compreendemos, mas olhamos o que saiu dessa batalha e, sem saber coisa alguma, entendemos que…

Nos damos as mãos.


E assim, seja lá como for vai ter fim a infinita aflição e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão

 A última palavra que te direi, quando for hora de partir, será:

− Te amo, não importa o quanto foi torto.

E, se fores o primeiro a fazer a grande viagem, pegarás minha mão e me dirás:

− Te amo, não importa o quanto foi torto.

Mesmo que não partilhemos mais os dias e a cama, mesmo que haja mil centenas de quilômetros entre nós diremos do amor que temos.

E assim, seja lá como for, terá fim a terrível aflição e o mundo continuará buscando.

Vana Comissoli

                                                        

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2 respostas para Sonho Impossível?

  1. Inacio Carreira disse:

    Chico Buarque, Maria Bethania e Vana Comissoli…
    “− Te amo, não importa o quanto foi torto” é só o que podemos dizer ao final deste requintado texto… Mais uma vez, e sempre, parabéns, Vaníssima (tenho a impressão que já escrevi isto, pois sempre, ou quase, gosto muito do que escreves).
    Abraços

  2. Sônia Pillon disse:

    Cruelmente verdadeiro em cada palavra, em cada estágio dessa eterna procura, que nos conduz à extrema alegria e à extrema dor… Visceral. Sublime!

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