Ensaio sobre a monogamia (Fernando Bastos)

Em uma canção havia o emblemático verso: “Eu troco a liberdade pelo teu perdão”. A música era melosa, pegajosa como quiabo, sem graça. Um dia prestei atenção na letra e notei que ela, apesar da pobreza das rimas e versos, continha um conhecido drama existencial, a eterna dúvida entre ser livre ou se prender em alguém. Fiquei pensando que talvez as pessoas casem por não suportarem o peso da liberdade e o medo da solidão, e no final de contas, preferem ficar presas a uma pessoa do que viver livres como um pássaro. Sartre chega a dizer que “O homem é condenado a ser livre”.

Penso que talvez o casamento, tal qual o conhecemos, contrato entre duas pessoas para que sejam fiéis uma a outra, seja uma espécie de prisão. O cantor quando diz que troca a liberdade pelo perdão da mulher amada, dá a entender que ao lado dela, deixará de ter liberdade. E muitas vezes é isso mesmo que acontece. Ao casar, ambos assumem um compromisso de exclusividade sexual e amorosa no qual a liberdade não tem vez. E sem liberdade, não há felicidade.

Em matéria do jornal Estadão de São Paulo, de 4 de dezembro de 2008, somos informados que no Brasil, para cada quatro casamentos, um termina em divórcio. Matéria da revista Veja de 11 de agosto de 1999, revela que “Nos Estados Unidos, 60% dos casamentos acabam em divórcio. Na Inglaterra, são 40%.

A tragédia podia ser pior se não existissem os obstáculos que dificultam a separação; aí caríssimos, o número de divórcios seria bem maior, podem apostar. Considerem que o divórcio se traduz em pensão para filhos, dividir o patrimônio se o casamento foi em regime de comunhão de bens, sem falar nos transtornos psicológicos causados pela separação.

Para os técnicos do IBGE, uma das causas para as altas taxas de divórcio é a mudança de comportamento das pessoas, que aceitam o divórcio com mais naturalidade. O humorista diria que a causa do divorcio é o casamento.

A verdade é que muitos homens e mulheres ainda praticam uma “monogamia social”, como dizem os cientistas, isto é, para a comunidade se apresentam como monógamos, mas ocultamente são polígamos, encontrando às escondidas parceiros para o sexo, sem o consentimento do parceiro.

Não creio, como aventam alguns especialistas, que a solução esteja no casamento aberto – cada um pode sair por aí transando com quem quiser. O ser humano ainda carrega o gene do ciúme, e poucos suportariam ver o cônjuge nos braços de um terceiro. De modo que um novo formato deveria ser experimentado: a “monogamia aberta”. Fui ao Google para ver se já existia essa expressão e encontrei só um resultado.

Alguns praticantes da monogamia aberta moram em casas separadas e eventualmente passam alguns dias da semana juntos na mesma casa. Na monogamia aberta, não há restrição para cada um viajar, passar férias, sair à noite em festas e baladas de vez em quando sozinhos, sem a presença do parceiro. E não há proibição para se ter amigos de ambos os sexos, onde possam se frequentar, tudo no maior respeito e confiança, sem a inclusão de sexo, claro.

Naturalmente, tanto para um relacionamento aberto (onde não existe exclusividade sexual) quanto para uma monogamia aberta (onde existe a exclusividade sexual) dar certo, o casal precisa ser emocionalmente maduro, confiar plenamente um no outro, e ter controle muito forte sobre o ciúme. E isso, poucos conseguem. Portanto, a monogamia aberta não é para qualquer um.

De modo que assim como muitos autores preveem uma mudança nos relacionamentos do futuro, onde as pessoas se distanciarão cada vez mais do casamento fechado, creio que a monogamia aberta, como foi exposta resumidamente, é a que mais terá chances de se firmar e fazer felizes os envolvidos. O que não quer dizer que o casamento aberto, o sexo a três, o suingue, o poliamor e todo tipo de casamento em que não se exija exclusividade sexual não possam também fazer os participantes felizes. Tudo vai depender da maturidade e da vontade de cada um dos envolvidos em proporcionar prazer e alegria ao outro, sem deixar-se sucumbir pelo ciúme.

Alguns especialistas reputam que daqui há umas duas ou três gerações, as pessoas terão mais de um parceiro amoroso, um para momentos românticos, um para conversas intelectuais, um para dividir as responsabilidades domésticas, um só para sexo, e assim por diante (a bem da verdade, tais formas de se relacionar já existem, sobretudo em grandes centros, mas ainda são casos esporádicos). Como será que esse morador do futuro vai olhar o casamento de seus antepassados, formado por duas pessoas, vivendo sob o mesmo teto, dormindo na mesma cama todo dia, numa união com tantas proibições, tediosa, cheia de brigas e sem muitos atrativos? Possivelmente com um olhar de espanto e pena. Muita pena.

 

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8 respostas para Ensaio sobre a monogamia (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    Caro Fernando,
    tua afirmação que “Alguns especialistas reputam que daqui há umas duas ou três gerações, as pessoas terão mais de um parceiro amoroso, um para momentos românticos, um para conversas intelectuais, um para dividir as responsabilidades domésticas, um só para sexo, e assim por diante (a bem da verdade, tais formas de se relacionar já existem, sobretudo em grandes centros, mas ainda são casos esporádicos)” já era praticada, no mínimo, pelos gregos. Como diz o Livro, “nada de novo sob o sol”… Abraços.

  2. Tiago disse:

    Tenho um amigo historiador que defende a teoria de que em todas as sociedades em que a relativização moral e o fim da família convencional ocorreu, não demorou muito para que o fim delas ocorresse. Cita como exemplo os gregos e os romanos.

    Eu não estudei a fundo tais sociedades, então não tenho uma opinião válida quanto a isso.
    Mas em relação ao tema do ensaio, creio que a monogamia ainda é a maioria, mas percebe-se claramente uma tendência em relação ao seu desaparecimento. Se isso vai ocorrer ou não é outra história. O bicho homem é sempre imprevisível!

    • o que penso, e ja acontece, (pelo menos entre as camadas com melhor nivel de instrução) é que os laços que apertam o casamento ficarão mais frouxos, de modoque como disse no texto, homem e mulher poderão fazer coisas q hoje a sociedade reprime, por exemplo, uma pessoa casada (homem ou mulher) ir a uma balada, passar alguns dias de ferias e vistitar um amigo do sexo oposto sozinho, sem que haja sexo no meio. isso acredito em vez de prejudicar o casamento, da novo fôlego, pois evita a rotina. como diz Gaiarsa, “Nada mais longe da felicidade do que o convívio muito frequente, obrigatório e exclusivo, este gera tédio e logo depois a agressão”

  3. Inácio, sim, os antigos gregos eram liberais no casamento, mas até onde sei, raros eram os homens que permitiam a mesma liberdade pra suas mulheres. Aristoteles dizia q a função da mulher era gerar prole, e ficar dentro de casa. mesmo nas camadas mais altas, a mulher que saísse mto longe da sombra do marido, podia ser castigada ou até morta.

  4. A complexidade sesse assunto mal foi abordada até agora. A verdade que antes de compreendermos o tal do amor e sua brevidade, que estamos ligados por nossas necessidades psíquicas (leia Francesco Alberoni – quem fala com menos hipocrisia sobre o tema), não encontraremos saída. Tenho amigos que estão juntos há 8 anos em casas diferentes, o único tempo + longo juntos, é em férias internacionais, ou seja sem rotina alguma. ficam juntos nos finais de semana e até moram em cidades diferentes. Confissão ele: até assim às vezes cansa. E são fiéis. Portanto: o casamento que não funciona, ou nós que não fomos feitos para casar?
    Acredito que relação tem tempo de validade, está na hora de aceitarmos.

  5. fernando disse:

    Vana outro livro bom é O mito da monogamia. mas vou procurar esse q tu indicaste

  6. E eu procurarei o que tu indicaste. Bj

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