Esse cara…é o Christian Grey (Marcelo Lamas)

50tonsc

O primeiro chegou comentando: “Ela só fica lendo aquele livro. Eu posso sair pra fazer qualquer coisa que ela não ‘dá falta’ de mim”. Eu tinha lido uma nota sobre o fenômeno editorial da trilogia “Cinquenta tons de cinza”, logo que o primeiro livro de sucesso da inglesa, E.L. James, chegou ao Brasil, classificado como pornô soft, erótico, entre outros.
Certa feita, num curso para escritores, uma colega perguntou para a professora:
– Qual a diferença entre livro erótico e pornô?
A tiazinha PhD respondeu:
– Filha, o livro erótico você lê segurando-o com as duas mãos. O pornô com uma só.
Vi mulheres lendo no aeroporto, no shopping e na biblioteca, logo, consegui classificar os 50 tons.
Fui procurado incontáveis vezes pela gurizada. Sendo o “amigo escritor”, eu tinha obrigação moral, no inconsciente deles, de ter informações confiáveis e, até, exclusivas sobre os livros. E eu gosto de opinar – sobre qualquer assunto – na informalidade, depois do futebol, lá no boteco, na hora do almoço. Pra não decepcionar, fui atrás das leitoras vorazes e elas foram unânimes em dizer que os homens também deveriam ler. Li opiniões em revistas dos dois gêneros. Fucei nos livros.
Quem está fazendo o mundo girar ao contrário é o protagonista, Christian Grey, que seduz uma virgem estudante. Ele jovem, empresário, rico, tem e pilota um helicóptero, gasta três horas nas preliminares (descritas em três páginas), gosta de ficar conversando depois do sexo e deu-lhe todos os presentes possíveis e, ainda, a convenceu a assinar um contrato como “submissa”. Uma grande ficção.
Mas o que interessa é que as pessoas estão lendo e, também, que a nossa classe masculina não poderá ser acusada friamente de ser pervertida só porque estes assuntos são – ou eram – mais frequentes nas nossas conversas, afinal nossos temas são mais restritos (sem bolsas, manicures, vestidos balonês organização da casa, ou qualidade do serviço da diarista).
A partir desta revolução estaremos mais livres para propor coisas diferentes e as nossas parceiras não ficarão preocupadas com o que vamos pensar sobre o conhecimento delas acerca das propostas. O importante é que tudo valha para os dois lados: as sugestões, os consentimentos e os prazeres.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

Anúncios
Esse post foi publicado em Prosa e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Esse cara…é o Christian Grey (Marcelo Lamas)

  1. mto bom teu texto. minha mulher leu os tres em duas semanas e nesse período eu só conseguia falar com ela qdo ela estava no chuveiro.

  2. Interessante sua abordagem sobre o tema.
    Eu ouvi maridos preocupados com o interesse de suas esposas em ler o livro. Alguns chegaram a comprar para elas. Mas ainda estou esperando seus comentários pós-leitura rsrsrsrsrs (preciso perguntar para elas).
    Alguns críticos comentaram que vendem mais pela curiosidade e tema do que qualidade literária. Bom, eu não li, mas bem que eu gostaria de escrever um best-seller, só não creio que seja um livro, digamos, erótico rsrsrsrs
    Um livro que está vendendo muito é “Como levar um homem à loucura na cama” de Mauricio Sita, com 2 edições esgotadas em 30 dias. Será que o fato de ser literatura brasileira não merece ser destaque na mídia, onde os livros traduzidos são o foco?
    Mauricio escreveu ainda “Vida amorosa 100 monotonia, 100 maneiras de apimentar o relacionamento a 2.” Não é trilogia. Seria esse motivo dos livros estrangeiros fazerem mais sucesso? O fato do leitor ler, gostar, e saber que virão outros livros no mesmo tema (erótico ou não)?
    Me desculpa se prolonguei no comentário, mas gostaria de saber sua opinião.
    Parabéns pela abordagem.
    Abraço, Elianete

    • Marcelo Lamas disse:

      Olá Elianete,

      Agradeço pelo seu comentário sobre a minha crônica Esse cara…é o Christian Grey.
      Eu concordo com você com relação a estratégia americana de ir soltando a história aos poucos. Esta é uma dúvida que eu tenho com relação aos “50 tons”, será que a autora escreveu tudo de uma só vez?
      Também acho que falta espaço na mídia para os autores brasileiros, somente agora falam na obra do Moacyr Scliar, ao ser plagiado e ter virado “As aventuras de Pi”. Abraço do Marcelo Lamas

  3. chuvazul disse:

    Sempre defendi a leitura pela leitura e pelo fato de haver pessoas lendo em momentos que não leriam, ele vale, mas ainda assim as falas a lá Edward e Bela, são do tipo romance de banca de jornal (as antigas Sabrina, Julia, Bianca – isso ainda existe?) que quem já “visitou” alguma vez, sabe que está recheada de frases melosas, recusas dolorosas, mocinhas inocentes tentando evitar contato fisico com homens dominadores que as deixam em fogo em um toque. E muitas cenas de “como um homem deveria ser na cama, não como o meu marido é comigo”. Ou seja, cinquenta tons de cinza nada tem novo realmente, mas é vendido com ideia nova do tipo ninguem fez antes, e as pessoas compram. E os homens? Porque os homens não “conseguem” ler? Acredito que minhas observaçôes já respondem isso, Se não, basta “navegar” com o livro no youtube…

    • Elianete disse:

      Olá. Sim, ainda existem nas bancas Sabrina, Bianca, Julia e algumas outras no gênero. Eu leio algumas ao longo do ano. Gostaria de ser escrever para essas series. 🙂

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s