Mulher Ideal (Vana Comissoli)

mulher ideal

A noite estava vazia e ainda assim eu caminhava entre os espasmos do sono. Procurava por que a insônia da busca não me permitia dormir. Atravessava as madrugadas implorando ao cansaço que me levasse embora.

Ela também caminhava. Somos bobos, quando alguém faz alguma coisa que fazemos, imaginamos que o objetivo é o mesmo, que buscamos as mesmas respostas. Ledo engano!Mas só fiquei sabendo disso depois. Acreditei que era um sinal dos deuses e que seria o encontro da minha vida.

Exatamente igual aos meus sonhos secretos e inconfessáveis, ela apareceria do nada, despida de todo conformismo e aceitação, mas me sujeitando um pouco a um aparente distanciamento de modo que eu a quisesse além do perturbador e definitivo primeiro olhar.

Paramos no mesmo sinal fechado e a noite vazia permitiu que eu sentisse seu cheiro que passou a ser todos os cheiros para mim e grudou na minha pele como tatuagem. Deixei que começasse a travessia à minha frente para poder reconhecer suas pernas que se não eram perfeitas, eu não vi. O balanço de seus quadris que lembravam uma cobra deslizando na água imersa em seu habitat, mentirosamente desatenda.

Não sei se choveu ou eu me acordei inteiramente suado quando o dia atrapalhou tudo e dormiu a noite em mim.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser caminhar pelas ruas desertas, com o vento uivando gemidos de prazer através de mim enquanto a buscava em outra esquina e esperando outro sinal vermelho.

Foram longos dias arrastados, sonhando, imaginando até meu mundo se esvaziar ainda mais do que estava, recém-saído de um casamento estéril e sem colorido algum. Essa era a mulher que me buscava enquanto eu a buscava também, sem sabermos que as vias estavam prestes a se cruzar para todo o sempre, costurava em meus pensamentos.

Afinal ela disse que não podia mais lutar contra o destino e que havia lido nas cartas, nos oráculos, nas vias biliares que deste destino não poderíamos fugir. Minha vida se encheu de todos os saborosos e jamais antes provados desatinos da paixão.

Não havia canto, ou esconderijo que não tivéssemos usado, nem posições que não tivéssemos experimentado, para me convencer definitivamente que estaríamos indissoluvelmente ligados para sempre.

Eu queria a paixão, a loucura da espera e o telefone sugando minha fala e audição sem parar. Descobria que, antes dela, eu não sabia exatamente o que desejava. Entreguei meu corpo, minha mente e todo meu ser, era minha jura de casamento fiel até para além da morte.

Ela correspondia em abraços escorregadios, em risadas de jogar a cabeça para trás, expondo o pescoço que me fazia desejar ser vampiro e transformá-la em escrava minha. Sanar a despudorada solidão, os gemidos noturnos e sombrios que haviam habitado sob meu teto.

Planos e planos foram tecidos pelas mãos dadas, pelos beijos que se enfiavam em minha boca sempre sedenta, e podia penetra-la me escondendo do mundo e de mim mesmo, mas jamais dela.

Poderia até mesmo compor versos que falassem as bobagens do amor e do vinho tinto sob o corpo batendo no copo e se derramando, quando a tive por sobre os pratos de comida cheia dos meus apetites infindáveis. Talvez se devesse ao fato de há muito tempo ter deixado de ser jovem e ter decidido que poderia sonhar a vinda da mulher ideal, caminhando lenta e suavemente para mim, seu único porto de chegada.

Foram duas semanas de plenitude e realização. Eu era eu e ela, isso me dava uma nova dimensão de mim mesmo. A unidade da junção secreta e prometida, afinal.

Quando ela se ausentava eu cheirava suas roupas e me embriagava de visões de nossos corpos rolando na grama alta e desajeitada, ou sobre o piso frio e úmido da cozinha. Corria ao telefone, que se tornou fiel escudeiro e dizia que se apressasse por que estava sufocando sem seu hálito para respirar. Ela apenas sorria e despejava mais sedução que eu bebia avidamente, sedento de insanidades.

Duas semanas…

Assim, como quem acha tudo muito natural, escudada em explicações metafísicas e outras muito racionais, ela virou as costas batendo a porta, enquanto eu urrava a minha dor seiscentas mil vezes aumentada. Ficou apenas um buraco parado e grudado na entrada que se transformara em saída.

Deixou para trás seus pedaços em panos coloridos e cremes com a maciez de sua pele.Acreditei que eram pedrinhas demarcadoras do caminho de mim e que voltaria quando a noite novamente a levasse a procurar.

Voltei a caminhar pelas madrugadas sem som e de tacões duros. Ali a tinha encontrado e voltaria a encontrar. Realmente aconteceu. De longe percebi seu perfume de fêmea e o meneio dos quadris de serpente. Corri, na certa estaria esperando abrir o sinal vermelho para atravessar a rua. Estava.Ao seu lado, com olhos desvairados de paixão havia um homem que jamais vira e que, com certeza não era eu. Saiu de braço com ele, de vez em quando se pendurando em seu pescoço e eu podia quase sentir o gosto de seu hálito fora do meu.

Ao meio dia, com o sol a pino me torrando os miolos quase fritos por pensamentos circulares, compreendi que definitivamente tinha encontrado a minha mulher ideal, por que sofrer e não ter era tudo que eu realmente desejava.

Contei os dias e os intermináveis minutos do meu desespero, fingindo que não a buscava e que não passava de uma vadia qualquer que caçava macho escondida na noite. O louco era eu idealizando coisas inverossímeis dentro de um corpo de mulher.

Ela entrou como se nunca tivesse saído e jurei que não a abraçaria e nem comeria de sua boca. Disse algumas grandes e figurativas verdades sobre os humores oscilantes dela e a xinguei de mil impropérios enquanto arrancava sua blusa e mergulhava em seu ventre famélico.

Mais duas semanas e a porta foi aperta para o recorte negro de seu corpo indo embora. Desta vez para sempre, jurei amaldiçoando meus sonhos realizados. Procurei todos os castigos e focos de tortura possíveis para me certificar que descobrira a verdade: eu não a amava, apenas buscava alguém que satisfizesse minha interminável vontade de sofrer e de me sentir miserável.

Uma mulher que não caminhasse como cobra, não cheirasse como fêmea de olhos fugidios e vacilantes, que ficasse ao meu lado todos os dias na comunhão rotineira do pão sobre a mesa jamais seria minha mulher ideal.

Aprendi que o ideal se toca com a ponta dos dedos e deixa de ser, quando se enconcha nas mãos. O ideal é aquilo que sempre foge, sempre corre e volta quando começamos a esquecer de sua face. Mas comigo não. Eu seria muito melhor e maior do que um sonho nascido na adolescência,que não pudera tocar nem com a ponta dos dedos no tempo certo de fazê-lo. Eu amadurecera neste cadinho de mulher. Eu estava curado.

Contei os dias e os miseráveis minutos para saber quanto faltaria para as próximas duas semanas.

Vana Comissoli

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Uma resposta para Mulher Ideal (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Ideal, ideal… Vana leva-nos a um desespero em busca desse apanágio, dessa figura amante-mãe, causa e efeito da loucura humana, expulsar e sugar, atrair e repelir, aconchegar e parir. Estamos sempre em paz durante os próximos quinze dias… Aleluia!!!

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