Crimes em nome da fé (Fernando Bastos)

Escrevo em jornais e blogs literários sobre vários assuntos, mas o que se destaca é Religião. Também publiquei um livro, chamado “Teofania”, que mostra as origens da crença no sobrenatural e seu desenvolvimento até os dias atuais. Desde então, tenho recebido muitas críticas favoráveis e, como não podia deixa de ser, algumas não muito educadas e alertas de que meu destino será arder no fogo do inferno.

Nunca procuro ofender a fé de ninguém; apoio que cada um creia em seu Deus da forma que lhe convém, contanto que não use sua fé para fins nocivos. Apenas questiono certas verdades e aponto para os problemas causados pela religião, que não são poucos.

O que me levou a escrever sobre religião foi a constatação de que, se por um lado ela traz benefícios – prega a solidariedade, traz consolo, esperança por dias melhores, etc. – por outro tem causado no curso dos séculos, dor, morte e sofrimento. O problema é que os dois livros religiosos mais importantes, Bíblia e Alcorão, embora contenham mensagens de amor e paz, também legitimam guerras, assassinatos e violência contra os que não se submetem à autoridade divina. Esses livros, nas mãos erradas, são pura dinamite.

Se as religiões somente ensinassem o amor, a caridade e o perdão, ninguém estaria escrevendo contra elas. Mas elas também ensinam a odiar e a matar. E é por isso que de umas décadas para cá, surgiram muitos autores alertando para os perigos da fé irracional e cega.

As maiores vítimas da doutrina religiosa são em primeiro lugar…

… As crianças. O menino judeu é submetido aos oito dias de idade à circuncisão, que é a retirada do prepúcio. Muitas vezes sem anestesia. Os médicos condenam essa prática, recomendada em raros casos. Em alguns países islâmicos, meninas a partir dos doze anos sofrem com a excisão dos órgãos genitais. Os lábios maiores são costurados para garantir a virgindade até o casamento ou têm o clitóris cortado, para que elas não venham a sentir prazer. O Alcorão não autoriza essa prática, mas pede que a mulher fique virgem até o casamento. Os religiosos se aproveitaram dessa recomendação, e inseriram esse costume tribal na sua cultura, pois viram nele um ótimo apoio para impedir as moças de terem relações antes de casar.

Segundo, as mulheres. Na cultura judaico-cristã, o controle de natalidade é proibido. Apenas o método da tabelinha é aprovado. Casais de classes mais humildes geram mais filhos do que poderiam sustentar, não porque desconhecem os métodos contraceptivos. Muitas vezes não têm acesso a eles, pois em muitas cidades, sobretudo do interior, os prefeitos evitam problemas com os sacerdotes e não distribuem para o povo as camisinhas e as pílulas. No Islã também é proibido o uso de contraceptivos. A saúde da mulher e seu desejo de ter menos filhos não são respeitados. Nessa cultura, em muitos países, ela não pode casar com quem ama, mas com o homem que os pais escolherem. Não pode sair à rua sem a presença de uma figura masculina ao lado, nem que seja um menino de cinco anos. Às vezes, é proibida de trabalhar e estudar, pois sua missão é casar bem cedo e gerar o maior número de filhos possíveis, de preferência meninos. O marido pode bater na esposa, com aval do Alcorão. E ele pode ter até quatro mulheres. As notícias mostram que elas são castigadas por andar sem o véu, ou mortas quando acusadas de adultério.

Terceiro, os homossexuais. Por causa de uma passagem bíblica, que pede a morte de homem que dormir com outro homem como se fosse mulher, a Igreja até hoje causa dor e constrangimento nas pessoas que seguem essa orientação sexual. Esse sentimento homofóbico acaba por ser internalizado na maioria das pessoas, mesmo as que não conhecem Levítico 20,13. Por conta disso, a cada dois dias no Brasil, um homossexual é morto por motivos de preconceito.

Cabem na lista dessas vítimas ainda os cientistas, que são prejudicados em suas pesquisas com células-tronco embrionárias; ateus e agnósticos, que são vistos com desconfiança pela falta de crença; os casais católicos que não têm permissão para se divorciarem; os filhos mortos porque os pais não permitiram a transfusão de sangue; os rapazes – futuros homens-bomba-, que vão tirar a vida de si mesmo e de inocentes, pois creem que serão recebidos por 72 virgens no céu; os dalit na Índia; etc. e etc.

As pessoas que defendem esses pensamentos e ações, dizem que tudo foi aprovado por Deus num livro chamado “sagrado”. Não foi. Deus nunca orientou escribas e sacerdotes do passado a escrever livros. Os maiores filósofos, arqueólogos, historiadores e cientistas desde o século 18, têm afirmado e provado que tais livros são produtos da mentalidade do povo que os escreveram, com suas ideologias, superstições e crendices. Usaram o nome de Deus para dar maior credibilidade àquelas ideias.

Essa notícia deve ser divulgada à exaustão, para que as pessoas parem de humilhar os outros, fazer guerras, causar mortes e sofrimento em nome de Deus.  Quanto mais pessoas conhecerem a história das religiões, como e por que foram criadas, mais aptas estarão para definir elas mesmas seu caminho, e assim, preparar um mundo melhor para se viver.

Esse post foi publicado em Prosa e marcado , , . Guardar link permanente.

11 respostas para Crimes em nome da fé (Fernando Bastos)

  1. Inacio Carreira disse:

    Mas, afinal, Deus existe ou não?

    • Caro Inácio, não sei. Mas os mais de três mil deuses conhecidos, são invenções humanas. Eis uma pequena lista: Antes do cristianismo: Shamash, Osíris, Zeus, Enlil, Marduc, Shiva, Gabesha, Javé (ou Jeová); pós cristianismo: Jesus (que existiu mas foi endeusado depois por seus discípulos, como o faziam os romanos com seus líderes) e Alá.

  2. desculpa, é Ganesha e não GaBesha

  3. Tiago disse:

    Eu prefiro acreditar que abaixo dessa enorme diversidade haja uma divindade, imarcescível, intangível.

    As religiões seriam o fruto imperfeito da busca humana por essa divindade. Por serem criações humanas acabariam gerando distorções que tanta dor e destruição trouxeram.

    Então Inácio, pra mim Deus existe. Eu só não sei quem é ele, nem o que de mim deseja. Se é que alguma coisa deseja…

    • Tiago, embora eu seja agnóstico – não tenho a certeza do ateu nem a do teísta – incentivo minha filha de 3 anos a rezar para o Anjinho da Guarda na hora de dormir. A oração tem mtos bons atributos, um deles, acalmar, confortar, dar paz. A fé num ser criador, transcendente, tb é importante, ja tive essa fé. Mas li demais e hoje to na dúvida.

      • Tiago disse:

        Eu andei desenvolvendo essa dúvida também. Descreio muito da roupagem que o divino recebeu da humanidade, mas ainda creio que Ele exista.

  4. Com certeza a Religião é cheia de equívocos, negrores, deturpações, uma vez criação humana e é confundida à exaustão, com Fé. Uma coisa nada tem a ver com a outra e Deus pode ter 6 bilhões de nomes, já que é mais ou menos o número de humanos neste planeta e sendo Ele também, quando com forma, uma criação humana.
    O inquestionável é que tudo que nos cerca, o Universo, tem um poder criativo incomensurável, capaz de criar mundos, sóis, vida e aqui terminam os questionamentos sobre perguntas irrespondíveis.
    Não impor religião = ponto positivo
    Impedir a fé = ponto negativo
    E voltamos à dicotomia que nos constrói.
    Fazer o melhor possível, ter fé na energia que, indubitavelmente está em tudo e dar liberdade de escolha. Que cada um tenha o deus que lhe convier de acordo com sua consciência e tamanho, já seria espetacular. Afinal, “há muitas moradas na casa de meu Pai”.

    • Pelo que tenho lido, e mesmo observado a minha volta, provavelmente a crença em Deus nunca deixará de existir, mesmo daqui ha 10 mil anos, caso cheguemos até lá. (ela traz mtas vantagens, consolo, e esperança de uma vida melhor, aqui e além túmulo por ex.); mas o número de pessoas que segue uma religião, certamente vai cair, como já acontece em alguns países da Europa. Muitos continuam a crer em Deus, mas sem pertencer a alguma doutrina. Outros, engrossam as fileiras do ateísmo e agnosticismo. Dois principais motivos: desilusão com o clero e nível de estudo mais elevado. Minha grande dúvida: o islamismo vai mesmo dominar o mundo daqui uns 50 anos e impor a sharia para todos ou o Islã também será invadido pela onda do Iluminismo tal qual na Europa do séc. 18?

  5. Charles Kiefer, grande escritor gaúcho com quem fiz oficina literária, é apaixonado por Nostradamus. O lê desde os 14 anos e, quando nos revelou isso, já lia em francês arcaico. Ufa! Segundo ele (não sei a validade disso apesar das evidências já acontecidas), uma grande guerra virá do Oriente Islâmico.
    Talvez daí venha o embate cristianismo x islamismo.
    A única coisa que podemos fazer é torcer pelo menos louco.
    Quanto à existência de Deus, seja que compreensão tenhamos, jamais morrerá. O bicho homem (comprovado) possui no cérebro uma região da fé, entendo que já esteja dentro de nossa formação física uma necessidade, ou realidade que nos remete a uma Energia Suprema que buscaremos enquanto nossa espécie existir.
    Abç

    • Vana, tenho esse temor tb, de que a doutrina do islã domine o mundo em breve. mtos especialistas dizem que em 2050, me parece, o islamismo terá mais adeptos que o cristianismo. já imaginou: meninas sendo mutiladas em seus órgaos genitais, mulheres apedrejadas, adeus sexo com prazer, biquinis e praia, adeus alegria pela vida. adeus liberdade de expressão e direitos humanos. o que me dá esperança, é que surgem alguns pensadores islâmicos que tentam reformar o islã, para que a sharia abandone as leis atrozes. uma pequena parte da população muçulmana – mais esclarecida – não concorda com a teocracia enfiada goela abaixo e clama para que o islã adote a democracia do ocidente. esperar pra ver.

  6. Não há dúvidas de que a CIÊNCIA, a INFORMAÇÃO, e a MUDANÇA são os demolidores das mitologias religiosas. Pois apesar da promessa de uma recompensa após a morte incentivar os ignorantes, os sofridos, ou os que têm uma vida cheia de privações, se agarrarem em alguma crença religiosa; a Fé religiosa não é uma virtude, mas sim, uma ingenuidade, onde o conhecimento se restringe a um único livro sagrado…

    Não há como impedir que o conhecimento se alastre pelo planeta, erodindo as mitologias medievais, que têm prejudicado a Evolução do Homem rumo a um futuro onde seremos o Universo se tornando consciente, e decidindo o destino da sua própria espécie, pois estamos caminhando para a CONSCIÊNCIA de como as coisas funcionam, e não serão “livros “sagrados” eivados de quimeras, de delírios, de fantasias, cheio de erros crassos, sem Lógica, ou sem Bom Senso, que deterão a ciência do futuro.

    http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=31436

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s