Mundo em equilíbrio (Marcelo Lamas)

Naquela época Jaraguá do Sul era uma cidade bem menor e as opções de educação eram restritas. Eu estudava engenharia elétrica e para isso, tinha que ir à noite para Blumenau.

A nossa turma foi a pioneira em utilizar uma van que nos levava direto ao campus tecnológico e tínhamos um super-motorista, o “Percebes”, que conhecia uns atalhos e que conseguia nos entregar na hora da prova, mesmo quando chovia.

Para participar da na nossa van o cara tinha que gostar de futebol, pois os nossos treinos iniciavam às 23h30min nas quintas. Também tinha que gostar de música, pois montamos um grupo: Os sobreviventes.

Cada um que graduava-se formava indicava um amigo que passava pelo crivo da galera.

Mas o ambiente na faculdade era inóspito. Havia pouquíssimas mulheres, o que nos fazia enxergá-las como princesas, sem exceção. Após um tempo, a Universidade resolveu transferir outros cursos, com maioria feminina. E aí a coisa ficou meio a meio.

Junto com o curso de moda veio uma loira jaraguaense. As antigas altezas torciam os narizes para ela. Mas vez por outra elogiavam a passada, o cabelo, as dimensões. Com cara de nojo, mas elogiavam. E a guria era bonita indo e vindo. As outras se referiam à loira como Suzana Werner, que na época namorava o Ronaldo Fenômeno: “Aquela Suzana Werner tá toda de azul hoje, vocês viram?”.

Eu conhecia a “Suzana” de vista, lá do bairro. Numa noite, no intervalo, ela me chamou:

– É você que organiza a van da engenharia, não é?

Dei uma engasgada, e respondi:

– Sou eu mesmo.

– Eu quero ir com vocês. Já liguei pra empresa, me disseram que tem alguém saindo. Não aguento mais aquele ônibus.

Bem, eu fiquei sem acreditar na hora. Mas enrolei, falei que ia confirmar se já não tinha alguém acertado e que conversava com ela depois. Na verdade eu tinha medo da reação de todos nós, ogros, com uma modelo na convivência diária. Ela tinha sido miss, com participação em concursos nacionais como o Garota de Ipanema.

Comentei com os meus colegas. Ameaçaram me matar caso ela tivesse desistido. Mandaram-me fechar um contrato com ela. Prometeram que iriam controlar as brigas no campeonato de “truco-móvel” e os palavrões, entre outros.

Passamos a ter uma rainha, além de futebol, bebidas e música ao vivo. A chamávamos de rainha, mais isso nunca lhe subiu à cabeça.

Depois a regra mudou. Cada vez que saia um engenheiro, entrava uma beldade. O nosso mundinho em equilíbrio ficou muito melhor.

Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

van_escolar

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Uma resposta para Mundo em equilíbrio (Marcelo Lamas)

  1. Interessante crônica de visão sobre “acontecimentos” numa cidade pequena. Fato desconhecido para uma cidadã de capital, mesmo sendo capital xucra dos pampas.

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