Escritora Convidada: Elyandria Silva

O LEITEIRO

A cena visitou minha mente naquele instante duvidoso. Era bem cedo. Ainda na cama, sonolenta, escutava o barulho de palmas lá embaixo. Segundos depois minha vó descia a longa escada de nossa casa, abria a porta, tão fechada quanto entrada de calabouço, com uma enorme tramela na horizontal. Poucas palavras trocadas com um homem, trotes vagarosos de cavalo pela rua, o retorno pela escada e a porta sendo fechada. Quando levantava lá estava a garrafa transparente de leite, ainda morno, em cima da mesa. O homem era o leiteiro que, praticamente todos os dias, trazia o nosso leite. Nunca vi seu rosto e durante anos ele foi apenas uma voz que ouvia pela janela. Certa vez ganhamos leite de graça por um ano por conta de uma aposta. De presente de casamento meus pais ganharam uma leiteira que apitava escandalosamente quando o leite estava quente. O leiteiro, sujeito simples e caipira do interior, quando ouviu isto de minha mãe, não acreditou e disse que nos daria leite de graça por um ano caso comprovassem o feito. Perdeu a aposta! Encantado com a geringonça doméstica ele fez questão de cumprir o que prometeu até o último mês, embora meu pai relutasse em aceitar.
Muito tempo depois, eu, a garota que aguardava a chegada do litro branco e morno para levantar e tomar o café me via ali, mais uma vez, diante da comprida prateleira com tantas opções de tipos no supermercado. Olho para a fila do pão e uma ideia inusitada me ataca: uma vaquinha devidamente instalada dentro do supermercado, as pessoas pegando senha, o Sr. Leiteiro sentado no banquinho tirando o líquido das tetas da vaca, enchendo as garrafas, fazendo a chamada do número e entregando aos clientes. Volto para a realidade, me dá uma saudade do tempo em que a vida, de maneira geral, não era encaixada, em que a falta de opção era algo bom. Desejei abrir os classificados dos jornais e ler anúncios do tipo “Precisa-se de leiteiros com experiência. Paga-se bem. Urgente!” ou então “Abertas inscrições para o curso de leiteiro”. Foi para minha surpresa que encontrei este curso na internet com módulo I e II, estrutura curricular, direito a certificado após passar nas provas, claro, tudo pelo valor de 12 pagamentos de R$ 30,00 mensais. Uma barbada não? É, a vida moderna tem dessas coisas!
Fiz a escolha e segui com um poema de Carlos Drummond lá no canto do pensamento “Então o moço que é leiteiro/ de madrugada com sua lata/ sai correndo e distribuindo/ leite bom para gente ruim”. Isso é assim mesmo, são essas lembranças líquidas que, às vezes, nos transportam, por segundos, para uma lasca fina do passado.

Sobre a autora:
Elyandria Silva é graduada em Administração, com pós graduação em psicopedagogia. Além de atuar como cronista fixa e blogueira de literatura do Jornal O Correio do Povo ministra oficinas literárias e de crônicas.
A escritora l
ançou recentemente o seu terceiro livro, Labirinto de nomes (crônicas, Moleskine Editora, 2012). Antes a autora já havia publicado os livros Fadas de Pedra (contos, 2009) e Um lugar, versos e retalhos (poemas, 2010) ambos pela Design Editora.
Além dos livros publicados Elyandria, que transita bem por vários estilos, já havia participado das seguintes coletâneas:

Contos Jaraguaenses (Contos, Design Editora, 2007).
Jaraguá em Crônicas (Crônicas, Design Editora, 2007).
Preliminares (Contos e poesia, SESC, 2009).
Palavra em Cena (Textos teatrais, Design Editora, 2010).
Mundo Infinito (Contos, Design Editora, 2010).

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4 respostas para Escritora Convidada: Elyandria Silva

  1. Inacio Carreira disse:

    Grande Elyandria, que bom ver você e seu texto gostoso como leite quente por aqui, também… Parabéns. Obrigado pela gentileza desta postagem tão gostosa, dessa lembrança tão cara… Eu, que ainda tenho um litro de leite enfeitando o armário da cozinha (comprei-o de um casal de amigos de Santos, no bric-a-brac que existia, há mais de 30 anos, no vão livre do MASP, na Paulista, em Sampa), sei bem o que essa história, vivida tanto na cidade (onde o leite vinha, já, pasteurizado) quanto no campo, no Sitio Invernada, em Campinas, SP, onde passei algumas férias na companhia de uma saudosa tia e primos… Leite quente, manteiga batida em casa, coalhada… Tudo de bom. Mais uma vez, obrigado por desencadear estas gostosas reminiscências…

  2. Patricia disse:

    Oi Elyandria! Bem vinda à este blog cheio de histórias e aventuras tão bacanas!
    Gostei muito do seu texto! Gosto destas crônicas que nos fazem relembrar a infância, lembrar do campo, dos bichos. Pude sentir cheio de pasto enquanto lia e imaginava sua antiga casa.
    Quem diria que um dia fôssemos sentir falta destas coisas, de como vc mesma disse: “quando a falta de opção era algo bom”.
    Sucesso!
    Abração…

    • Adriana disse:

      Eu senti o gosto do leite quente, que minha vó tirava, na caneca de alumínio. O motivo para sairmos da cama cedo nas férias, disputar a primeira caneca. “A morte do leiteiro” sempre me fez imaginar como seria recebê-lo ao invés de ir buscá-lo. Sensação-presente deste texto saboroso de ler…

  3. Nossa! O que dizer desta memória recheada de poesia?
    Encontrei, na África do Sul, 1 garrafa de leite com tampa hermética, voltou comigo para o Brasil e quase está na sala como “bibelô”. Esta palavra também me remete ao leite quente deixado na porta de minha tia, quando seu bairro ainda era ” lá fora”.
    Descrição de vaca numa velha propaganda de leite de caixa feita por uma criança:
    “A vaca é quadrada e tem apenas uma orelhinha por onde nos dá leite.”
    Obrigada por resgatar a vaca de quatro patas, com cheiro de estábulo e que nos dá o leite pelos ubres.
    Adorei!

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