A ferocidade da beleza (Vana Comissoli)

             Eu a conheci de uma maneira tão prosaica que jamais poderia imaginar que se tornaria parte de mim e que sem sua presença em minha vida eu seria sempre metade.

            Era um dia quente, monótono, do tipo que eu denominava tirânico, seu único objetivo era me obrigar a viver. Nesses dias em que sair da cama, acordar, trabalhar, comer, eram atos desgastantes que levavam embora minha paciência e habitual acomodamento à respiração automática. Não havia nada que eu pudesse fazer com ela, simplesmente existia e eu me submetia a contragosto, mas nunca me passara pela cabeça, nem nas noites mais insones, que eu pudesse simplesmente abortar o movimento sistêmico dos pulmões.

            Era meio dia e não me restava outra coisa a não ser fugir do sol a pino me escondendo sob as marquises por duas quadras até chegar ao restaurante mais próximo. Para meu azar era o mais caro, mas estes dias são sempre sem sorte e por isso não me cansei reclamando. Agora ter todas as mesas ocupadas foi demais!

            No fundo do restaurante, perto dos eflúvios gordurosos e odientos da cozinha tinha uma mesa com uma mulher de costas para a entrada. Dane-se, pensei contra minha solidão arraigada, sentarei lá mesmo. Dispus-me a caminhar como quem tem que andar muito rápido sobre areia movediça, senão afunda.

            Pelo tamanho da cabeleira já vi que a mulher deveria ter uns vinte centímetros a mais do que eu, tinha cabelo para dar e vender. Poderia cobrir facilmente minha careca incipiente com a qual eu brigava todos os dias. Já não bastava ter cara de fuinha, boca de chupar ovo e um nariz a la Gerard Depardieu?

            Adoro cinema. É minha grande oportunidade de viver, posso mergulhar num filme com muito mais facilidade do que mergulharia numa piscina e então ser quem eu quiser e ter as mulheres que desejar. Viver o que jamais me seria permitido. Não estou reclamando de nada, apenas pensando no meu perfil que acabei aceitando: uns são favorecidos, outros não. Assim é e brigar só faz tudo se tornar ainda mais difícil.

            Esta minha paixão me deu conhecimento sobre todos os atores e atrizes, meus verdadeiros e fiéis amigos, uma fidelidade bem próxima da real, já que mudavam de nome, histórias e sentimentos, com o mesmo desprendimento com que meus amigos de carne e osso me deixaram para trás. Eu não era uma companhia muito agradável, fazer piadas para compensar seria uma humilhação que não me facilitaria em nada. Me deixaria humilhado. Ser o engraçadinho da turma me traria apenas vergonha e medo do ridículo. Eu já era ridículo o bastante.

            Aquela mulher era a encarnação perfeita da desaparecida Sophia Loren. É eu também tinha disso, gostava das antigas. Era como se o tempo as tivessem levado embora e não a minha palidez de espírito. Enfim, era a minha Sophia. Pedi licença e sentei à sua frente.

            Foi difícil levantar-me e servir um prato no bufê farto. Fiquei pensando qual comida a Sophia julgava conveniente para um almoço que tivesse um pouco de refinamento que eu não tinha. Era um artigo que não precisava me dar ao luxo de conquistar, nunca repartia minha mesa.

            Quando voltei ela levantou uns olhos de Elizabeth Taylor, juro que eram lilases, e sorriu. Não sei como consegui me sentar e muito menos segurar o tremor das mãos. Fiquei sabendo que seu nome era Darlene e que era médica. Viera fazer um atendimento especial numa pessoa querida, não costumava frequentar aquela zona da cidade. E passou o almoço todo tagarelando, contando coisas, piscando os olhos e me deu uma alucinação, só podia ser isso, por que imaginei que me olhava de forma a me enxergar. Mulher alguma até esse dia fizera isso, meus problemas sexuais eu resolvia chamando um Sex Delivery e mal acabava descartava a sem nome com uma gorjeta gorda que a fizesse voltar sem bater boca com a dona do cafetinagem.

            Mas Maura me enxergou. Ao se despedir me estendeu seu cartão e pediu que eu ligasse para ela, gostaria de me conhecer melhor por que era muito simpático. Um homem natural que não tentou me seduzir foram suas últimas palavras.

            O sol não me torrou, as horas deslizaram e os colegas não foram tão distantes. Tudo se coloriu e eu não podia acreditar que aquilo acontecera comigo, alguma coisa estava errada e tinha certeza que Maura não era cega e nem surda.

            Depois de tomar três vidros de Rescue, esse abençoado floral que era meu socorro, eu liguei. Nem sequer fiquei mudo como via nos filmes, falei alto e forte. A convidei para jantar e ela aceitou.

            Eu nunca fora à mãe de santo fazer trabalho e nem acendera vela para santo, então aquilo só podia ser uma paranoia que tomara conta de mim a tal ponto que eu misturava verdade com imaginação. Só o filé Chateaubriand à minha frente e o caldo delicioso rolando na minha língua me deu certeza que estava acontecendo realmente. Maura entrava na minha vida com seu maravilhoso perfume de folha de limoeiro.

            Foi tudo muito rápido, logo sabia o quanto era desesperançada do amor, como fora usada por sua aparência que odiava e me encontrar fora um recado dos céus que confiar em alguém ainda era possível. Ser feliz também era. Fui estonteantemente feliz.

            No fim de ano, pela primeira vez, fui à festa oferecida pela empresa onde trabalhava na gerência administrativa. Quando apareci de braços com meu mulherão, todos os olhos caíram sobre mim, as bocas ficaram entreabertas e teve gente deixando o queixo cair no chão.

            Maura estava deslumbrante. Até o diretor veio me cumprimentar e pedir que apresentasse minha companheira. Não tive dúvidas:

            – Dr. Gonçalo, lhe apresento minha noiva.

            O homem não soube o que responder e Maura depois de lhe apertar a mão, beijou-me no rosto, me fazendo um carinho na face. Era a glória. Eu estava redimido de todos os miseráveis anos passados de minha vida.

            Naturalmente ela se transformou no centro de tudo. Nada havia sem Maura, nem mesmo eu existia. Eu era ela. Passei a caminhar com sua firmeza, a colocar opiniões como quem acredita no que diz, sair à noite sem medo e conduzi-la pela cintura na frente de todos. Pelos ombros seria bem complicado, então pulei este impedimento.

            Após três meses ela propôs se mudar para minha casa. Não podia acreditar, ela me queria de verdade e nem sequer a deixei carregar a menor das caixas, se pudesse até a ela eu carregaria.

            Fui promovido, perdi o medo de mostrar que não era o parvalhão que pensavam, eu entendia do meu trabalho e o fazia bem, muito bem. Meus colegas passaram ir em nossa casa e tínhamos belas noitadas de conversa inteligente e música de primeira qualidade. Maura preparava jantares estupendos e aprendi a comer, a beber bons vinhos e a degustar um verdadeiro Tiramisu, feito com mascarpone legítimo. Se Maura queria mascarpone, ela teria mascarpone. As estrelas, os sapatos, as roupas, as grifes e as férias na Tailândia, pode pedir, eu dizia enquanto ela cortava minhas unhas.

            O sexo foi uma viagem espacial até que Maura resolveu que melhor seria vir por cima de mim. Eu não conhecia luta livre até este momento. Nem grito, tapas e socos na cara. Mas se a fazia feliz… Quem era eu, um quase anão de jardim a contrariar? Não perderia a mulher de minha vida nem que precisasse rastejar.

            Não devia ter pensado isso por que eu rastejei. Ela engordou 10 quilos nos poucos meses seguintes e seus seios me sufocavam, enormes e famintos por comer minha boca. Seu apetite era insaciável e gozava apertando meu membro até me fazer chorar. Ria desbragadamente me chamando de fracote e inútil.

            Mas era Maura…

            Minha casa foi fechada aos meus medíocres colegas e infestada de gente pernóstica que se dizia cult para cheirar cocaína e trepar uns com os outros enquanto eu me enrodilhava no sofá sem saber quem eu era, ou o que eu era.

            Deveria ser miseravelmente banal, não entendia estes rebuscados encontros de prazer, não falava pornografia em francês, não usava o banheiro de portas escancaradas.

            E Maura engordava. Tornou-se imensa, pelo menos era como eu a via, mas os homens na rua, continuavam se voltando para olhá-la. Isso ainda me gratificava. O sacrifício não era em vão e eu tinha Maura.

            Não muito lentamente o sexo acabou, as unhas cresceram, os cabelos caíram mais rápido e voltei a ser calado e distante. Eu tivera Sophia, virou obsessão saber onde ela se escondera. Comprei todos os presentes caros e finos que eu imaginava que a agradassem, os jogava num canto até sair com as joias penduradas nas orelhas e nos dedos para lugares e reuniões onde eu não era admitido.

            À noite eu sonhava com a Maura sentada na mesa do restaurante me dizendo como eu era simpático e quanto queria estar comigo. Deixei que esses sonhos me sustentassem até que se tornaram pesadelos. Ela estendia os braços sobre a mesa, tirava nacos de minha carne e me engolia enquanto um fio de sangue escorria do canto dos lábios.

            Em algum lugar minha culpa deveria estar me espiando e precisava acha-la, me ajoelhar e pedir perdão. Então Maura voltaria para mim com seu riso cheirando a folhas de limoeiro.

            A cama está vazia nesta manhã chuvosa, a chuva bate na vidraça como lágrimas caindo nos óculos. Procurei Maura por tudo, quem sabe a vontade de me trazer café retornara e ela estava na cozinha preparando as torradas do jeito que gosto? Quem sabe escovando os dentes? Quem sabe lendo na sala? Quem sabe? Quem sabe onde ela está?

            A porta do cofre onde guardava as joias estava aberta e ele era uma boca de lobo vazia e escura. Os armários estavam pelados, as sapateiras descalças e eu… Eu estava à poucos centímetros da loucura.

            Fui à sacada sentindo o peito respirando como sempre, naquele mesmo ritmo que não podia mudar apenas permitir. Olhei para baixo e ainda pude ver o carro, último presente que dera à Maura, dobrando a esquina.

            Mudei de emprego, de cidade, procurei a mais obscura que pudesse me engolir e sumi de mim mesmo. Não via televisão, não lia jornais, comia feijão com arroz e um naco de carne sem gosto num boteco qualquer que me obrigava a viver.

            Foi sem querer, foi um relance que me fisgou. No jornaleiro, um periódico aberto puxou meus olhos. Lá estava ela, linda, grande, a cabeleiras lustrosa refletindo sol de piscina. Na cadeira ao lado um homenzinho ridículo, meio careca, meio gordo, de idade a meio, sorria feito um boi de presépio.

Vana Comissoli

Esse post foi publicado em Prosa e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para A ferocidade da beleza (Vana Comissoli)

  1. Tiago disse:

    Hum que perigo.

    Me lembrou uma piadinha velha:
    “O que a noiva interesseira gemia na noite de núpcias?
    – Botatudo, todatudo, bota tudo…

    … tudo no meu nome!”

  2. Inacio Carreira disse:

    Vana continua irretocável. E demonstra, por a + b, o que dizem médicos, psicólogos, psiquiatras e benzedeiras: Paixão é doença. E mata… Obrigado pela bela lição de narrativa…

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s