Perspectivas para uma segunda (Adriana Niétzkar)

– Você poderia cortar os galhos da sua árvore?
O vizinho se aproxima do outro até o limite do muro alto:
– Bom dia! o que disse?
– Sua árvore. As folhas dela estão sujando meu quintal.
O vizinho olha as britas através do muro alto, sufocando um pensamento

                                                                                               “quintal?!”:

– Folhas… Ah sim, as flores do ipê!
O outro pensa,

                                                                                        “Flores?! mas a árvore está toda amarela…”
E por fim diz:

– Certo. Passei a tarde de ontem limpando meu quintal e hoje está tudo assim de novo, você poderia cortar o galho?

                                                          “Ou eu mesmo posso encostar uma escada”

– Sim. Posso, mas ainda assim o vento pode carregar algumas flores…
– E cortar a árvore?

                                                                                        ” Cortar meu ipê? Vou plantar um pé de manga pra cheirar no seu quintal…”

– ahhh… bem, ela logo para de florescer e essas flores são lindas, não são?! passei a manhã admirando elas… eu as deixo sobre meu gramado, veja?!

o vizinho estica o pescoço a contragosto para ver o verde-amarelo do outro:
– Sim, estou vendo…

E lhe dá as costas em um último pensamento.

                                                                                      “Vizinhos”

– Tenha um bom dia!!!
Grita o outro antes de seguir para seu trabalho,

                                                                                       “vizinhos!”

e vai sorrindo para as flores sob seus pés no gramado e em sua calçada antes de caminhar no cimento friu.

                                                      ” Que mal ha em ter um pouco de vida nessa cidade tao sem terrra e cor?!”

O vizinho despede-se com um braço meio levantado, sem olhar pra trás, evitando olhar sua brita, mas logo caminha sobre flores na calçada, mal humorado, as pressas para chegar ao lado limpo. Vê o varredor na outra esquina, quando voltar o serviço dele já terá desaparecido.

                                                                                    “Qual a dificuldade em se deixar a vida no campo?”

Alguns pássaros cantantes pousam sobre os galhos amarelos. A rua povoa-se com o frenesi de carros de todas as cores.

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4 respostas para Perspectivas para uma segunda (Adriana Niétzkar)

  1. Inacio Carreira disse:

    “Passei a manhã admirando elas… eu as deixo sobre meu gramado, veja?” A natureza é efêmera, a imbecilidade humana é permanente… Que pena, que pena…
    Parabéns pelo momento de reflexão.
    FOLHA NÃO É SUJEIRA, FLOR MENOR AINDA…
    Abraços.

  2. Retirem-se as sujas árvores e plantem cemitérios de concreto armado e continuemos armados até os dentes por medo da vida.
    Ah… compre flores de plástico quando a cor lhe fizer falta para sobreviver.

  3. Jeison disse:

    Gostei muito, mesmo!

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