O medo que um livro ainda provoca (Ítalo Puccini)

Em 2009, lembro-me, foram retiradas mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza – o, à época, ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.

A falsa moralidade sofre com as diferenças.

Agora, 2012, deparamo-nos com a proibição do uso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, devido a uma ação, junto ao MEC, do Instituto de Advocacia Racial (Iara), que vê nesta obra a presença de trechos preconceituosos à cor negra.

A literatura era, para Monteiro Lobato, um instrumento de transformação. Literatura, para o maior escritor infantojuvenil que o país já teve, era a própria vida. Foi a partir da vida à sua volta que Lobato construiu sua literatura – tanto a adulta quanto a infantil, esta última alcançando uma repercussão inigualável até os dias de hoje. O Monteiro Lobato homem pouco difere do Monteiro Lobato escritor. Crente de que a literatura representava a vida, em sua obra Lobato deixa claro esta convicção. Seus personagens retratam pessoas próximas, retratam pessoas que existem na vida real, retratam modos de viver e de pensar, retratam uma linguagem que reaproximou o leitor do texto literário, porque coloquial e nem por isso menos inteligente.

Era, o autor, um nacionalista que acreditava na independência do Brasil através da independência econômica, e não era preconceituoso racialmente, como alguns afirmam em função de Negrinha ser apresentada numa posição inferior em sua obra, ou de Dona Benta ser uma empregada doméstica de cor negra. Quando discorria sobre as figuras negras inferiorizadas, ele apenas apresentava uma leitura crítica de uma realidade social da época.

A literatura é tão importante para uma sociedade justamente por permitir aos seus leitores o direito à liberdade de interpretação de um texto, o aprendizado do respeito às diferenças. Porém, ela não tira do leitor aquilo que ele traz dentro de si – no caso, o preconceito. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso, desde que devidamente contextualizadas. Ler um livro ajuda a ler o mundo.

O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou nos best-sellers. Ela está, também, nos livros que provocam o leitor, que propõem um revisitamento às próprias vivências. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan, de um Monteiro Lobato. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de interpretar o mundo no qual está inserido, de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol da qual se é dono.

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Uma resposta para O medo que um livro ainda provoca (Ítalo Puccini)

  1. É de se pensar que todos os livros de História e a p´ropria Bíblia, deveriam ser retirados do mercado. Daráimos “viva!” à hipocrisia humana.
    Talvez este comentário também deva ser censurado, fala na cara que o ser humano pode ser hipócrita!

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