Mensagem (Thiago Daniel*)

Eu queria dizer a ela, mas o tempo é o bote de uma cobra peçonhenta.

Sempre fui um cara “na minha”, falo pouco, jogo pouco, e, em jogos de coração, sempre fui o mais cabação.

Ela sentava ao meu lado, na sala da 6ª série 02. Terceira cadeira.

Acho que ela nunca olhou para mim. Eu queria chamar atenção, juro, sempre quis, mas nunca tive sequer coragem. Não havia santo fazedor de olhares, que a fizesse voltar sua atenção a mim.

Dessa vez era diferente, questão de honra, estava convicto que agora ela me olharia. Precisava disso. Pensei ser discreto, com leves estalos de dedos, uma tossezinha falsa. Nada.

Bolei planos. Era preciso enviar minha mensagem de qualquer jeito. Pensei no Código Morse e comecei a bater compassadamente com minha caneta na carteira. Eu não sabia como funcionava tal código, então logo percebi que não surtiria efeito, e mesmo que eu soubesse tal mensagem, duvido muito que ela atentasse ao meu comunicado. Desisti.

Lembrei de outro velho código dos índios americanos, descoberto pela minha pessoa, assistindo filmes de faroeste com meu pai, os sinais de fumaça. Logo pensei em pedir para o professor licença para ir ao banheiro, assim procuraria algo pra colocar fogo do lado da janela da nossa sala. Ela olharia e pronto, nosso amor estaria a salvo. Logo desisti da ideia, primeiro porque o professor não me deixaria sair da sala em meio a uma prova, segundo que se alguém me visse colocando fogo, dentro da escola, em qualquer coisa que seja eu seria expulso.

Não havia mais tempo. Peguei um pedaço de papel e decidi escrever nele. Em velocidade desumana, pelo menos para mim que sempre escrevi muito lentamente, rabisquei o que eu tinha a dizer. Foram os cinco segundos mais intensos da minha vida. Lembrei das festas juninas, alguém sempre entregava os bilhetinhos de amor para o destinatário, mas agora era diferente, não havia esse tempo, não havia ninguém entre nós. Nem pombos correio. Amassei o bilhete e joguei aos pés dela torcendo para ela ver e catar o papel.

Tarde demais, o papel rolou entre os pés do professor. Estava de costas para mim e de frente para ela. Ele pegou a prova dela, ela se levantou e foi embora.

Estava acabado. Se ao menos eu fosse um tanto mais corajoso.

Ao fim da prova, peguei o bilhete debaixo da cadeira dela. Ele a faria olhar para mim pela primeira vez, talvez até arrancasse um sorriso de seu rosto. Um sorriso dela só para mim.

Abri o bilhete para ler uma última vez antes de jogar no lixo. Li, rasguei e o joguei fora, mas as palavras ecoariam na cabeça por um longo tempo. Aquelas que salvariam o meu amor.

“Guarda esse livro, o professor está te vendo colar”.

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2 respostas para Mensagem (Thiago Daniel*)

  1. Tiago disse:

    Muito boa a sua “mensagem” Thiagão!
    O final me surpreendeu, sou daqueles leitores que leem querendo prever o final e quase sempre me dou mal. rs.

    Em tempo Feliz Aniversário! Que os anos de vida se multipliquem pela quantidade de palavras que escreves.

    Abração.

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